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Pinguim-gentoo pode ser quatro espécies, e DNA revela uma delas em ilhas remotas e isoladas do Oceano Índico

Por Editado por Elisson Amboni
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Por mais de um século, cientistas discordaram sobre quantos tipos de pinguim-gentoo existem. Agora, o DNA desses animais traz novas evidências para a discussão e aponta uma espécie que passou despercebida em um dos arquipélagos mais isolados do planeta.

Um estudo publicado na revista Communications Biology propõe que o pinguim-gentoo, tratado até hoje como uma única espécie, reúne na verdade quatro linhagens evolutivas distintas. Uma delas, que vive nas Ilhas Kerguelen, no sul do Oceano Índico, foi descrita pela primeira vez.

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A pesquisa foi conduzida por uma equipe internacional com cientistas do Chile e da Universidade da Califórnia em Berkeley. Ela também traz um alerta: três dessas espécies podem perder habitat adequado nas ilhas onde vivem até 2050.

A divisão não é inédita: um estudo de 2020 já havia proposto separar os gentoos em quatro espécies, mas a maioria dos pesquisadores não aderiu à ideia.

Quatro pinguins quase idênticos por fora, diferentes no genoma

Os gentoos vivem na Península Antártica e em ilhas subantárticas. Todos exibem a mesma plumagem preta e branca, o bico laranja vivo e a mancha branca acima dos olhos. Há mais de um século, cientistas discordam sobre quantas espécies ou subespécies devem ser reconhecidas.

“Provavelmente não existe espécie de pinguim cuja taxonomia tenha sido mais debatida do que a do pinguim-gentoo. Há mais de 100 anos é controverso quantas espécies ou quantas subespécies existem”, afirmou Rauri Bowie, professor de biologia integrativa da Universidade da Califórnia em Berkeley e um dos autores.

Para resolver o impasse, os pesquisadores sequenciaram o genoma de 64 pinguins de 10 colônias reprodutivas, cobrindo quase toda a área de distribuição da ave. Também compararam medidas corporais, coloração, vocalizações, calendário reprodutivo, dieta e comportamento alimentar.

O resultado sustenta quatro espécies: o gentoo-do-norte (Pygoscelis papua), o gentoo-do-sul (P. ellsworthi), o gentoo-do-leste (P. taeniata) e o recém-descrito gentoo-do-sudeste (P. kerguelensis). O pinguim da Geórgia do Sul, descrito como espécie em 2020, foi rebaixado a subespécie do gentoo-do-sul.

Isolados pelo oceano e pela fidelidade ao ninho

A nova espécie vive nas Ilhas Kerguelen, território francês também conhecido como Ilhas da Desolação. Os autores sugerem que os pinguins da vizinha Ilha Heard pertençam à mesma linhagem, embora não tenham amostrado o genoma de aves de lá.

Os resultados sugerem que as quatro linhagens começaram a se separar entre 300 mil e 500 mil anos atrás. O isolamento geográfico parece ter tido papel importante, reforçado pela Frente Polar Antártica, faixa do Oceano Austral onde temperatura e salinidade da água mudam bruscamente e que pode restringir o deslocamento de animais marinhos.

O comportamento dos pinguins também pode ter contribuído. Eles comem uma grande variedade de presas, incluindo peixes, krill e lulas, conforme o que houver por perto, e por isso talvez não precisem se afastar muito das colônias. Além disso, costumam voltar aos mesmos locais de nidificação ano após ano, o que, ao longo de gerações, pode limitar o contato entre populações distantes.

Os genomas mostraram ainda sinais de seleção natural distintos. Os gentoos-do-sul, dos ambientes mais frios, têm marcas ligadas à produção de calor, ao armazenamento de gordura e à percepção de luz. Os do leste apresentam sinais associados ao metabolismo de carboidratos e ao transporte de oxigênio no mergulho, enquanto os do norte exibem diferenças ligadas à digestão e à atividade muscular e cardíaca.

Essas associações, porém, não provam que uma espécie mergulhe melhor ou produza mais calor que outra.

Ilhas que podem deixar de ser lar

Com modelos climáticos, a equipe estimou onde haverá habitat adequado em 2050 num cenário de aquecimento moderado. As três espécies insulares podem perder condições favoráveis nas ilhas onde vivem, com poucas alternativas próximas. Já o gentoo-do-sul, único que habita a Antártida, seria menos afetado e poderia até expandir sua área.

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“Na Antártida, é claro, outras espécies, e não o gentoo, estão ameaçadas pelas mudanças climáticas, mas o gentoo é o que mais preocupa na região subantártica”, disse Juliana Vianna, professora da Universidade Nacional Andrés Bello, no Chile.

Para ela, é fundamental que instituições de conservação dos países envolvidos reconheçam as três espécies e ajam para protegê-las. Tratadas como parte de uma espécie maior, populações vulneráveis podem passar despercebidas nas avaliações.

Os dados genômicos já estão sendo usados para buscar diferenças genéticas ligadas à sobrevivência à gripe aviária, que atinge pinguins e outros animais selvagens.

“O sequenciamento do genoma completo transformou nossa capacidade de olhar para a adaptação não só do ponto de vista de como as coisas se diversificam, mas ele tem um valor de conservação realmente importante”, afirmou Bowie.

Ainda assim, o DNA sozinho não diz quão bem cada população vai resistir ao aquecimento ou a doenças. Para saber quais pinguins correm mais risco, os pesquisadores precisam combinar os dados genômicos com informações sobre o tamanho das populações, a ecologia e as mudanças nas condições ambientais.

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