Marte é hoje um deserto gelado e empoeirado, mas talvez já tenha tido ondas quebrando em praias de areia. Um radar encontrou sinais disso escondidos sob o solo do planeta vermelho.
Dados do rover chinês Zhurong revelaram camadas de sedimentos enterradas muito parecidas com depósitos costeiros da Terra. A análise foi publicada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). Ela é apontada como a evidência mais robusta até agora de que Marte teve litorais semelhantes aos terrestres e um vasto oceano no hemisfério norte.
As estruturas foram identificadas em Utopia Planitia, uma enorme bacia de impacto explorada pelo veículo da Administração Espacial Nacional da China. Segundo o estudo, esse oceano pode ter coberto quase metade do planeta.
A existência de um mar marciano, porém, é debatida há décadas, e o novo trabalho entra numa discussão ainda em aberto.
Um radar que enxerga até 100 metros abaixo da superfície
Hoje, Marte é frio e árido, com uma atmosfera tão rarefeita que dificilmente permite água líquida estável na superfície. Muitos estudos indicam, contudo, que o planeta já teve uma atmosfera mais densa, capaz de manter água líquida em grande escala.
Imagens orbitais, incluindo fotografias feitas pela NASA nos anos 1970, já sugeriam possíveis linhas de costa. As variações de altitude dessas feições, no entanto, tornaram os indícios controversos. Alguns relevos vistos como antigos litorais acabaram reinterpretados como derrames de lava ou formações moldadas pelo vento.
O Zhurong trouxe uma ferramenta diferente para esse debate. Desde o pouso, em 15 de maio de 2021, até entrar em hibernação, em maio de 2022, o rover percorreu cerca de 1,9 quilômetro coletando dados.
Seu diferencial é o Rover Penetrating Radar (RoPeR), um radar de penetração no solo que opera entre 15 e 95 MHz. Com ele, os cientistas identificaram estruturas enterradas a até 100 metros de profundidade, algo que outros rovers marcianos não conseguem fazer.
Camadas inclinadas com assinatura de litoral
Os pesquisadores processaram os dados em várias etapas, removendo ruídos de fundo e melhorando a nitidez do sinal. O resultado foi a identificação de 76 refletores subterrâneos inclinados em direção às planícies baixas do norte.
Ao longo de todo o trajeto, o radar mostrou camadas espessas de material com inclinação de 15 graus rumo ao que seria uma antiga linha de costa. A equipe comparou esse padrão com dados de radar de cerca de vinte áreas costeiras da Terra. Encontrou semelhanças marcantes com a sedimentação deixada pelas ondas ao longo do tempo.
Michael Manga, professor de ciências da Terra e planetárias da Universidade da Califórnia em Berkeley, conta que a hipótese surgiu por exclusão.
“Essas estruturas não se parecem com dunas de areia. Não se parecem com uma cratera de impacto. Não se parecem com derrames de lava. Foi aí que começamos a pensar em oceanos”, afirmou o pesquisador.
Benjamin Cardenas, professor assistente de geologia da Universidade Estadual da Pensilvânia e coautor do estudo, reforça a interpretação.
“Estamos encontrando em Marte lugares que antes se pareciam com antigas praias e antigos deltas de rios”, disse. Segundo ele, há evidências de vento, ondas e muita areia, “uma verdadeira praia de férias” que implica “uma interface dinâmica entre o ar e a água”.
Lava, dunas e rios ficaram fora da explicação
A equipe testou explicações alternativas para as formações. Os derrames de lava foram descartados por causa da permissividade das camadas, medida que indica a capacidade de um material transmitir campos elétricos. O valor médio ficou em 4,4, bem abaixo dos cerca de 9 típicos de depósitos vulcânicos.
As dunas formadas pelo vento também foram rejeitadas. Esses depósitos costumam apresentar ângulos de inclinação variáveis e estratificação cruzada, características ausentes nos dados de radar. Já os depósitos de rios foram considerados improváveis, porque não há redes de vales no local de pouso.
O radar indica ainda que as camadas são formadas por partículas do tamanho de grãos de areia. Não há sinal de poeira fina nem de fragmentos rochosos mais grossos, o que reforça a leitura de praias antigas em vez de dunas eólicas.
Para os autores, as formações provavelmente se desenvolveram em um corpo d’água estável e duradouro. Inundações temporárias ou episódios isolados de degelo não explicariam bem o que foi observado. Na Terra, sedimentos de praia tão espessos levam milhões de anos para se acumular.
O modelo proposto descreve camadas depositadas sob influência das marés. Com o recuo da antiga linha de costa, a água desapareceu e a sedimentação parou. Depois, um longo processo de intemperismo físico e químico formou a camada de solo que hoje cobre esses depósitos.
Se a interpretação estiver correta, a areia e o cascalho trazidos pelas ondas e correntes de um oceano que talvez cobrisse quase metade de Marte continuam guardados sob o solo de Utopia Planitia.





