Redescobrindo os estoicos: Uma entrevista com Aldo Dinucci

1270
Morte de Sêneca, estoico romano. Pintura de Jacques Louis David, 1773.

Coisa curiosa, a filosofia estoica está na ordem do dia. Ao menos nos países de língua inglesa, que têm assistido ao lançamento de dezenas de obras sobre o assunto nos últimos anos, em especial voltadas para um público não acadêmico, mais vasto. Dentre elas destacam-se A Guide to the Good Life: The Ancient Art of Stoic Joy (2008), de William B. Irvine, Stoicism and the Art of Happiness (2013), de Donald Robertson e How to Be a Stoic (2017), de Massimo Pigliucci — mas a lista, mais alentada ano após ano, poderia ser estendida por muitas linhas. Também houve aumento na procura por traduções dos grandes estoicos da Antiguidade, numerosas e frequentemente reeditadas em inglês, mas também em francês e espanhol.

À bibliografia crescente, soma-se a realização de eventos como a Stoic Week, cuja edição de 2017 — a quinta — foi encerrada há poucos dias e que tem por objetivo convidar pessoas de todo o globo a viver uma semana como estoicos, e a Stoicon, ciclo de palestras e workshops com psicólogos e professores de filosofia que já visitou quatro continentes. Outras iniciativas de relevo incluem o College of Stoic Philosophers, escola virtual que se propõe formar os estoicos do século XXI, a Stoic Fellowship, que fomenta a criação de comunidades locais de entusiastas do estoicismo e estimula encontros presenciais entre seus membros, um bom número de TED Talks tratando do tema, além de uma comunidade de Facebook que está prestes a atingir a marca de 30.000 seguidores. E, claro, também existe uma infinidade de blogs e alguns podcasts dedicados às aplicações da filosofia estoica na contemporaneidade. A qualidade destes é tão variada quanto a perspectiva de seus idealizadores: há desde acadêmicos esforçando-se por verter em linguagem mais acessível os preceitos do Pórtico até indivíduos que relatam como o estoicismo os têm ajudado a perseverar em suas atividades profissionais. Não é exagero dizer que tal filosofia, em sua metamorfose do presente, revela a mesma versatilidade que a caracterizava quase dois mil anos atrás, quando um ex-escravo, Epicteto, e um imperador romano, Marco Aurélio, puderam tirar benefícios de seus ensinamentos e inspirar aqueles que os cercavam.

Aldo Dinucci, professor de Filosofia Clássica na Universidade Federal de Sergipe que se dedica há quase quinze anos ao estudo e à tradução da obra dos estoicos.
Aldo Dinucci, professor de Filosofia Clássica na Universidade Federal de Sergipe que se dedica há quase quinze anos ao estudo e à tradução da obra dos estoicos.

No Brasil, a tendência se delineia ainda de modo tímido. Isso se deve, em grande parte, à escassez de traduções das fontes primárias do estoicismo, redigidas em grego e latim, para a nossa língua. Também pesa o fato de haver poucos divulgadores de leituras contemporâneas dessa filosofia escrevendo em português e pensando nas questões que nos tocam mais de perto a nós, brasileiros. Mas existem, lógico, os resistentes. Um deles é Aldo Dinucci, professor de Filosofia Clássica na Universidade Federal de Sergipe que se dedica há quase quinze anos ao estudo e à tradução da obra dos estoicos. Em 2012, concluiu em parceria uma das raras versões do Encheirídion que há em nosso idioma, pondo-a à disposição dos internautas. Desde então, vem publicando incansavelmente traduções comentadas dos escritos atribuídos a Musônio Rufo e a seu discípulo mais famoso, Epicteto — de quem recentemente acabou de verter o Livro I de suas Diatribes, feito inédito entre lusofalantes.

Dinucci não se interessa pela filosofia estoica somente como objeto teórico: ele procura incorporar aspectos da sabedoria desses filósofos ao próprio cotidiano. Seguindo tal visão, tornou-se um dos responsáveis pela revista digital Pórtico de Epicteto, a qual, ainda em processo de elaboração, contemplará também uma vertente prática. Falando à SOCIEDADE CIENTÍFICA de sua experiência com os estoicos, o professor da UFS enfatizou a importância da colaboração nos trabalhos acadêmicos, disse-nos algumas palavras sobre sua atividade como tradutor e expressou o desejo de ver o cosmopolitismo estoico ser aplicado como remédio à realidade de divisão — ou será de segregação? — do mundo atual.

Confiram nossa entrevista!

Fale-nos um pouco de sua trajetória acadêmica e do modo como você teve contato com a filosofia estoica.

Iniciei minhas leituras filosóficas quando garoto, lendo primeiro Lucrécio (Da Natureza das Coisas, poema maravilhoso) e depois diálogos de Platão. Sempre senti proximidade com a literatura clássica quando menino, lendo, por exemplo, a Odisseia uma dezena de vezes. Menino, vivia em Petrópolis, nos anos 70 e 80. A cidade era perfeita para ler e meditar. Além disso, tinha inúmeros sebos nos quais eu podia comprar livros de qualidade por preço irrisório. Afora os clássicos, eu gostava muito de poesia brasileira e literatura de divulgação científica, como os livros de Asimov e, sobretudo, de Carl Sagan. A minha graduação na UERJ foi apagadíssima, nada me interessava. Passei o tempo lendo Jung e Philip K. Dick. Meu mestrado e meu doutorado foram sobre Aristóteles, Górgias e o Sócrates dos “primeiros diálogos” de Platão. Um dia, na biblioteca da UCP de Petrópolis, onde então trabalhava, me caiu nas mãos uma edição das cartas de Sêneca. Fiquei chocado: jamais havia ouvido falar dos estoicos em 10 anos de estudos em filosofia! Depois comprei uma coletânea de textos estoicos de Jean Brun. No final do livro, me deparei com o Manual de Epicteto. Fiquei atônito: como um texto daquela relevância poderia estar fora do alcance dos leitores lusófonos contemporâneos? Decidi traduzir do grego a obra, o que realizei efetivamente.

De um ponto de vista prático, quais são os princípios do estoicismo de que você se beneficia em seu cotidiano?

O mais importante para mim é a distinção de Epicteto entre coisas que estão sob nosso encargo (eph’hemin) e coisas que não estão sob nosso encargo (ouk eph’hemin). Segundo este princípio, as coisas externas, aquelas que não se identificam com as operações básicas do pensamento, não são por si mesmas boas ou más, são outrossim materiais para a nossa ação, dos quais podemos fazer bom ou mau uso. Há materiais mais difíceis de lidar, outros mais fáceis, mas todos podem ser utilizados por nós de uma boa maneira. Essa distinção, aparentemente simples e contrária ao senso comum, é extremamente útil. Ao retirarmos o valor das coisas externas e o colocarmos sobre as nossas próprias coisas, nos concentramos sobre o que realmente podemos realizar, aceitando a externalidade como o material que nos é dado para trabalhar. Por exemplo, no caso das dificuldades, quando um problema nos ocorre, como doença, vazamento no encanamento, pessoas desonestas que abusam de nossa confiança, ao invés de nos concentrarmos sobre o fato externo, lamentando e sofrendo, nos concentramos sobre o que podemos efetivamente fazer para, ao mesmo tempo, superar a dificuldade e manter-nos mentalmente saudáveis.

Você vem realizando uma série de atividades que se relacionam à filosofia da Antiguidade, envolvendo alunos e outros professores, no grupo Viva Vox da Universidade Federal de Sergipe. Poderia detalhar essas atividades para nós?

Tenho sempre buscado parcerias. Tirando as traduções, o projeto que mais me realizou foi o que envolveu a produção do livro Introdução à Lógica Proposicional Estoica (2016), que foi revisado com vasta equipe, destacando-se como meu colaborador Luís Márcio Fontes. O livro Górgias de Leontinos (2017) foi finalizado pelo mesmo processo. Minha estratégia para realizar pesquisas é comunitária: caço talentos e os convido a trabalhar comigo. Algumas parcerias duram pouco tempo; outras, muito; mas todas acabam sendo muito frutíferas.

Você publicou em 2012 uma tradução do Encheirídion (ou Manual) de Epicteto em parceria com o professor Alfredo Julien, também da UFS. Desde então, você tem se dedicado a verter para o português a obra que é conhecida como Diatribes, inédita em nossa língua. Como tem sido a experiência de traduzir Epicteto? Quais as principais dificuldades encontradas num trabalho de tradução tão escrupuloso?

Tenho trabalhado há anos traduzindo Epicteto. Já publiquei o Manual, os Fragmentos e, em revistas científicas, o Livro I das Diatribes. Busco sempre parcerias nos meus projetos, pois considero que as traduções, quando feitas em equipe, são grande oportunidade de aprendizado. Tenho trabalhado também na tradução de Musônio Rufo (filósofo estoico e professor de Epicteto) e Ário Dídimo (filósofo professor de César Augusto, que escreveu um tratado sistemático sobre a ética estoica). Acabo de publicar um livro com tudo o que nos chegou de Górgias de Leontinos. Atualmente tenho trabalhado com Luís Márcio Fontes, a quem muito considero.

A experiência com o texto de Epicteto é muito complexa. A tradução bruta é só o início de um longo processo de compreensão e revisão, que passa pela constituição de glossários e pelo aprofundamento nos estudos sobre o estoicismo. Então uma coisa leva à outra: a tradução leva à revisão, a revisão leva ao estudo, e o estudo nos faz debruçar mais uma vez sobre a tradução, num processo sem fim. Após 14 anos burilando, considero boa a tradução do Manual que fiz com Alfredo Julien e que saiu pelos Classica Digitalia de Coimbra (2014). Estou trabalhando para que a tradução do Livro I das Diatribes, que terminei há 14 anos, tenha a mesma qualidade. Recentemente iniciei o processo de tradução do Livro II das Diatribes. Estou com cinquenta anos e espero ter tempo para traduzir o Epicteto todo.

Epicteto e Adriano
Ilustração medieval retrata diálogo imaginário entre o imperador Adriano e Epicteto

Em sua opinião, que importância tem o exemplo do vice-almirante norte-americano James B. Stockdale no ressurgimento do interesse pela filosofia do Pórtico na contemporaneidade?

Sei que os filósofos acadêmicos torceram e torcem o nariz para ele. Mas suas reflexões me chamaram muito a atenção. Ele salienta o caráter prático do estoicismo, assim como Epicteto. E despreza o tecnicismo e a filologia travestidos de filosofia, assim como Epicteto. Então ele é um filósofo no sentido helenístico do termo, o que considero admirável. E que teve uma experiência de vida radical, como prisioneiro de guerra, na qual testou efetivamente o pensamento de Epicteto. Ele é, assim, um estoico na acepção da palavra. O ressurgimento do estoicismo, hoje, está muito ligado a uma visão do pensamento do Pórtico como terapia mental, o que não é senão parte do que é tal filosofia. Stockdale aponta para além disso: para o potencial político do estoicismo. Os estoicos, sobretudo no período imperial, caracterizaram-se pela defesa obstinada da liberdade de fala e de um governo capaz de tratar com dignidade seus governados, pelo que criticaram a tirania corajosamente, muitas vezes pagando isso com a própria vida. Stockdale resgatou o caráter político do estoicismo, tanto como prisioneiro em Hanói quanto com suas corajosas críticas à política norte-americana interna e externa.

Sabemos que o estoicismo nasceu sob os escombros da pólis grega por volta de 300 a. C. e disseminou-se no seio da elite romana de meados do século I a. C. em diante, em um período marcado pelo fim da República e pela sucessão de imperadores tirânicos. Posteriormente, houve uma tentativa de revivê-lo, com Justo Lípsio e Guillaume du Vair, no contexto das guerras entre católicos e protestantes na Europa. É possível dizer, portanto, talvez sem incorrer em grande temeridade, que os ideais estoicos costumam florescer em épocas de grande crise. Se o que ficou dito é verdade, em sua visão, a que crise o interesse atual pelo estoicismo parece estar respondendo?

Vivemos numa época de grande divisão, salienta-se a divisão de gênero, de etnia, de religião, de ideário político, de nacionalidade etc. Perdemos por completo uma visão humanista, pela qual podemos experienciar a humanidade como um todo, como uma só entidade. Isso, por outro lado, é absolutamente essencial para que possamos tratar os humanos com igualdade e fraternidade. Hiérocles salienta que os laços afetivos se lançam com mais força na esfera consanguínea, depois na esfera da cidade e da nação. O exercício de estender laços afetivos à humanidade como um todo e de perceber os humanos como irmãos depende de uma educação humanística e não ocorre espontaneamente. Os estoicos nos oferecem tal possibilidade ao afirmar o ideal de Cosmópolis. Cosmópolis efetivamente não é uma utopia, uma cidade ideal como a de Platão. Adquire-se a cidadania cósmica ao compreender que a humanidade e os demais viventes são partes de um todo, o Cosmos, e que efetivamente formamos uma comunidade, uma irmandade. O estoicismo pode nos suprir essa visão humanística. Não creio que haja doutrina política mais saudável que esta para o humano atual.

Há uma citação estoica de sua predileção? Poderia compartilhá-la conosco?

Manual de Epicteto inteiro está repleto de citações tais. Não as tenho de cabeça à disposição, mas elas me vêm à mente diante das situações que enfrento. Na mente tenho sempre diversas anedotas relativas a Diógenes de Sínope, o cão. Duas delas me vêm à cabeça sem cessar. A primeira é a seguinte: Platão vê Diógenes lavando pés de alface numa fonte e diz: “Se honrasses o tirano Dioniso, não terias de lavar pés de alface”. E Diógenes responde: “Se eu não lavasse pés de alface, teria de honrar o tirano Dioniso”. A outra é sobre Diógenes visitando a casa de um homem rico. A cada passo, o homem lhe dizia “Não cuspas neste tapete, custou muito caro”, “Não cuspas neste mármore, é caríssimo”. Finalmente, Diógenes junta bastante escarro em sua boca e cospe bem na cara do homem rico que, atônito, lhe pergunta por que ele fizera isso. Ao que Diógenes responde: “É o lugar mais ordinário que encontrei em sua casa”.

Você poderia nos citar três obras fundamentais para a compreensão da filosofia estoica?

São elas: Manual de Epicteto, escrito por Flávio Arriano, mas tradicionalmente atribuído a Epicteto; Elementos de Ética, de Hiérocles; Epítome de ética estoica, de Ário Dídimo.

O que um jovem disposto a estudar filosofia precisa ter em mente quando está diante de um texto da Antiguidade? Como ele pode tirar proveito de sua leitura para além de um interesse meramente teórico?

Não faço a menor ideia! Tenho tentado há anos salientar e enfatizar em sala de aula o caráter prático do estoicismo, sem nenhum sucesso. Tenho tido mais sucesso com minha escrita, sobretudo a edição universitária do Manual de Epicteto (Introdução ao Manual de Epicteto), que é uma obra de divulgação, como uma apresentação sumária, mas correta, do estoicismo, de Epicteto, de seu Manual, acrescida da tradução que fiz com Julien, além de notas. Esse livro tem feito o trabalho de divulgar o caráter prático do pensamento de Epicteto. E graças a ele tenho feito bons amigos no Brasil, gente que por si mesma encontrou o fio da meada da filosofia prática, como Antonio Tarquínio, Paulo César Gonçalves e Renato Diniz, com os quais tenho dialogado muito ao longo da última década sobre a prática do pensamento de Epicteto, trocando reflexões e experiências.

Por Donato Ferrara

Publicação arquivada em