Saúde & Bem-EstarO cérebro pode se recompor depois que metade dele é removido

Estudos mostraram como os cérebros de pessoas que tiveram um hemisfério inteiro removido na infância continuam mantendo suas funções.
Milena Elísios3 semanas atrás
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Um procedimento desenvolvido pela primeira vez na década de 1920 para tratar tumores cerebrais malignos, teve bastante sucesso em tratar crianças que têm malformações cerebrais, convulsões intratáveis ou doenças onde o dano é confinado à metade do cérebro. Muitas das crianças são capazes de andar, falar, ler e fazer tarefas diárias, logo após o tratamento. Esse procedimento é chamado hemisferectomia, e consiste na remoção de total ou parcial de um dos hemisférios do cérebro. É impossível que um adulto viva com apenas um lado cérebro, mas numa criança uma metade pode substituir a outra que foi removida.

Recentemente, uma pesquisa publicada na revista Cell Reports sugere que alguns indivíduos se recuperam tão bem da cirurgia por causa de uma reorganização na metade restante do cérebro. Os cientistas identificaram a variedade de redes que detectam a falta do tecido removido, e simplesmente assumem as funções daqueles tecidos.

Quando os indivíduos que tinham hemisferectomias passaram a ter seus cérebros examinados para o estudo, eles pareciam se comportar como outros adultos tipicamente desenvolvidos. Mas a ressonância magnética, ou R.M.I., mostrou que os indivíduos tiveram metade de seus cérebros removidos durante a infância.

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A maioria das redes cerebrais usa ambos os hemisférios para funcionar. O reconhecimento facial, por exemplo, envolve ambos os lados do córtex cerebral. Outras habilidades, como a habilidade de mover os membros, são processadas por lados opostos do cérebro. O hemisfério direito controla o movimento do lado esquerdo do corpo, enquanto o hemisfério esquerdo controla o braço e a perna direitos.

“Sempre que olhávamos para os seus exames cerebrais, dizíamos: ‘Uau, este cérebro não deveria ser capaz de funcionar'”, disse Ralph Adolphs, neurocientista cognitivo do California Institute of Technology e co-autor do estudo. “Se você pegar qualquer outro sistema que tenha um número de partes cujas funções dependam todas umas das outras, como o coração, e dividi-lo ao meio, não vai funcionar. Você pega meu laptop e o corta pela metade, não vai funcionar”.

Os pesquisadores descobriram que, embora o tipo de conexões permaneça o mesmo nos indivíduos com apenas um hemisfério, diferentes regiões responsáveis pelo processamento de informações sensorimotoras, visão, atenção e pistas sociais fortaleceram as conexões existentes, comunicando-se mais frequentemente entre si em comparação com os cérebros comuns.

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Até recentemente, o consenso científico tem sido de que a cirurgia de hemisferectomia é melhor realizada em uma idade muito jovem, antes que uma criança atinja a idade de 4 ou 5 anos. Dessa forma, eles podem recuperar a função normal à medida que envelhecem. Embora o procedimento seja eficiente na primeira infância, o novo estudo sugere que a cirurgia não deve ser suspensa após uma data final arbitrária, disse o Dr. Gupta. Adultos no estudo foram submetidos à cirurgia de hemisferectomia em idades que variam de 3 meses a 11 anos de idade.

Um fator que pode desempenhar um papel mais importante nos resultados dos pacientes é a idade em que as convulsões começam a ocorrer. A cirurgia ainda é considerada um último recurso após o tratamento médico. Mas se a duração das convulsões e do dano cerebral resultante pode ser limitada, os pacientes podem recuperar mais funções.

A operação de oito horas é complexa e tem alguns riscos. O tecido cerebral tem de ser removido cuidadosamente, uma secção de cada vez, se até mesmo uma pequena fibra ficar para trás, pode eventualmente levar a convulsões, que irão afetar o lado saudável do cérebro. Há também um risco de dores de cabeça contínuas e acúmulo de líquidos cerebrais.

Após a operação, as crianças tornam-se significativamente mais fracas nas mãos e braços do lado oposto ao da operação. Sua visão fica bloqueada nesse lado, e elas também podem perder alguma capacidade de reconhecer de onde vêm os sons.
Em muitos casos, no entanto, essas habilidades já foram comprometidas pelas doenças subjacentes. E o procedimento trás mais qualidade de vida ao paciente.

O artigo científico foi publicado na Cell Reports, você pode acessa-lo clicando aqui.

FONTE / The New York Times

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