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Saúde & Bem-Estar

Médicos restauram parcialmente a consciência em homem que passou 15 anos em estado vegetativo

As imagens do EEG mostram um aumento do compartilhamento de informações em todo o cérebro, como evidenciado pelas cores amarela e laranja, seguindo a estimulação do nervo vago. Crédito: Marc Jeannerod/Institut des Sciences Cognitives

Médicos na França restauraram um nível mínimo de consciência em um homem com lesões cerebrais profundas que está em estado vegetativo há mais de uma década. Suas descobertas, publicadas nessa segunda-feira, podem liberar caminho para um possível tratamento capaz de recuperar a consciência de milhares de pacientes anteriormente pensados serem incapazes de saírem do estado vegetativo.

Pela primeira vez, os médicos usaram um tipo de dispositivo de estimulação nervosa para restaurar a consciência em um paciente que passou 15 anos em estado vegetativo por lesão cerebral.

Ao contrário de um coma, em que uma pessoa está como dormindo e não responde, um paciente em estado vegetativo está parcialmente acordado, mas não mostra sinais de consciência ou função cognitiva, mesmo que eles possam ter reflexos básicos como piscar quando assustados. Às vezes, as pessoas podem sair de um estado vegetativo completo, ao que é conhecido como um estado minimamente consciente (MCS, na sigla em língua inglesa), no qual os pacientes têm pelo menos um pouco de consciência sobre seus arredores.

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Mas quando uma pessoa que esteve em estado vegetativo há mais de doze meses após uma lesão cerebral traumática, eles são considerados pelos médicos como permanentes nesse estado e altamente improváveis de se recuperarem.

O paciente em questão é um homem de 35 anos que sofreu, a 15 anos atrás, uma lesão cerebral traumática em um acidente de carro e estava em estado vegetativo desde então. O homem mostrou melhorias significativas no movimento e na atenção após apenas um mês, e este impressionante estudo de caso pode se tornar um ponto de partida para novos tratamentos para pacientes com lesões semelhantes.

A equipe de pesquisadores usou um implante médico que estimula o nervo vago, um dos nervos mais importantes que liga a cabeça ao resto do corpo.

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O nervo vago liga “a maioria dos órgãos-chave — coração e pulmões incluídos — ao tronco encefálico”, escreveu Samuel K. Moore no IEEE Spectrum. “É como uma porta traseira incorporada à fisiologia humana, permitindo que você corte os sistemas do corpo”.

Desde a década de 1990, o estímulo do nervo vago com uma corrente elétrica de um dispositivo parecido ao marca-passo vendo sendo explorado, com resultados mistos, como tratamento para problemas neurológicos como epilepsia, enxaquecas e depressão.

Em forma de pilhas planas e redondas, os estimuladores do nervo vago (VNS, na sigla em inglês) às vezes são chamados de “marcadores de ritmo para o cérebro” e são usados no tratamento principalmente de convulsões epilépticas. Foi exatamente esse implante que a equipe de pesquisadores deste estudo de caso utilizou.

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Paciente estratégico

Não foi apenas uma suposição aleatória de que este dispositivo poderia ajudar um paciente em estado vegetativo — os médicos trabalharam partindo de uma hipótese baseada em pesquisas anteriores que apresentavam melhorias em pacientes em estado minimamente consciente quando obtiveram estimulação pelo tálamo, um centro cerebral envolvido na coordenação sinais sensoriais.

O nervo vago serve como uma ligação direta ao tálamo (entre outras áreas do cérebro), e a estimulação do nervo vago já mostrou aumentar o metabolismo naquela parte do cérebro, então a equipe queria testar o que aconteceria se usassem um implante de VNS em um paciente em estado vegetativo.

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“Nós escolhemos um paciente que estava em estado vegetativo de 15 anos, não mostrando nenhum sinal de mudança desde o acidente de carro”, afirmou o neurocientista e coautora do estudo, Angela Sirigu, do Institut des Sciences Cognitives Marc Jeannerod in Lyon, França. Pouco mais é conhecido publicamente sobre o homem de 35 anos, já que os pesquisadores optaram por não compartilhar sua identidade.

O nervo vago liga o coração, os pulmões e outros órgãos ao tronco encefálico. Crédito da foto: Wikimedia

O nervo vago liga o coração, os pulmões e outros órgãos ao tronco encefálico. Crédito da foto: Wikimedia

Essa foi a primeira vez em 15 anos, que esse paciente mostrou sinais consistentes e mensuráveis de consciência. E isso é formidável — de acordo com os médicos, seu paciente passou de um estado vegetativo para um estado minimamente consciente.

“O homem começou a responder a ordens simples que antes eram impossíveis. Por exemplo, ele poderia seguir um objeto com os olhos e virar a cabeça mediante solicitação”, informa a equipe de pesquisadores em um comunicado de imprensa. “Sua mãe relatou uma melhor capacidade de ficar acordado ao ouvir a leitura de um livro por seu terapeuta”.

E não foram apenas melhorias comportamentais, os resultados tanto do EEG quanto de uma análise de PET-CT confirmaram que houve atividade consistente e sustentada em partes do cérebro que são consideradas como marcadoras de consciência.

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Um estimulador do nervo vago fornece uma pequena quantidade de corrente para um nervo crítico que corre do tronco cerebral para diferentes partes do corpo. Créditos da imagem: Scott Camazine / Science Source

Um estimulador do nervo vago fornece uma pequena quantidade de corrente para um nervo crítico que corre do tronco cerebral para diferentes partes do corpo. Créditos da imagem: Scott Camazine / Science Source

Seis meses de VNS

A doutora Sirigu e seus colegas de estudo tentaram o VNS no paciente em estado vegetativo por seis meses, informa a PBS Science.

Os médicos mediram o comportamento do paciente em resposta ao estímulo e registraram a atividade cerebral dele através de eletroencefalograma (EEG) e tomografias PET-CT (ou seja, tomografia por emissão de pósitrons, também conhecida pela sigla inglesa PET-CT — Positron Emission Tomography – Computed Tomography) antes de implantar o estimulador e novamente depois de implantado o dispositivo.

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Então aumentaram gradualmente a intensidade da estimulação. Após apenas um mês — assim que a corrente elétrica no dispositivo atingiu 1 miliampère —, o paciente começou a mostrar melhorias consistentes “com excitação geral, atenção sustentada, motilidade corporal e busca visual”.

Imagens de FDG-PET de Fluorodeoxiglucose adquiridas durante a fase de dados de partida (à esquerda, pré-VNS) e 3 meses após estimulação do nervo vago (à direita, pós-VNS). Após a estimulação do nervo vago, o metabolismo aumentou no córtex parieto-occipital direito, tálamo e estriado. Crédito: Corazzol et al.

Imagens de FDG-PET de Fluorodeoxiglucose adquiridas durante a fase de dados de partida (à esquerda, pré-VNS) e 3 meses após estimulação do nervo vago (à direita, pós-VNS). Após a estimulação do nervo vago, o metabolismo aumentou no córtex parieto-occipital direito, tálamo e estriado. Crédito: Corazzol et al.

As gravações da atividade cerebral também revelaram grandes mudanças. Após o primeiro mês do procedimento, uma verificação cerebral de eletroencefalograma (EEG) “revelou um aumento significativo na banda teta (4-7 Hz)”, que é a onda cerebral associada ao sonhar acordado e à ideação. Essa atividade cerebral não representa a plena consciência; é mais como o transe em que você se encontra quando está dirigindo em um trecho de estrada particularmente liso e reto.

O sinal da banta teta, chamado de TETA EEG, é importante para distinguir entre um estado vegetativo e um minimamente consciente aumentou significativamente em áreas do cérebro envolvidas no movimento, sensação e consciência. O VNS também aumentou a conectividade funcional do cérebro. Uma análise de PET mostrou que também houve aumentos na atividade metabólica em regiões corticais e subcorticais do cérebro.

Após a estimulação, os pesquisadores também observaram respostas à “ameaça” que estavam ausentes. Por exemplo, quando o examinador se aproximou repentinamente do rosto do paciente ele reagiu com surpresa ao abrir os olhos. Depois de muitos anos em estado vegetativo, ele havia entrado em um estado de consciência mínima. Essas são melhorias marcantes partindo de um paciente que estava em estado vegetativo no qual ela não reagia.

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Implicações do estudo

Como a equipe escreve em seu relatório, suas descobertas únicas contradizem diretamente a suposição geral de que passar de 12 meses ou mais em um estado vegetativo torna a condição irreversível.

“A plasticidade cerebral e o reparo do cérebro ainda são possíveis mesmo quando a esperança parece ter desaparecido”, diz a doutora Sirigu, que é pesquisadora do Centro de Neurociências Cognitivas da França.

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Os pesquisadores planejam prosseguir a abordagem VNS em outros pacientes cujas lesões cerebrais traumáticas estavam supostamente além da cura — e a equipe tem esperança. “Mudanças mesmo em pacientes clínicos graves são possíveis quando a intervenção certa é apropriada e poderosa”, disse Sirigu. “Após este relato de caso, devemos considerar testar populações maiores de pacientes”.

Mas temos que lembrar que um estudo de caso com resultado impressionante como este ainda é incapaz de fazer um novo tratamento. Está realmente muito cedo, pois temos dados de apenas um paciente até agora, mas devemos admitir que os resultados são promissores.

O estudo foi financiado pelo CNRS, ANR e por uma bolsa da Universidade de Lyon no âmbito do programa “Investissement d’Avenir” e foi publicado no periódico Current Biology.

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Referências:

  1. CORAZZOL, MARTINA et al.  Restoring consciousness with vagus nerve stimulation. Current Biology, 2017. DOI: http://dx.doi.org/10.1016/j.cub.2017.07.060;
  2. PRICE, MICHAEL. Experimental nerve-stimulation therapy partially revives man in long-term vegetative state — but experts urge caution. Science, 25 de setembro de 2017. Disponível em <http://www.sciencemag.org/news/2017/09/experimental-nerve-stimulation-therapy-partially-revives-man-long-term-vegetative-state> Acesso em 28 de setembro de 2017;
  3. After 15 years in a vegetative state, nerve stimulation restores consciousness, Cell Press Public Release, 25 de setembro de 2017. Disponível em <https://www.eurekalert.org/pub_releases/2017-09/cp-a1y091817.php> Acesso em 28 de setembro de 2017.

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Mestrando em Estudos Ambientais pela UCES, Buenos Aires. Graduado em Engenharia Civil e pós-graduado em Gestão Pública e Controladoria Governamental. Com interesse por ciência, tecnologia, filosofia, desenvolvimento sustentável e diversas outras áreas do conhecimento humano.

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