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Vivemos dentro de um buraco negro? Hipótese ousada diz que cada buraco negro esconde um “universo bebê”

Por Editado por Elisson Amboni
Como editamos

E se todo o nosso Universo fosse o interior de um buraco negro, abrigado dentro de um universo “pai” ainda maior? A ideia, uma das mais ousadas da cosmologia, voltou ao debate por causa de uma curiosa assimetria na rotação das galáxias.

Observações do Telescópio Espacial James Webb indicam que cerca de dois terços das galáxias de uma amostra giram no sentido anti-horário quando vistas da Terra. O físico Nikodem Poplawski, da Universidade de New Haven, nos Estados Unidos, vai além: segundo uma extensão da relatividade geral que ele defende, cada buraco negro conteria um “universo bebê” em seu interior.

Trata-se, porém, de uma hipótese teórica, sem confirmação experimental. A própria origem da assimetria observada continua sem explicação consensual.

Duas em cada três galáxias giram para o mesmo lado

Se o Universo fosse perfeitamente aleatório em grande escala, metade das galáxias deveria girar em um sentido e metade no outro. Não é o que os dados vêm mostrando.

A primeira pista surgiu em 2011, quando o físico Michael J. Longo publicou na revista Physics Letters B uma análise de 15.158 galáxias espirais. Ele concluiu que as galáxias de um setor do céu pareciam ter um sentido preferencial de rotação.

Em 2022, um estudo sobre a rotação de galáxias encontrou, em certas regiões dos levantamentos astronômicos, uma preferência por um dos sentidos de giro. No ano passado, a equipe do cientista de dados Lior Shamir, da Universidade Estadual do Kansas, publicou um novo trabalho com dados do James Webb: das 263 galáxias analisadas, cerca de dois terços giravam no sentido anti-horário.

Segundo Shamir, nas imagens do telescópio a diferença é perceptível até para quem não tem formação científica. Ainda assim, um padrão visível não equivale a uma explicação.

Um cosmos que já nasceu girando

O próprio Shamir reconhece que ainda não está claro por que a assimetria ocorre. “Uma explicação é que o universo nasceu girando”, afirmou o pesquisador em comunicado da Universidade Estadual do Kansas. “Essa explicação está de acordo com teorias como a cosmologia de buracos negros, que postula que o universo inteiro é o interior de um buraco negro.”

Poplawski aposta na teoria da gravitação de Einstein-Cartan, uma extensão da relatividade geral que leva em conta o spin das partículas elementares. O elemento central dela é a torção, uma possível “torcedura” no espaço-tempo que, em densidades extremas como as do início do Universo, poderia até se contrapor à gravidade.

Como todas as estrelas giram, todos os buracos negros também giram, argumenta o físico. “Se o nosso universo nasceu em um buraco negro em rotação, então ele teria herdado o eixo de rotação desse buraco negro como um eixo preferencial”, disse.

Buracos negros como portas de mão única

Em um artigo de 2021 no Journal of Experimental and Theoretical Physics, Poplawski propôs que a torção faria todo buraco negro gerar um pequeno universo em seu interior. Visto de fora, o buraco negro funcionaria como uma ponte de Einstein-Rosen, o chamado buraco de minhoca, ligando esse universo novo ao universo “pai”.

“De acordo com a minha própria pesquisa, todo buraco negro cria um novo universo fechado e em crescimento do outro lado do seu horizonte de eventos”, afirmou.

Em tese, seria até possível entrar nesses universos. Buracos negros pequenos provocam a “espaguetificação”, um estiramento extremo e fatal; nos gigantes, essas forças seriam mínimas na travessia do horizonte. “A questão seria em que tipo de universo poderíamos ir parar; ele teria de ser velho o suficiente para estar frio e povoado de estrelas”, ponderou Poplawski.

Também não haveria volta: a matéria só atravessaria a ponte em um sentido. “Um universo bebê é, portanto, um ramo separado e fechado do espaço-tempo, com sua própria linha do tempo”, resumiu o físico.

O teste pode estar dentro de um elétron

Para Poplawski, a torção poderia ser investigada em laboratório, medindo elétrons presos em uma armadilha de Penning, um dispositivo magnético, com precisão suficiente para revelar sua estrutura interna em escalas cerca de 100 mil vezes menores que as acessíveis hoje. Ele acredita que esse tipo de medição pode se tornar possível em um futuro relativamente próximo.

Até lá, a ideia de que vivemos dentro de um buraco negro permanece no terreno das hipóteses, e viajar para outras realidades segue como matéria de ficção científica.