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Sociedade & Cultura

Falando de Ciência ao Poder

Edward Kimmel from Takoma Park, MD (Wikimedia Commons - Creative Commons 2.0)

Um comunicado divulgado por 317 membros da Academia Nacional de Ciências dos EUA desafia a rejeição generalizada da ciência e da compreensão científica pela atual administração.

De Ben Santer, Charles Manski e Ray Weymann na Scientific American

Hoje, em 23 de abril de 2018, um comunicado foi divulgado por 317 membros da Academia Nacional de Ciências (NAS – National Academy of Sciences) dos Estados Unidos. O documento pede que “o governo federal mantenha conteúdo científico em sites de acesso público, designe pessoal qualificado para posições que exijam perícia científica, cesse a censura e a intimidação a cientistas do governo e reverta a decisão de retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris”.

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Nós somos os três escritores e organizadores desta declaração. Embora nossa especialidade esteja em áreas muito diferentes, economia, astrofísica e ciência climática, compartilhamos uma preocupação comum. Essa preocupação comum está relacionada com a rejeição da ciência e da compreensão científica pela atual administração. Este texto explica por que decidimos escrever o comunicado, o que esperamos conseguir com a publicação dele, e como os leitores interessados podem ajudar a alcançar as metas citadas acima.

A declaração de hoje teve sua gênese em uma carta aberta de membros da Academia Nacional de Ciências publicada em setembro de 2016. A carta aberta alertou sobre as consequências negativas potencialmente sérias de uma retirada dos EUA do acordo climático de Paris, uma ação pretendida pelo então candidato Donald J. Trump.

No rescaldo da última eleição presidencial dos EUA, muitas das consequências negativas mencionadas na carta aberta de setembro de 2016 estão se revelando. A administração Trump iniciou o processo de retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris e continua a lançar dúvidas sobre a realidade e a gravidade das mudanças climáticas causadas pelo homem. Consequências negativas estão afetando muitas áreas da ciência — não apenas a ciência climática. A administração demonstrou um desrespeito sistemático ao uso de informações científicas sólidas na formulação de políticas públicas. Ciência incompatível com os objetivos ideológicos do governo é ignorada, suprimida, retratada como muito incerta e descartada como sendo política ou ciência com motivações financeiras.

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Essa desconsideração sistemática da ciência guiou nossos esforços a desenvolver o novo comunicado de hoje. Acreditamos firmemente que não há futuro na ignorância. Os Estados Unidos não se beneficiam se a problemática das mudanças climáticas causadas pelo homem ficar pelo caminho, se ignorar políticas energéticas sensatas ou se considerar o acesso a ar e água limpos como um privilégio de poucos.

A capacidade de realizar pesquisas e promover o entendimento científico não é um direito inalienável, dado a nós em perpetuidade em virtude da sorte de nosso local de nascimento. Forças poderosas na administração atual buscam restringir nossa compreensão de mundo, e como e por que ele está mudando. Tais forças de irracionalidade são encorajadas se encontram inação e silêncio; eles prosperam se mitos científicos, equívocos e desinformação são repetidos sem serem desafiados.

O comunicado que nós e nossos colegas da NAS divulgamos hoje é uma tentativa de ir além da inação e do silêncio. Sua mensagem é clara: “Ignore a ciência por sua conta e risco”. Talvez a administração não dê atenção a essa mensagem; talvez a mensagem se perderá no ruído de fundo diário dos acontecimentos políticos. Mesmo que a administração não esteja escutando, ainda há valor em advertir publicamente sobre as consequências de se viver em um país que segue uma agenda anticientífica. Acreditamos que milhões de cidadãos dos Estados Unidos estejam ouvindo este aviso e compartilhando nossa preocupação com o tipo de país que estamos passando para as gerações futuras.

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Aos cientistas incumbe velar pela informação ao público sobre as principais questões sociais relevantes para os seus conhecimentos específicos. Nós estamos fazendo isso hoje. Mas os cientistas são apenas uma pequena parte do esforço global para refutar a ignorância. Cada um de nós tem a capacidade de mudar nossa sociedade para melhor.

Existem muitas formas criativas de catalisar mudanças. Podemos buscar informações confiáveis sobre questões científicas complexas, com base em fontes como a Academia Nacional de Ciências – NAS, a U.S. National Climate Assessment dos EUA, a Scientific American e agências governamentais. Podemos compartilhar essas informações com nossos colegas, amigos, familiares e vizinhos, por meio de conversas, cartas para jornais e mídias sociais. Podemos incentivar a educação científica de qualidade em nossas escolas públicas e garantir que a ciência seja ensinada com precisão. Podemos apoiar organizações que defendem a importância da ciência na sociedade. Podemos nos envolver no processo político e eleger representantes que compreendam o valor da ciência.

Nós vivemos em um mundo complexo. Enfrentamos muitos problemas de sobrevivência: mudança climática, pandemias, terrorismo, ameaça de guerra nuclear e diminuição da segurança alimentar e hídrica. A maneira como lidamos com essas questões moldará o bem-estar de muitas gerações futuras. O comunicado divulgado hoje é um lembrete de que a ignorância é uma estratégia ruim para resolver desafios complexos. Todos nós perdemos se a ciência é excluída do governo. Esperamos que você nos ajude a compartilhar amplamente essa mensagem.

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Sobre os Autores

Ben Santer, Charles Manski e Ray Weymann

Ben Santer é um cientista atmosférico e membro da Academia Nacional de Ciências dos EUA. Charles Manski é professor de economia da Northwestern University e membro da National Academy of Sciences. Seu livro mais recente é Public Policy in an Uncertain World (Harvard, 2013) (Políticas Públicas em um Mundo Incerto, em tradução livre). Ray Weymann é diretor emérito dos Observatórios Carnegie e fez pesquisas em cosmologia e sobre o gás intergaláctico. Desde a sua aposentadoria, ele se concentrou na educação pública em relação às mudanças climáticas.

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