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Cientistas perdem credibilidade quando emitem suas posições políticas?

Um novo estudo sugere, ao contrário do que pensa o senso comum, que a resposta seja não.

De Ed Yong para o The Atlantic

Em 1933, depois de discursar contra a ascensão do fascismo na Alemanha, Albert Einstein foi perseguido pela Academia Prussiana de Ciências, da qual ele havia se demitido preventivamente. Seu colega físico Max von Laue saiu em sua defesa, mas também advertiu que cientistas deveriam manter distância de política. “Aqui, eles estão responsabilizando quase todos os acadêmicos alemães quando fazem algo político”, escreveu ele. Einstein respondeu:

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“Eu não compartilho de sua visão de que cientistas devem observar silêncio sobre assuntos políticos, isto é, assuntos humanos no sentido mais lato. A situação na Alemanha mostra para onde essa restrição levará: à entrega da liderança, sem nenhuma resistência, àqueles que são cegos ou irresponsáveis.”

Oitenta e três anos depois, o debate se cientistas devem se envolver com política ainda permanece fortemente intenso. Na esteira da eleição de Donald Trump, vários cientistas estão planejando concorrer a um cargo, um comitê de ação política chamado 314 Action foi formado para apoiá-los, e milhares de cientistas e entusiastas da ciência estão planejando marchar em Washington D.C., em 22 de abril. Estes novos movimentos trazem velhas críticas: que os cientistas que se engajam na militância política estão comprometendo sua credibilidade como cronistas de evidências objetivos, imparciais e racionais. E pior, como Von Laue sugeriu a Einstein, os poucos sinceros arriscam a credibilidade de todo o empreendimento científico.

Estas são objeções perenes — frequentemente repetidas, mas raramente testadas. “Tem havido muitas especulações e comentários, mas pouquíssimas pesquisas sistemáticas olhando sobre com o americano médico responde à participação política de cientistas”, diz John Kotcher, da Universidade George Mason. Em 2009, uma pesquisa do Pew Research Center descobriu que 76% dos americanos “dizem que é apropriado aos cientistas se tornarem ativamente envolvidos em debates políticos”. Mas isto é “uma ideia abstrata”, diz Kotcher. “Nós queremos testar como as pessoas responde a um exemplo concreto.”

“O melhor caminho para falar com os cientistas é falar na linguagem deles, e este estudo revisado pelos pares é um ótimo primeiro passo”, acrescenta Dave Wilson, Ph.D. — cientista do clima, usuário do Facebook e trabalha com ficção.

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Em 2014, Kotcher recrutou uma amostra representativa nacional de 1.235 americanos, e os apresentou a Wilson, creditando-o como um cientista do clima ou um meteorologista da tevê. Cada voluntário leu um dos seis posts selecionados aleatoriamente no Facebook, nos quais Wilson pediu-lhes para conferir uma entrevista que ele tinha feito com a Associated Press.

O tópico das entrevistas, como descritas por Wilson, variaram ao longo de amplo conjunto de assuntos dentro da militância política. No primeiro, ele simplesmente tratou de recentes descobertas sobre os aumentos dos níveis de dióxido de carbono. No segundo, ele falou sobre os riscos e os impactos na saúde das mudanças climáticas. No terceiro, ele discorreu os prós e contras de várias opções políticas. No quarto, ele estimulou as pessoas a agirem, sem patrocinar nenhuma política específica. E nos dois últimos, ele claramente endossou um de duas ações: cortar as emissões de carbono ou construir mais usinas de energia nuclear.

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Dave Wilson, o auto-promotor desinibido

Pesquisando os voluntários depois, Kotcher descobriu que quase todas as declarações de Wilson tiveram os mesmos efeitos cada uma. Se ele estava preso aos fatos ou implorando por atitudes, os voluntários deram a ele igual credibilidade. Sua crescente militância não mudou a visão da grande comunidade climática, nem seu apoio ao financiamento de pesquisa climática.

“Nós estamos realmente surpresos”, diz o pesquisador. “O discernimento convencional até este ponto teria sugerido que cruzar a linha que divide ser puramente informativo de fazer campanha para uma política específica teria causado dano à credibilidade do cientista”. E este não foi o caso.

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Os voluntário perceberam que o chamado de Wilson para agirem foi motivado mais politicamente que suas declarações sobre os fatos, e mais intencionado a persuadir que a informar. E foi exatamente isso que não afetou a credibilidade dele. E apesar de que Wilson fosse previsivelmente mais visto como menos digno de credibilidade pelos conservadores em comparação aos liberais, nem dos dois grupos foi influenciado pelo grau de militância dele. A durabilidade de sua credibilidade só foi abatida quando ele especificamente advogou a favor das usinas nucleares. Mesmo assim, as pessoas o acharam mais crível do que não crível, e elas duvidaram dele não porque ele estivesse tomando uma posição específica, mas porque elas estavam contestando sobre o que ele estava afirmando.

“O estudo sugere que os cientistas podem ter, mais do que eles percebem, maior flexibilidade ao se engajarem na defesa de problemas sem arriscar a sua posição aos olhos do público”, escreve Simon Donner da Universidade British Columbia, em um comentário junto ao estudo. De fato, as pesquisas têm repetidamente mostrado que os cientistas estão dentro do grupo de maior confiança nos Estados Unidos — uma permanência que dá a eles alguma liberdade de declararem suas opiniões sem atingir as suas reputações. Se for o caso, “as opiniões públicas estão indiscutivelmente mais confortáveis com a militância dos cientistas que os cientistas estão com as posições públicas de outros cientistas”, argumenta Donner.

“O medo de perder credibilidade é exatamente isto: um medo.”

Kotcher concorda. “Quando eu trabalhei na Academia Nacional de Ciências, testemunhei em primeira mão a intensa pressão normativa para que cientistas ficassem longe de qualquer coisa que pudesse ser interpretada com uma forma de ativismo”, ele conta. Os resultados dele podem de alguma forma caminhar na direção de aliviar aquela pressão. “O melhor jeito de falar com cientistas é falar na linguagem deles, e este estudo revisto pelos pares é um bom primeiro passo”, diz Kathie Dello, um cientista do clima da Universidade Estadual do Oregon. “Penso que [a pesquisa] pode animar alguns que foram desencorajados a se envolverem mais no processo político, ou encorajar as pessoas a apoiarem seus colegas que fazem esse trabalho mesmo que eles não queiram fazê-lo por si mesmos.”

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“Ajuda muito, porque ele dá apoio experimental independente sobre aquilo já podíamos deduzir, baseado em evidências históricas,” diz Naomi Oreskes, uma historiadora da Universidade Harvard. Por exemplo, em uma palestra recente, ela notou que o ativismo de Einstein em prol do controle de armas nucleares não trouxe prejuízo ao trabalho dele sobre a teoria da relatividade. “O medo de perder credibilidade é exatamente isto: um medo”, afirma ela.

É verdade que a experiência de Kotcher também testou apenas um conjunto de condições — um homem branco mais velho, falando sobre mudanças climáticas, em postagens no Facebook, sem oposição. Não está claro como os voluntários reagiriam se, digamos, Wilson fosse uma mulher, pertencesse a um grupo minoritário, falasse sobre vacinações, falasse em uma entrevista de rádio ou estivesse sendo questionado por um crítico. “Não temos ilusões de que este estudo irá resolver o debate sobre o papel adequado dos cientistas em um embate público”, diz Kotcher. “Nós vemos isso como um primeiro passo”.

Ele espera que outros possam replicar o estudo em diferentes condições, e, em seguida, executar uma meta-análise para comparar os vários resultados. “A pesquisa futura também poderia testar se o público perceber mensagens mais pessoais e diretas de cientistas — como no Facebook ou outras páginas de mídia social — como mais honestos e confiáveis do que citações de jornais”, diz Jagadish Thaker da Universidade de Massey, que estuda comunicação sobre mudança climática. “Se for esse o caso, há necessidade de mais cientistas falarem de tais plataformas pessoais, em vez de falarem ao público apenas através de jornalistas”.

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Em última análise, diz Kotcher, a decisão de se envolver em política é altamente pessoal. “Nem todo mundo vai se sentir confortável em sair e fazer essas coisas”, diz ele. “Nosso objetivo é ajudar cientistas individuais a tomar decisões mais informados sobre qual escolha é a melhor para eles”.

Leia o texto original do The Atlantic aqui.

Sobre o autor: Ed Yong é membro da equipe do The Atlantic como editor de ciência.

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Mestrando em Estudos Ambientais pela UCES, Buenos Aires. Graduado em Engenharia Civil e pós-graduado em Gestão Pública e Controladoria Governamental. Com interesse por ciência, tecnologia, filosofia, desenvolvimento sustentável e diversas outras áreas do conhecimento humano.

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