O Mito de Sísifo: uma alegoria para o dia a dia humano

Felipe Miranda
Colossal Krater from Altamura, de 350 AEC. (National Archaeological Museum of Naples, 81666. By permission of the Italian Ministry of Heritage and Culture and Tourism. National Archaeological Museum of Naples – Conservation and Restoration Laboratory).

Há até mesmo uma palavra na língua inglesa inspirada no mito de Sísifo: ‘Sisyphean’. A palavra descreve uma tarefa que não pode ser concluída, como tentar apagar um grande incêndio com um balde. A história é um dos famosos mitos da mitologia grega e, como veremos mais tarde, serve como alegoria filosófica para o mundo atual dos humanos.

Acredita-se que o mito seja inspirado em algum ciclo da natureza, como o nascer e o pôr do Sol.

Segundo a mitologia grega, Sísifo era um rei extremamente astuto. Zeus já estava furioso por ele ter quebrado a xenia – a hospitalidade dos anfitriões aos hóspedes e viajantes que buscavam por abrigo em suas propriedades. Sísifo matava diversos desses convidados. Mas Zeus se desagradava com as tentativas de se demonstrar um rei implacável.

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Sisyphus, por Titian, de 1548 ou 1549.

O mito de Sísifo

A ira de Zeus se elevou mesmo quando Sísifo revelou que o principal deus grego raptara a filha de Asopus (que por sua vez, era filho de Poseidon). O deus do rio, Asopus, havia aceitado a condição de criar uma fonte de água eterna para a cidade de Sísifo, para saber o paradeiro de sua filha.

Então, Zeus mandou a morte (chamada Thanatos), buscar Sísifo. Mas o astuto rei fingiu ter curiosidade para saber como as correntes de Thanatos funcionavam. Ao demonstrar, o rei deu a volta por cima e aprisionou a própria morte. Mas Ares, o deus da guerra, foi enviado para libertar a morte, já que com ela presa, ninguém poderia morrer. A personificação da morte, então, correu para cumprir a sua tarefa, levando Sísifo para o submundo para onde iam os mortos. 

Mas o rei pediu que, ao morrer, sua esposa jogasse seu corpo em praça pública. Quando sua alma chegou ao submundo, disse para a deusa Perséfone que sua esposa não lhe deu um enterro digno, mas simplesmente abandonou seu corpo. A deusa, então, permitiu que Sísifo voltasse para o mundo dos vivos para se vingar, contanto que retornasse ao mundo dos mortos logo em seguida.

Sísifo viveu até uma idade bastante avançada, mas foi novamente levado ao mundo dos mortos. Lá, como punição, Zeus o obrigou a rolar uma pedra enorme montanha acima. Mas sempre que ele se aproximava do topo, a pedra rolava para baixo novamente, e ele ficaria eternamente preso nesse ciclo. 

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Entalhe do mito de Sísifo em um templo da deusa Hera. (Miguel Hermoso Cuesta / Wikimedia Commons).

Sísifo e a atualidade

Em 1942, o filósofo Albert Camus lançou, pela primeira vez, o livro O Mito de Sísifo. Escrito em 1941, o ensaio busca na história uma alegoria para as tentativas falhas do ser humano em buscar a sua essência. O livro é curto, mas excelente, e recomendo fortemente sua leitura. Você por lê-lo em poucas horas. Acesse-o através deste link.

Camus faz parte das Escolas filosóficas do Absurdismo e do Existencialismo. Então, seu texto leva o leitor lentamente à sensação do Absurdo, em uma interpretação bastante niilista da realidade. A sensação do Absurdo ocorre quando você não se anima com absolutamente nada – tudo é entediante e o mundo, outrora bonito, torna-se irreconhecível.

O livro é tão absurdo, que Camus aborda dois caminhos: o suicídio e um novo caminho para o mundo. Obviamente, ele não incentiva o suicídio, mas o novo caminho. O mito de Sísifo é uma excelente alegoria para o tédio da repetição no mundo contemporâneo. 

Com informações de Ancient Origins e Britannica.

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