Ir para o conteúdo
Siga-nos no Google

Bióloga brasileira tem “encontro assustador” com lula raríssima a 3,2 km de profundidade no Pacífico

Por Editado por Elisson Amboni
Como editamos

Uma rara lula do gênero Magnapinna, conhecida como lula-de-barbatanas-grandes, foi filmada a 3.277 metros de profundidade nas proximidades do monte submarino Davidson, na costa central da Califórnia. O registro é o primeiro confirmado desse enigmático cefalópode no nordeste do Oceano Pacífico.

O encontro ocorreu em 7 de agosto, durante uma expedição do Instituto de Pesquisa do Aquário da Baía de Monterey (MBARI). Enquanto o veículo operado remotamente Doc Ricketts examinava o fundo marinho, o animal surgiu na escuridão, movimentando lentamente suas grandes barbatanas e mantendo os dez apêndices estendidos abaixo do corpo.

Menos de 70 exemplares de Magnapinna foram observados ou coletados em todo o mundo.

“Cotovelos” revelaram a identidade da lula

Ao portal australiano Science Alert, a bióloga brasileira de águas profundas Olívia Soares Pereira, do MBARI, disse ter imaginado estar diante de uma água-viva. A identificação mudou quando apareceram as características do animal.

“No começo, eu só conseguia ver as pontas do que pareciam tentáculos finos, então pensei que fosse uma água-viva, mas, quando os ‘cotovelos’ apareceram na tela, soube que aquilo era algo realmente especial”, ela contou à colunista Michele Starr.

O sistema de medição a laser do veículo estimou que a lula tinha cerca de 1,25 metro entre o topo do corpo e as extremidades dos braços. Seu manto, relativamente curto, é ladeado por duas barbatanas desproporcionalmente grandes, responsáveis pelo nome Magnapinna, que significa “barbatana grande”.

Como outras lulas, ela possui oito braços e dois tentáculos. A diferença visual entre essas estruturas, porém, é pouco evidente: todas terminam em filamentos extremamente longos e finos, que podem alcançar vários metros. Ao “pairar”, o animal projeta os apêndices quase perpendicularmente ao manto e depois os dobra em ângulos próximos de 90 graus, formando a chamada postura de “cotovelo”.

Uma possível armadilha suspensa na escuridão

A função dessa posição incomum permanece desconhecida. Uma hipótese é que a lula flutue sobre o fundo para capturar passivamente pequenos organismos que encostam e aderem aos filamentos. Nesse cenário, as dobras manteriam braços e tentáculos afastados e reduziriam o risco de que se emaranhassem.

As evidências disponíveis, entretanto, ainda não permitem confirmar essa estratégia. “Ainda não sabemos o que as lulas-de-barbatanas-grandes comem”, afirmou Olívia. Também não se sabe como elas dominam as presas, acasalam ou completam seu ciclo de vida.

O gênero reúne os cefalópodes registrados nas maiores profundidades. Um indivíduo já foi avistado a 6.212 metros, quase quatro milhas abaixo da superfície, em um ambiente de frio permanente, pressão extrema e ausência de luz solar.

Rara ou apenas difícil de encontrar?

Embora sejam poucos, os encontros estão distribuídos pelos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico. Há registros no Golfo do México, na dorsal Mesoatlântica, na Austrália, no Havaí, nas Filipinas, na Micronésia e nas Ilhas Cook. Por isso, a descoberta na Califórnia não representa uma ampliação expressiva da distribuição conhecida, apesar de preencher uma lacuna regional.

Uma análise global recente dos registros de Magnapinna estimou que ambientes adequados ao gênero podem abranger 62% da área e 70% do volume dos oceanos. Para a Olívia, a dispersão dos avistamentos sugere uma raridade real, mas o tamanho do oceano impede uma resposta definitiva.

A equipe não procurava lulas durante o mergulho. Os pesquisadores investigavam sulcos no sedimento que possivelmente foram produzidos por baleias-bicudas em busca de alimento. A presença da Magnapinna levanta a possibilidade de que outro predador também aproveite os recursos concentrados naquele ambiente.

Montes submarinos desviam correntes e podem acumular nutrientes, transformando-se em refúgios de biodiversidade. Situado cerca de 130 quilômetros a sudoeste de Monterey, o Davidson já era conhecido por seus jardins de corais antigos e por um extraordinário berçário de polvos.