E se estalar a língua e escutar o eco fosse suficiente para perceber o ambiente ao redor? A habilidade usada por morcegos e golfinhos pode ser aprendida por adultos em poucas semanas, inclusive por quem enxerga normalmente.
Pesquisadores da Universidade de Durham, no Reino Unido, examinaram o cérebro de 26 voluntários, cegos e videntes, antes e depois de dez semanas de treinamento em ecolocalização. O estudo, publicado na revista Cerebral Cortex, mostra que o córtex visual primário dos participantes passou a responder aos ecos sonoros.
Segundo os autores, esta é a primeira demonstração de mudanças funcionais e estruturais em áreas sensoriais primárias de pessoas que aprendem a técnica já na vida adulta.
O efeito apareceu mesmo em quem nunca perdeu a visão, um resultado que não era esperado.
Os resultados pedem, porém, cautela: a amostra é pequena e as alterações medidas, embora reais, são sutis.
Estalos de língua que viram mapa do ambiente
A ecolocalização consiste em emitir sons e interpretar os ecos devolvidos pelos obstáculos. Morcegos e cetáceos fazem uso corrente dela. Algumas pessoas com deficiência visual também a praticam, usando estalos de língua ou as batidas da bengala no chão.
O ponto de partida veio de um trabalho da mesma universidade publicado em 2021 na PLOS One. Nele, participantes cegos e videntes conseguiram se orientar produzindo estalos e decifrando os ecos ao fim de dez semanas de treino.
O desempenho obtido ficou, claro, bem abaixo do de praticantes experientes, que muitas vezes usam a técnica desde a infância. A lição central é outra: a competência básica é acessível e pode ser adquirida em semanas, mesmo depois de adulto.
Um córtex visual que aprende a ouvir
No novo trabalho, parte da equipe de Durham concentrou a análise em duas regiões: a área V1, o córtex visual primário, e a área A1, o córtex auditivo primário. O resultado de maior destaque envolve a primeira.
Tanto nos voluntários cegos quanto nos videntes, a V1 desenvolveu sensibilidade aos ecos. Pesquisas anteriores haviam registrado plasticidade sobretudo em áreas sensoriais de nível superior, mais distantes da recepção direta do sinal.
A descoberta mexe com uma ideia difundida sobre o cérebro adulto. Acreditava-se que uma área só seria “ocupada” por outro sentido após uma privação prolongada, como a cegueira.
Como os videntes apresentaram adaptações comparáveis, os autores concluem que a capacidade de uma área sensorial primária responder a outra modalidade pode ser vista como uma característica comum do cérebro adulto. Ainda assim, certas mudanças estruturais específicas diferem entre os dois grupos.
Golfinhos, baleias e o papel do cerebelo
Uma terceira pesquisa, publicada em 2025 na PLOS One por equipes dos Estados Unidos e do Reino Unido, abordou o tema pelo viés evolutivo. Os cientistas compararam o sistema auditivo de três golfinhos, que usam ecolocalização, com o de uma baleia-de-barbatanas, que não usa, mas depende muito da audição em ambientes escuros.
As semelhanças foram numerosas, com uma exceção: os golfinhos tinham uma conexão bem mais desenvolvida com o cerebelo. O biólogo Peter Tyack, do Instituto Oceanográfico Woods Hole, lembra que a função atribuída a essa estrutura mudou ao longo do tempo.
Antes vista como centro do equilíbrio e do controle motor, ela hoje é entendida como local de integração de informações sensoriais e motoras e, sobretudo, como um centro de previsão rápida.
As adaptações dos golfinhos também envolvem regiões mais ligadas ao tato do que à visão. Isso sugere que os efeitos da ecolocalização nem sempre aparecem onde seria intuitivo procurá-los.
Com apenas três golfinhos e uma baleia, essa comparação não permite generalizações firmes. Para Peter Cook, especialista em mamíferos marinhos do New College of Florida, a novidade é que as técnicas de imagem finalmente permitem explorar esses sistemas nervosos e entender seu funcionamento.
A expressão “cérebro reconfigurado” também merece moderação. As mudanças observadas nos humanos se enquadram na plasticidade comum a muitos aprendizados, da música à navegação pela cidade.
O alcance prático, no entanto, é concreto. Se adultos aprendem a técnica em semanas, independentemente da acuidade visual, a ecolocalização surge como possível ferramenta de reabilitação para quem perde a visão tardiamente, um grupo que costuma ter mais dificuldade para dominar métodos de orientação.





