E se o universo tivesse uma nota musical tão grave que nenhum ouvido humano jamais poderá escutá-la? Ela existe e ecoa há 2,5 bilhões de anos no coração do aglomerado de galáxias de Perseu.
O responsável pela nota é o buraco negro supermassivo da galáxia NGC 1275, no centro do aglomerado, a cerca de 250 milhões de anos-luz da Via Láctea. O “som” corresponde a um si bemol situado 57 oitavas abaixo do dó central de um piano.
As ondas de pressão que formam essa nota foram detectadas em 2003 pelo telescópio espacial de raios X Chandra. A observação foi feita por uma equipe britânica liderada pelo astrônomo Andrew Fabian, da Universidade de Cambridge, e descrita em um estudo publicado na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. A NASA anunciou a descoberta em setembro daquele ano.
A ideia de que essas ondas ajudam a aquecer o gás do aglomerado, porém, ainda é tratada como hipótese.
Bolhas de plasma que fazem o gás vibrar
Para chegar ao resultado, os pesquisadores mantiveram o Chandra apontado para Perseu por mais de 53 horas seguidas. No gás que envolve NGC 1275, aquecido a milhões de graus, surgiram ondulações concêntricas, parecidas com as que se espalham num lago depois que uma pedra é atirada na água.
A origem dessas ondulações está no apetite do buraco negro. Ao engolir matéria e gás ao redor, ele gera bolhas de plasma relativístico que se expandem e empurram o gás vizinho, num movimento comparável a uma respiração gigantesca e regular.
Cada vez que uma dessas bolhas infla, nasce uma onda de pressão que atravessa o gás intergaláctico, de modo semelhante ao som que se propaga pelo ar de uma sala. O detalhe é crucial: o vácuo não transmite som, mas o aglomerado de Perseu não é vazio.
Ele é preenchido por um gás denso o bastante para que essas vibrações viajem através dele. É isso que transforma o fenômeno numa verdadeira nota musical em escala cósmica.
Um si bemol um quatrilhão de vezes grave demais
Os números impressionam. Um piano inteiro cobre apenas sete oitavas, enquanto a nota de Perseu está 57 oitavas abaixo do dó central. Seu período de oscilação é de 9,6 milhões de anos: uma única vibração completa leva mais tempo do que milhões de gerações humanas.
Segundo as estimativas, essa frequência é cerca de um quatrilhão de vezes mais baixa que o limite inferior da audição humana. Para torná-la perceptível, foi criada uma sonificação que acelera as frequências originais em vários quatrilhões de vezes. A versão audível foi publicada em 2022 e retrabalhada em 2025.
Mais do que uma curiosidade, a nota pode ajudar a resolver um enigma antigo da astrofísica. Pelos modelos teóricos clássicos, o gás intergaláctico de Perseu deveria esfriar gradualmente, mas isso não acontece.
O astrônomo Steve Allen, de Cambridge, apontou que essas ondas sonoras podem ser a peça que faltava. Elas carregariam energia acústica suficiente para aquecer continuamente o gás ao redor, impedindo seu resfriamento natural.
O mecanismo também pode influenciar a formação de estrelas no aglomerado, ao alterar sutilmente as condições físicas do meio. Assim, a nota inaudível ajudaria a moldar a evolução de um dos maiores aglomerados de galáxias conhecidos.
Com instrumentos cada vez mais sensíveis voltados para o céu, resta saber que outras melodias invisíveis o cosmos ainda esconde.





