O que quatro astronautas conseguem enxergar ao redor da Lua que os satélites não registram da mesma forma? Bastante coisa, segundo o primeiro balanço científico da missão Artemis II, divulgado pela NASA.
A agência publicou o Relatório Científico Lunar Preliminar da Artemis II. O documento reúne fotografias, observações faladas, desenhos e anotações feitas pela tripulação durante os 9 dias, 1 hora e 32 minutos de voo.
Lançada em 1º de abril de 2026, a bordo da nave Orion, batizada de Integrity, a missão levou Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen em uma volta ao redor da Lua. Foi o primeiro voo tripulado ao entorno lunar desde a era Apollo.
Os resultados ainda são preliminares. A NASA disponibilizou o material à comunidade científica e ao público para estudos posteriores, acompanhado de um guia de campo intitulado “Artemis II: Sights & Sounds of Science”.
Uma Terra iluminada pelo luar
A imagem da Terra feita no segundo dia da missão encantou o público, mas os cientistas viram nela muito mais do que uma bela foto. O registro mostra sistemas meteorológicos ativos, auroras nos dois polos, camadas distintas da atmosfera, uma pluma de poeira do Saara, luz zodiacal e luzes de cidades.
Satélites de observação terrestre costumam captar o planeta em faixas, sem uma visão de conjunto. Além disso, o rosto da Terra fotografado pela tripulação estava iluminado pelo luar, e não pela luz do Sol.
A especialista de missão Christina Koch descreveu a cena assim:
“Sinto que, agora, a Lua é uma esponja de luz e a Terra é um espelho de luz. A Terra não se parece muito com as fotos. Não dá para distinguir o azul royal profundo. É só um azul-claro muito, muito brilhante. E os continentes são de um verde-azulado muito escuro. Mas, no geral, tudo parece um azul elétrico”, relatou Koch.
Eclipse de quase uma hora e clarões no escuro
Ao passar por trás da Lua, a tripulação presenciou um eclipse solar total que durou 54 minutos, muito mais que qualquer eclipse visto da Terra. Durante esse período, os astronautas acompanharam a forma e a estrutura em mudança da coroa solar, a camada externa da atmosfera do Sol que impulsiona o clima espacial.
A escuridão também revelou a luz zodiacal ao redor da Lua, produzida pela poeira interplanetária, além de Marte, Saturno, galáxias e a Via Láctea sem poluição luminosa. O astronauta canadense Jeremy Hansen se impressionou com a profundidade das estrelas.
“Sabe, só aprendi isso nos últimos dias, mas há uma profundidade nelas que não se vê da Terra. Então elas parecem mais próximas [ou] mais distantes de acordo com o brilho”, contou Hansen.
Como a Lua não tem atmosfera, meteoroides atingem a superfície sem queimar, liberando energia suficiente para derreter rochas e lançar plumas de regolito. A tripulação filmou esses lampejos durante a perda de comunicação planejada na sombra lunar, algo que nenhum astronauta via desde a era Apollo.
Os flashes provavelmente são os mais fracos já observados a olho nu. Pelo brilho, os cientistas estimam que os objetos tinham no máximo 5 centímetros de diâmetro. Esses dados ajudarão a calcular a frequência dos impactos, informação essencial para proteger futuros habitats, tripulações e veículos na superfície.
Azul de titânio, verde de vidro vulcânico
Amostras trazidas pela missão chinesa Chang’e-6 já haviam mostrado que os dois hemisférios lunares têm histórias geológicas distintas. A Artemis II permitiu examinar o lado oculto a olho nu, com atenção especial às cores que denunciam diferentes rochas e minerais.
Os astronautas relataram tons sutis de cinza, preto, marrom, castanho, branco, verde e azul. O azul corresponde a rochas vulcânicas ricas em titânio, o marrom a rochas ricas em ferro e o verde a vidro vulcânico ou regolito derretido por impactos.
As imagens feitas com câmeras de mão poderão ser comparadas aos dados do Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO), da NASA. O objetivo é entender como cor, tom, brilho, contraste e textura mudam conforme a perspectiva, o que pode ajudar a reconstruir a evolução geológica da Lua e localizar recursos para mineração.
A equipe também pediu atenção ao terminador, a fronteira entre o dia e a noite lunar. Ali, a luz rasante projeta sombras longas que destacam as feições da superfície. Ao longo da borda iluminada da Lua, a tripulação viu crateras e picos com milhas de profundidade e altura.
Essas condições se assemelham às da região da bacia Polo Sul-Aitken, onde a NASA, a China e outras agências planejam instalar seus habitats lunares.





