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Neandertais usavam mais madeira que pedra? Moldes em rocha na Espanha preservaram 597 restos de ferramentas

Por Editado por Elisson Amboni
Como editamos

E se a madeira, e não a pedra, tiver sido o material mais usado pelos neandertais? Um abrigo rochoso na Catalunha preservou ferramentas de madeira neandertais de um jeito incomum: em moldes ocos de pedra.

A madeira era provavelmente o material mais trabalhado pelos humanos pré-históricos, por ser fácil de trabalhar. Como apodrece rápido, porém, quase nada dela chegou até nós. Em Abric Romaní, abrigo em Capellades, a oeste de Barcelona, a água rica em minerais envolveu objetos neandertais numa crosta semelhante a calcário e conservou suas formas.

Em estudo publicado na revista Science Advances, arqueólogos espanhóis catalogaram 597 restos de madeira de áreas habitadas entre 62 mil e 40 mil anos atrás. Há lanças, varas de escavação, bandejas de casca, partes de abrigos e uma clava sem paralelo conhecido.

Apenas 13 desses objetos, no entanto, foram feitos ou modificados pelos neandertais.

Moldes ocos esculpidos por água de nascente

O abrigo fica na base de um paredão de travertino, rocha calcária depositada por água de nascente rica em cálcio. Ao gotejar sobre o chão, essa água deixava carbonato de cálcio em tudo o que estivesse ali, como troncos, folhas, pinhas e ferramentas.

Selada na crosta, a madeira se decompôs lentamente e deixou moldes vazios. São negativos perfeitos dos objetos originais, às vezes tão detalhados que o contorno das células vegetais aparece ao microscópio.

Escavado desde 1983, o sítio exigiu um método próprio. Cada achado é delimitado, mapeado e fotografado, e restauradores consolidam a crosta frágil. Antes, os ocos eram preenchidos com resina ou gesso; hoje, são digitalizados por escaneamento 3D e fotogrametria, e as cópias impressas servem à pesquisa e a museus.

Diferentemente das lanças antigas de Schöningen, na Alemanha, ou da ponta de lança de Clacton-on-Sea, na Inglaterra, em geral preservadas em sedimentos encharcados, os achados vêm de um local onde os neandertais viveram por cerca de 20 mil anos.

“Temos uma amostra de ferramentas de madeira para diferentes atividades de subsistência, não apenas a caça”, afirma M. Gema Chacón, arqueóloga do Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social (IPHES-CERCA) e coautora do estudo.

Bandejas de zimbro e fogueiras para dormir

Quatro bandejas rasas de casca de zimbro, a maior com 55 por 20 centímetros, estavam perto de fogueiras. Podem ter servido para carregar alimentos ou recolher brasas, como os pratos de casca chamados coolamons, usados por aborígenes australianos.

Varas cruzadas sobre uma fogueira podem ser restos de um tripé, talvez para processar comida. No fundo do abrigo havia ainda uma vara sem galhos com mais de cinco metros de comprimento.

Ao longo da parede, os neandertais mantinham uma fileira de pequenas fogueiras, com cerca de 50 centímetros e quase sem detritos ao redor. Chacón suspeita que fossem usadas para dormir, pois davam luz e protegiam o grupo de carnívoros ou de outros animais.

Para a equipe, a vara longa ficava apoiada na parede, formando um quebra-vento ou cabana simples. Experimentos mostraram que cinco metros é aproximadamente a medida necessária para essa estrutura. Já na área movimentada do abrigo, fogueiras sobrepostas cercadas de ossos e lascas de pedra marcam o local onde se preparavam alimentos e, segundo a equipe, as refeições eram compartilhadas.

Uma clava sem igual no registro arqueológico

Junto a crânios de cervos-vermelhos surgiram uma vara pontiaguda e duas lanças. A mais bem preservada mede 2,45 metros e, segundo Chacón, um molde de sua ponta exibe uma fratura de impacto idêntica à de lanças aborígenes, do tipo que ocorre quando a ponta atinge osso ou algo igualmente duro.

A maior surpresa, porém, foi uma clava entalhada numa só peça, com cabo de 16 centímetros e cabeça pontiaguda, aproximadamente triangular, com cerca de 14 centímetros de altura. Um degrau em ângulo reto entre as partes pode ter evitado que a mão escorregasse. O único objeto anterior proposto como clava, de Kalambo Falls, na Zâmbia, tem cerca de 400 mil anos.

Caçadores-coletores recentes usavam clavas para abater presas, lutar e até sinalizar status. “Mas, quando se trata desta clava, é verdade que não temos certeza”, admite Chacón. Como ela estava numa área de convívio, a equipe supõe uso cotidiano.

A escolha das matérias-primas também sugere conhecimento. O pinheiro-silvestre, fácil de trabalhar, gerava ferramentas baratas; a lenha tendia a ser seca, e as ferramentas, de madeira fresca.

“Quando iam procurar madeira, era como quando iam procurar pedra; sabiam exatamente o que queriam fazer”, diz a pesquisadora.

Chacón teme que a falta de tempo e verba tenha feito outras escavações deixarem passar achados semelhantes. Segundo ela, colegas relatam ter encontrado e não guardado fragmentos tidos como simples madeira que talvez fossem ferramentas.