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Corais nas Ilhas Galápagos revelam que El Niño está muito mais intenso desde a era pré-industrial

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Um arquivo climático preservado por milênios nos esqueletos de corais das Ilhas Galápagos indica que os episódios de El Niño estão se tornando mais intensos em um planeta aquecido. A reconstrução mostra que a força do fenômeno aumentou mais de 36% desde o período pré-industrial, enquanto cerca de 16% dessa escalada ocorreu somente nos últimos 40 anos. O resultado surge em um momento de forte aquecimento das águas do Pacífico equatorial, com potencial para ampliar secas, ondas de calor, tempestades e inundações em diferentes partes do mundo.

As medições recentes citadas em um estudo publicado na revista Science apontam anomalias próximas de 3 °C em uma região do Pacífico central usada para acompanhar o El Niño. Como uma diferença de 2 °C já caracteriza um evento “muito forte”, as condições despertaram preocupação sobre a possibilidade de um episódio excepcional entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027. O Equador, um dos países mais diretamente expostos às chuvas associadas ao fenômeno, declarou alerta vermelho em todo o território.

Corais ampliam a história conhecida do El Niño

Determinar se o aquecimento global está fortalecendo o El Niño é difícil porque as observações instrumentais confiáveis cobrem apenas algumas décadas. Esse intervalo é curto para separar oscilações naturais de uma mudança persistente provocada pelas atividades humanas. Para superar a limitação, pesquisadores da Universidade de Michigan recorreram a corais modernos e fósseis encontrados nas Galápagos, incluindo exemplares com até 4.500 anos.

Os corais produzem sucessivas camadas de carbonato de cálcio, formando um registro comparável aos anéis de crescimento das árvores. A alternância de faixas com diferentes densidades permite estimar a passagem do tempo, enquanto a composição química do esqueleto registra as condições do oceano. Relações entre isótopos de oxigênio e entre estrôncio e cálcio ajudam os cientistas a reconstruir a temperatura da água durante o crescimento de cada camada.

Com esses indicadores, a equipe identificou ciclos sazonais, períodos frios associados à La Niña e anos de calor excepcional relacionados ao El Niño. A cronologia obtida oferece uma perspectiva muito mais longa do que a proporcionada por termômetros, satélites e boias oceânicas.

Últimas quatro décadas destoam do milênio anterior

Os resultados indicam que os episódios registrados nas últimas quatro décadas foram mais fortes do que os de qualquer outro período analisado ao longo do último milênio. Segundo as simulações usadas no trabalho, a variabilidade natural, isoladamente, não explica o tamanho da intensificação.

“Comparamos nossos dados com os registros da temperatura global e constatamos que o aumento da intensidade do El Niño acompanha de perto a elevação das temperaturas ligada às atividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis”, afirmou Julia Cole, paleoclimatologista da Universidade de Michigan e principal autora do estudo.

A conclusão não significa que todos os eventos futuros serão necessariamente extremos. O El Niño integra o ciclo El Niño–Oscilação do Sul, ou ENOS, que apresenta grande variabilidade de um episódio para outro. Ainda assim, a reconstrução sugere que o aquecimento global está alterando o pano de fundo sobre o qual essa oscilação natural se desenvolve, favorecendo extremos mais pronunciados.

Impactos se espalham muito além do Pacífico

O El Niño começa com o aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial, mas seus efeitos alcançam a circulação atmosférica global. Algumas regiões enfrentam chuvas intensas e enchentes; outras registram estiagens, calor persistente e maior risco de incêndios. A influência frequentemente se torna mais evidente no ano seguinte ao início do evento, quando o calor adicional do oceano também pode elevar a temperatura média do planeta.

No Brasil, os efeitos variam conforme a região e a época do ano. Em geral, eventos fortes favorecem excesso de chuva no Sul e condições mais secas em partes do Norte e do Nordeste, além de contribuírem para temperaturas elevadas em uma ampla faixa do país.

Com o aquecimento do Pacífico já em curso, cresce a necessidade de acompanhar alterações nos regimes de chuva, ondas de calor, vazões dos rios e riscos para a agricultura, especialmente porque os impactos não acontecem de maneira uniforme.

Modelagens mencionadas pelo estudo apontam a possibilidade de intensidade sem precedentes na primavera e no verão ainda em 2026. Previsões sazonais, porém, não permitem antecipar com precisão onde cada tempestade, seca ou onda de calor ocorrerá. A expressão “super El Niño” também não corresponde a uma categoria oficial única, sendo empregada informalmente para descrever episódios extraordinariamente fortes.

O alerta mais duradouro deixado pelos corais vai além do evento atual. Ao mostrar que a intensificação recente destoa de séculos de variabilidade natural, esses organismos reforçam a ligação entre a queima de combustíveis fósseis, o aquecimento dos oceanos e a amplificação de extremos climáticos. Quanto maior o aquecimento global, maior tende a ser o risco de que futuras oscilações do Pacífico encontrem condições propícias para produzir impactos humanos, ambientais e econômicos mais destrutivos.