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Abelhas nativas brasileiras sofrem mais com agrotóxicos, mas país protege só a europeia

Por Editado por Elisson Amboni
Como editamos

As abelhas nativas do Brasil estão entre as maiores vítimas dos agrotóxicos usados nas lavouras. Ainda assim, as normas que regulam esses produtos no país foram desenhadas para proteger apenas uma espécie introduzida, a Apis mellifera.

Pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Unesp, em Botucatu, e da Universidade Southern Cross, na Austrália, revisaram 115 experimentos de toxicidade com abelhas sem ferrão. Em 72% dos ensaios, essas espécies nativas, chamadas meliponíneos, se mostraram mais sensíveis aos pesticidas do que a Apis mellifera.

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O trabalho, publicado na revista Pesticide Biochemistry and Physiology, reforça que decisões regulatórias não podem se basear em um único modelo de abelha. A revisão, porém, contemplou apenas 24 espécies de abelhas nativas, sendo que há mais de 300 delas no Brasil, e não incluiu novos testes de laboratório.

Polinizadoras de estufa e de florestas em recuperação

As abelhas sem ferrão produzem bem menos mel que a Apis mellifera, o que torna o produto raro e mais caro. Elas também se destacam na polinização de culturas menores e cultivadas em estufa, como pimentão, tomate e morango.

Outro trunfo é a afinidade com a flora nativa, essencial para a biodiversidade local. Por isso, essas espécies são usadas em projetos de regeneração florestal, como os realizados em antigas áreas de mineração desativadas após décadas de operação.

Veneno que entra pela lama, pela resina e pelas folhas

A intoxicação pode ocorrer por ingestão ou contato direto com o produto. De volta à colônia, as abelhas espalham o veneno por limpeza mútua, pela trofalaxia, que é a troca de alimento entre elas, e pelo contato com a cera dos favos.

O estudo mostra que os pesticidas afetam os dois grupos de formas diferentes, já que eles variam em tamanho corporal, padrão de voo e comportamento sazonal. As abelhas sem ferrão, por exemplo, coletam folhas e lama para construir os ninhos, o que abre novas rotas de exposição.

“Quando pensamos na abelha sem ferrão, temos que pensar na terra que está ali perto e pode ficar contaminada. O inseto pode acabar coletando a resina de uma árvore que ficou perto ou então suas folhas, sendo necessário ampliar o leque de avaliação de risco antes de aplicar o pesticida”, afirma Isabella Lippi, autora principal do estudo.

A pesquisadora ressalta que o grupo não se opõe aos agrotóxicos e reconhece sua importância para a produtividade agrícola. O objetivo é incentivar um uso racional, que reduza ao máximo os danos aos polinizadores.

Um protocolo travado pela geografia

Desde 2017, fabricantes de pesticidas no Brasil seguem a Instrução Normativa nº 2 do Ibama, que define as regras para avaliar o risco desses produtos aos polinizadores. Os testes padronizados exigidos, porém, usam exclusivamente a Apis mellifera.

A espécie foi escolhida por estar presente em várias partes do globo, o que facilita a padronização. Os protocolos são validados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), fórum de 38 países que apoia governos na avaliação dos riscos dos pesticidas.

Um protocolo que inclui as abelhas sem ferrão está em desenvolvimento no país, mas esbarra no chamado ring test, em que diversos laboratórios repetem o mesmo ensaio para chegar a um resultado padronizado.

“Entre o protocolo existir e a gente padronizar e registrar na OCDE levam anos. Para registrar, é preciso ter vários países com o mesmo interesse, e nisso há o empecilho dessas espécies estarem presentes principalmente no hemisfério sul, mas não em outros locais do mapa”, explica a pesquisadora Roberta Nocelli, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no câmpus de Araras.

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Nocelli integra agora o PollinERA, projeto internacional financiado pela União Europeia. Para os autores da revisão, o trabalho é um pontapé inicial para que mais pesquisas sejam feitas considerando essas espécies, ainda não contempladas nas regras ambientais vigentes.

Enquanto o novo protocolo não sai, a legislação andou na direção contrária. Aprovado em 2023, o PL 1459/2022 reduziu o papel dos órgãos de fiscalização no registro de agrotóxicos. Segundo Nocelli, eles seguem avaliando os produtos, mas perderam o poder de veto, e a palavra final ficou com o Ministério da Agricultura.

Há, porém, sinais na outra direção. Em 2024, o Ibama suspendeu, como medida cautelar, a pulverização foliar em área total do fipronil, inseticida altamente tóxico que afeta o sistema nervoso dos insetos, após debates nos quais as pesquisas de Nocelli e de colegas da Unesp tiveram influência.

“Apesar de termos dado um passo para trás na questão de legislação, temos dado muitos passos para frente na questão de produção de conhecimento”, avalia Nocelli.

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