Um dente fossilizado com cerca de 9 milhões de anos, pertencente a um parente extinto e de grande porte das capivaras, foi encontrado no Deserto do Atacama, no norte do Chile. O achado chama a atenção porque esses roedores dependem de fontes estáveis de água doce para sobreviver. Ele reforça a hipótese de que um dos lugares mais secos do planeta nem sempre foi tão árido quanto é hoje.
O molar foi descrito em um estudo publicado em 5 de setembro na revista Scientific Reports, assinado por uma equipe que inclui pesquisadores da Universidade do Arizona. O fóssil se soma a evidências anteriores de que dificilmente o Atacama permaneceu seco de forma contínua ao longo dos últimos 40 milhões de anos.
“Encontrar um dente de capivara em um depósito marinho no que hoje é uma das regiões mais secas da Terra é simplesmente bizarro”, afirmou Priscilla Martinez, geocientista da Universidade do Arizona e coautora do trabalho, em comunicado.
Um deserto espremido entre duas muralhas de rocha
Considerado possivelmente o deserto mais antigo do mundo, o Atacama ocupa o terço norte do território chileno. A oeste, a Cordilheira da Costa bloqueia a chuva que vem do Oceano Pacífico. A leste, os Andes barram a umidade que chega do Atlântico. Na porção mais seca de sua região hiperárida, a precipitação fica abaixo de 2 milímetros por mês.
Pesquisas recentes estimam que o núcleo hiperárido do deserto começou a se formar entre 47,8 milhões e 33,9 milhões de anos atrás, entre o Eoceno Médio e o Eoceno Tardio. Isso teria ocorrido cerca de 20 milhões de anos antes do surgimento dos Andes. Se for assim, as montanhas não causaram a aridez da região e podem apenas tê-la intensificado. É justamente a ideia de uma secura ininterrupta desde então que o novo fóssil coloca em dúvida.
Palmeiras, gengibres e um mar raso
O dente não é a única pista de um Atacama mais úmido no fim do Mioceno. Os pesquisadores o encontraram em uma camada geológica que preserva os restos de um ambiente marinho raso, existente entre 7 milhões e 10 milhões de anos atrás. Na mesma área, a equipe identificou fitólitos, fragmentos microscópicos de origem vegetal. Eles revelam que ali cresciam palmeiras, gramíneas, gengibres e outras plantas com flores, possivelmente em uma floresta subtropical.
Esses dados se juntam a um conjunto crescente de indícios de que o deserto já foi úmido o bastante para abrigar crocodilos, peixes de água doce e palmeiras. Como as capivaras são animais semiaquáticos, a presença de seus parentes no local fortalece a hipótese de que o Atacama passou por períodos esporádicos de umidade.
Uma rota pelo litoral, e não pelas montanhas
A capivara atual, Hydrochoerus hydrochaeris, é o maior roedor do mundo. Ela vive sempre perto de água doce e se alimenta de plantas que também precisam de água para crescer. A espécie é nativa da América do Sul, mas hoje não ocorre no Chile, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
Ainda não está claro como esses animais chegaram ao Atacama. Havia capivaras no continente naquela época, mas os Andes formavam uma barreira de cerca de 5.500 metros de altitude entre seus habitats e o ponto onde o dente foi achado. Por isso, os autores propõem que os roedores não cruzaram as montanhas. Eles teriam migrado ao longo da costa oeste sul-americana, seguindo áreas alagadas, rios e outras fontes de água.
Grande demais para ter chegado por acaso
Para Samantha Hopkins, professora de Ciências da Terra da Universidade do Oregon, que não participou do estudo, é improvável que o dente tenha ido parar ali sem que capivaras vivessem na região. “Se você quisesse encontrar uma forma de essa capivara estar aqui enquanto o Atacama ainda era tão seco quanto é hoje, teria uma tarefa difícil pela frente”, disse ela em entrevista por e-mail.
Segundo Hopkins, o tamanho do dente torna difícil seu transporte por longas distâncias. O vento do deserto não conseguiria carregá-lo tão longe. Carcaças grandes podem flutuar por quilômetros em cursos d’água, mas a pesquisadora aponta a contradição desse cenário: “se você vai recorrer a um curso d’água grande o suficiente para fazer isso, já demonstrou que o Atacama, de qualquer forma, não era tão seco quanto é hoje”.





