Mudanças Climáticas / Aquecimento Global“Dose certa” de escurecimento do Sol pode reduzir o aquecimento global pela metade

A geoengenharia solar trabalha projetando partículas de aerossol na atmosfera superior a fim de mitigar os efeitos do Sol no aumento da temperatura global.
Diógenes Henrique4 meses atrásA Terra vista do espaço por um astronauta (Crédito: NASA)
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Uma nova pesquisa conclui que a “dose certa” de geoengenharia solar pode resfriar o planeta e conter os efeitos da mudança climática sem prejudicar o ambiente, com pequeno impacto negativo no clima de poucas regiões.

Um estudo publicado neste mês defende que pulverizando minúsculas partículas refletivas na atmosfera superior na intensidade certa pode controlar a quantidade de energia solar e mitigar o aumento da temperatura global verificado nos últimos anos. A técnica é chamada de geoengenharia solar.

O artigo, conduzido e publicado por pesquisadores da Harvard University, do MIT e da Universidade Princeton, tira partido do Gerenciamento de Radiação Solar, SRM na sigla em inglês, estudou as consequências de se dispersar aerossóis na estratosfera terrestre a fim de construir um “para-sol químico” que impede parte de a energia do Sol atingir a superfície. Desse modo, a consequência é que haja um resfriamento do planeta Terra. Basicamente, o SRM consiste em estudar como os aerossóis emitidos para a atmosfera pelas erupções vulcânicas interferem no ingresso de energia solar em nosso planeta.

Embora o cenário hipotético avaliado não reverta o aquecimento global nem leva as temperaturas globais de volta aos níveis pré-industriais, em pequenas doses ele pode mitigar as emissões de gases do efeito estufa e reduzir em até a metade o aumento da temperatura global. Essa foi a conclusão dos pesquisadores autores do estudo.

O vídeo a seguir, intitulado “Encontrando a ‘dose’ certa para a geoengenharia solar”, em tradução livre, do canal Harvard John A. Paulson School of Engineering and Applied Sciences, explica os achados do estudo. O vídeo não foi legendado para o português.

Mas a estratégia é arriscada. A chamada geoengenharia solar pode reduzir a precipitação em algumas partes do mundo, aumentando o risco de eventos climáticos extremos, como furacões, concluíram outros estudos.

O tema da geoengenharia solar é controverso entre cientistas. A geoengenharia solar é um ramo da geoengenharia climática que consiste em realizar intervenções em escala geológica para modificar o meio ambiente com o objetivo de reduzir impactos das mudanças climáticas globais.

“Alguns dos problemas identificados em estudos anteriores em que a geoengenharia solar compensou todo o aquecimento são exemplos do velho ditado de que a diferença entre remédio e o veneno é a dose”, disse o autor sênior do estudo, David Keith, em um comunicado de imprensa. “Este estudo dá um grande passo no sentido de usar as variáveis climáticas mais relevantes para os impactos humanos e descobre que nenhuma região definida pelo IPCC é prejudicada em nenhum dos principais indicadores de impacto climático. Grandes incertezas permanecem, mas os modelos climáticos sugerem que a geoengenharia poderia permitir benefícios surpreendentemente uniformes”.

Para ver como a geoengenharia solar pode impactar certas regiões, os pesquisadores usaram previsões de modelo de alta resolução para simular temperaturas extremas, precipitações, bem como índices pluviométricos de tempestades tropicais. Publicando o trabalho na Nature Climate Change, a equipe diz que esses efeitos desiguais podem ser “exagerados”. De fato, o modelo deles sugere que a geoengenharia solar pode reduzir as previsões de aquecimento global futuro na metade. Emparelhado com precipitações extremas previstas e mudanças na disponibilidade de água, mais de 85% dos aumentos nos furacões poderiam ser compensados. O estudo também concluiu que, ao todo, menos de 0,5% da Terra teria condições climáticas pioradas com técnica.

Leia mais em “A maioria das pessoas não sabe que a mudança climática é inteiramente humana”

“Os lugares onde a geoengenharia solar piora as consequências da mudança do clima foram aqueles que viram [nos modelos] a menor mudança climática, para começo de conversa”, disse o autor do estudo, Peter Irvine. “Trabalhos anteriores haviam simulado que a geoengenharia solar levaria inevitavelmente a vencedores e perdedores, com algumas regiões sofrendo danos maiores; nosso trabalho desafia essa convicção. Encontramos uma grande redução no risco climático em geral sem riscos significativamente maiores para qualquer outra região”.

Os autores observam que seu experimento é simplificado, acrescentando que assumiu concentrações duplas de dióxido de carbono no futuro e representando o geoengenharia solar “rebatendo o Sol” sob “cenários idealizados”. O aquecimento reduzido pela metade não é necessariamente ideal, mas é um bom ponto de partida para analisar os efeitos do geoengenharia solar. Uma abordagem mais modesta poderia ter melhores resultados, eles concluem.

A ONU se reuniu por uma semana, de 11 a 15 de março, para discutir novas tecnologias, como a geoengenharia, que visem combater o aquecimento global.

“Como entender e aproveitar potencialmente novas tecnologias disruptivas para o benefício de toda a humanidade é uma das questões que definem nossa era”, disse o ex-secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon. “As futuras gerações não nos perdoarão se falharmos em responder de maneira convincente”.

Referências:

  1. IRVINE, Petter et al. Halving warming with idealized solar geoengineering moderates key climate hazards, Nature Climate Change (2019). https://doi.org/10.1038/s41558-019-0398-8;
  2. TOLLEFSON, Jeff. “Geoengineering debate shifts to UN environment assembly”, Nature 567, 156 (2019). doi: 10.1038/d41586-019-00717-6. Acesso em 16 de mar de 2019;
  3. BURROWS, Leah. “Finding the right “dose” for solar geoengineering”, Harvard News (2019). <https://www.seas.harvard.edu/news/2019/03/finding-right-dose-for-solar-geoengineering> Acesso em 16 de mar de 2019.

 

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