Sob uma pequena cidade do Oklahoma, a quase três quilômetros de profundidade, está a cicatriz de um asteroide que, segundo estimativas dos pesquisadores, teria mais de um quilômetro de diâmetro. Uma nova datação sugere que esse impacto pode ter contribuído para uma das maiores extinções em massa da história do planeta.
A cratera de Ames, batizada em homenagem à cidade de poucas centenas de habitantes que fica sobre ela, tem 16 quilômetros de diâmetro e está enterrada sob 2,7 quilômetros de rochas sedimentares. A estrutura foi identificada em 1991, mas sua origem ainda gerava dúvidas.
Agora, um estudo publicado na revista Meteoritics & Planetary Science, assinado por uma equipe de cientistas dos Estados Unidos, indica que a cratera se formou há cerca de 370 milhões de anos. Isso a torna aproximadamente 100 milhões de anos mais jovem do que apontavam os modelos anteriores.
A nova idade coloca o impacto em plena extinção do Devoniano, que eliminou cerca de 75% das espécies de animais e plantas da época.
Os autores, no entanto, são cautelosos. O asteroide pode ter sido um dos culpados, mas não pode ser responsabilizado sozinho pela catástrofe.
O zircão que rejuvenesceu a cratera de Ames
Até então, a cratera era associada ao chamado evento meteorítico do Ordoviciano. Nesse período, que se estendeu por algumas dezenas de milhões de anos, a Terra foi bombardeada por uma grande quantidade de meteoritos do tipo condrito.
Esse bombardeio deixou diversas crateras que ainda hoje são estudadas, como as da Suécia, da Finlândia e da região da fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá. Ames costumava entrar nessa lista.
Os pesquisadores, porém, examinaram de perto rochas recuperadas da cratera e encontraram zircão. Esse mineral funciona como um relógio natural, porque pode ser datado a partir da quantidade de urânio presente em sua estrutura.
A equipe aplicou diferentes técnicas de datação, e todas chegaram ao mesmo resultado: a cratera é bem mais jovem do que se imaginava. A revisão, destacada pelo site Space, muda completamente o lugar de Ames na cronologia dos impactos na América do Norte.
Um suspeito entre vários na extinção do Devoniano
A extinção do Devoniano está entre as cinco maiores extinções em massa conhecidas. O desaparecimento de cerca de três quartos das espécies é atribuído a mudanças no nível do mar e no clima, mas os cientistas ainda discutem o que desencadeou essas transformações.
Várias causas possíveis já foram propostas, e os impactos de asteroides estão entre elas. Nesse cenário, o objeto que caiu onde hoje fica o Oklahoma ganha o papel de potencial cúmplice.
Para os autores, parece certo que o impacto provocou grande destruição. Ainda assim, eles evitam atribuir a ele toda a responsabilidade pela crise biológica que marcou o período.
Trabalhos anteriores consideravam que os impactos de asteroides tiveram efeito relativamente pequeno no Devoniano, restrito a algumas regiões do planeta, como a Austrália. Em outras partes, erupções vulcânicas e a radiação que atravessou uma camada de ozônio danificada teriam iniciado a reação em cadeia que levou à extinção em massa.
A nova datação de Ames reacende o debate, já que outras crateras nos Estados Unidos também podem coincidir com a época do desaparecimento das espécies. Resta saber se o papel dos meteoritos na extinção do Devoniano foi subestimado até agora.





