Parece natural pensar que o vermelho de um morango pertence ao próprio morango. Segundo um argumento em debate, porém, a cor pode não estar nos objetos, mas ser algo que percebemos pela forma como os olhos processam a luz. A ideia não é consenso, e o debate sobre o que a cor realmente é segue aberto.
O que existe no mundo físico são fótons com diferentes comprimentos de onda, que atingem as superfícies e são em parte refletidos. A experiência de ver vermelho acontece depois, dentro de cada pessoa, e talvez não possa ser medida de fora.
A discussão ganha um exemplo literário em O Doador de Memórias, romance de Lois Lowry publicado em 1993. Nele, o garoto Jonas vive numa sociedade distópica que eliminou as diferenças por engenharia genética e deixou todos daltônicos. Quando o cabelo de uma colega parece de repente “mudar”, ele não consegue descrever o que viu. Era o vermelho.
Muitos neurocientistas concordariam com a premissa da cena. Hipoteticamente, alguém que enxergasse cor pela primeira vez ficaria sem palavras para descrevê-la, mesmo sabendo tudo sobre como a cor funciona. E até quem vê cores desde sempre tem enorme dificuldade de explicar o que elas são.
Dos cones na retina ao córtex visual
Parte do problema é que enxergamos só uma fatia estreita da radiação eletromagnética. A luz visível ocupa uma faixa de comprimentos de onda entre o ultravioleta e o infravermelho. Mesmo assim, conseguimos distinguir até cerca de 10 milhões de cores dentro dela.
Por isso, os telescópios mais potentes captam o que nossos olhos não processam, de raios gama a ondas de rádio. Os dados sobre buracos negros, supernovas e estrelas distantes são depois traduzidos em cores para que possamos interpretá-los.
No dia a dia, o caminho é mais direto. A luz que um objeto não absorve é refletida e entra pela córnea, que a desvia em direção à pupila. A íris regula quanta luz chega ao cristalino, que a focaliza na retina.
Ali estão os fotorreceptores, de dois tipos. Os bastonetes funcionam com pouca luz, mas não distinguem comprimentos de onda, e por isso o mundo fica cinzento no escuro. Já os cones, responsáveis pela visão de cores, têm fotopigmentos que respondem à luz mais intensa.
Cada tipo de cone é mais sensível a comprimentos de onda próximos do vermelho, do verde ou do azul. O sinal segue pelo nervo óptico até o córtex visual, e a experiência completa o resto. Como o cérebro desconta a iluminação do ambiente, um objeto conhecido mantém sua cor mesmo sob luz tingida.
O vestido que dividiu a internet e o enigma dos qualia
A palavra decisiva aqui é perceber. A cor pode ser um quale, conceito filosófico controverso tanto entre cientistas quanto entre filósofos.
Os qualia seriam experiências sensoriais únicas de cada pessoa, impossíveis de quantificar pela física. O comprimento de onda do vermelho é mensurável. Já a forma como Jonas vê o cabelo da colega pertence só a ele, assim como pessoas que provam o mesmo prato descrevem sabores diferentes, mas parecidos.
O famoso vestido de 2015 mostrou isso na prática. A peça era azul e preta, mas muita gente jurava vê-la branca e dourada. Uma pesquisa da Universidade de Nova York associou a diferença aos hábitos de sono. Quem costuma dormir tarde tendia a ver azul e preto, enquanto os madrugadores, mais acostumados à luz do dia, viam branco e dourado.
O reflexo na foto distorcia as cores de qualquer forma. Até quem acertou o azul se surpreendeu com o quanto o vestido era escuro depois que a imagem foi ajustada.
Materialistas e não materialistas talvez nunca concordem se tudo cabe na física. Ainda assim, nossas realidades não são tão diferentes: todos estamos imersos na mesma experiência humana. E, real ou não, isso não é motivo para deixar de experimentar e apreciar a cor.





