FilosofiaGratilla e sua amiga: mulheres estoicas romanas desafiando o Imperador Domiciano

Fernanda Lopes Oliveira, Carlos Enéas Moraes Lins e Silva, Aldo Dinucci1 mês atrásNa Imagem destacada, foto de Auto-retrato, de Tarsila de Amaral.
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A história do Estoicismo é mais conhecida por filósofos como Zenão, Crisipo, Epicteto, Marco Aurélio e Sêneca, que criaram ou desenvolveram conceitos fundamentais para o desenvolvimento da escola. No entanto, como uma filosofia vivida por seus seguidores, o Estoicismo conta, também, com personagens menos famosos, mas que encarnaram os ideais estoicos, mesmo quando estes os colocavam em risco de morte. Entre esses personagens, duas mulheres se destacam: Gratilla e sua amiga[1].

Pelos relatos antigos (especialmente por Plínio), sabemos apenas que Gratilla[2] foi esposa de Quinto Júnio Aruleno Rústico (35-93), condenado à morte por Domiciano[3] por ter escrito uma biografia elogiosa a Trásea Peto, o homem que se manteve firme contra a tirania de Nero, pelo que ao fim foi executado. Como observa Jaqueline Carlon (Pliny’s women, 2009, p. 29-30), Aruleno provavelmente escreveu tal biografia de Trásea (seu amigo íntimo) como uma forma de protesto contra a autocracia de seu tempo.

Gratilla é listada por Plínio, o jovem (Cartas 3.11), como um dos setes amigos estoicos que foram ou executados ou banidos após a expulsão de todos os filósofos da Itália por Domiciano, decreto que acabou por atingir Epicteto (cf. Suetônio, Domiciano C.X. e Aulo Gélio, Noites áticas, XV. CXI 3,4,5). Muitos foram duramente perseguidos, mas as condenações à morte e ao exílio de um grupo que continha Helvídio, Senecio, Maurico,  Aruleno Rústico, Arria, Fania, além da própria Gratila por ordem de Domiciano em um processo, em 93 EC, alcançou ampla repercussão[4]. Essas personagens históricas, que reúnem tanto homens como mulheres, fazem parte da assim chamada Oposição Estoica, um grupo de romanos de ranque senatorial com educação filosófica estoica que sistematicamente se opuseram à tirania de alguns dos imperadores do século I, defendendo a instituição romana da Libertas.[5]

Em 93, Gratilla foi expulsa da Itália junto com Fânia (fl. 100), esposa de Helvídio Prisco. Ambas foram condenadas por fomentar a composição do livro biográfico sobre Helvídio, marido de Fânia (cf. Plínio, Cartas 7.19). Arria, esposa de Trásea Peto e filha de Arria Maior[6], viúva de Cecina Peto[7], foi igualmente banida, mas não se sabe exatamente as razões disso. Plínio nos informa que essas duas últimas foram chamadas de volta em 98, mas não cita Gratilla, o que, como observa Carlon (2009, p. 33), pode indicar que ela não sobreviveu ao banimento.

Epicteto se refere a Gratilla e sua amiga (cujo nome não é revelado, talvez porque ainda fosse viva, e Arriano não quisesse expô-la) em Diatribes 2.7.8:

Por isso, a mulher que desejou enviar por barco provisões mensais a Gratilla em seu exílio respondeu muito bem àquele que disse que ‘Domiciano confiscará o que tu enviares’: ‘Prefiro, disse ela, que Domiciano confisque o que eu enviar a que eu não envie’.

A anônima amiga de Gratilla parece, pela resposta, ter, como Gratilla, uma educação estoica, por compreender a distinção entre aquilo que estava sob seu encargo ou não, bem como o que era uma ação conveniente. Ao ponderar sobre aquilo que estava sob seu encargo, ela sabia que apenas suas próprias ações dependiam dela. Por isso, ainda que não pudesse controlar as ações de Domiciano, ela deveria realizar as ações que lhe cabiam, como amiga de Gratilla, tal como ensina Epicteto (Manual XXX):

As ações convenientes são, em geral, medidas pelas relações. É teu pai? Isso implica que cuides dele; que cedas em tudo; que o toleres quando te insulta, quando te bate. Mas ele é um mau pai? De modo algum, pela natureza, estás unido a um bom pai, mas a um pai. “<Meu> irmão é injusto”. Mantém o teu próprio posto em relação a ele. Não examines o que ele faz, mas o que te é dado fazer, e a tua escolha estará segundo a natureza. Pois se não quiseres, outro não te causará dano, mas sofrearás dano quando supuseres ter sofrido dano. Deste modo então descobrirás as ações convenientes para com o vizinho, para com o cidadão, para com o general: se te habituares a considerar as relações.

Além disso, a ação da amiga de Gratilla está também em consonância com o capítulo 32 do Manual de Epicteto. Ecoando as Memoráveis de Xenofonte, é dito que se deve consultar o oráculo apenas nas situações nas quais não se pode prever as consequências pela racionalidade humana. E o seguinte é acrescentado:

Assim, quando precisares compartilhar um perigo com o amigo ou com a pátria, não consultes o oráculo se deves compartilhar o perigo. Pois se o adivinho anunciar maus presságios, é evidente que isso significa ou a morte, ou a perda de alguma parte do corpo, ou o exílio. Mas a razão te impele, mesmo nessas situações, a ficar ao lado do amigo ou da pátria e expor-te ao perigo. Portanto, dá atenção ao maior dos adivinhos, Apolo Pítico, que expulsou do templo o homem que não socorreu o amigo que estava sendo assassinado.

A amiga de Gratilla age também de acordo com isso: ela não se preocupa com as consequências de suas ações em prol da Gratilla. Uma consequência natural de desafiar um tirano é naturalmente a morte. Mas ela rigorosamente não inclui isso em seus cálculos. Como que seguindo a recomendação do Manual, ela espontaneamente se expõe ao perigo, socorrendo sua amiga.

Sua postura mostra o quanto uma disposição próxima ao estoicismo pode adquirir uma dimensão política de resistência e enfrentamento, que se distingue de uma mera aceitação do destino. Ora, a firmeza de decisão desta personagem nos informa qual o posicionamento correto diante de um tirano. Segundo Epicteto (Diss. 1.2; 1.19; 4.1; 4.7), ainda que o tirano tenha o poder de nos matar, é preciso ter em mente que  ele não é capaz de determinar as nossas opiniões, não tem poder sobre a nossa cidadela interior, pois nas coisas que dependem de nós somos irrestritamente livres e desimpedidos. Assim, possivelmente vendo essas coisas, a personagem não só agiu segundo lhe coube mantendo posição firme, mas também se viu diante do risco de descumprir ordem de Domiciano.

Sua resposta lembra, ainda, a de Helvídio Prisco a Vespasiano, que nos é informada pelo próprio Epicteto. Nessa segunda história contada pelo ex-escravo, Helvídio defende sua liberdade de fala (parrhesia) no Senado perante às restrições que Vespasiano lhe promete infligir, chegando a ameaçá-lo de morte:

Quando Vespasiano enviou-lhe um pedido para que não comparecesse ao Senado, Prisco respondeu: ‘Depende de ti não me permitir ser senador. Mas, na medida em que o for, é-me preciso comparecer’ – Vai – disse Vespasiano – porém, ao comparecer fica em silêncio. – Não me interrogues e ficarei em silêncio. – Mas me é preciso interrogar-te. – E me é preciso dizer o que se me afigura justo. – Se falares, condenar-te-ei à morte. Quando eu te disse que sou imortal? Tu farás o que é teu, e eu farei o que é meu. É teu condenar-me ao exílio. É meu retirar-me sem me afligir. (Diss. 1.2 19-22)

Além de defender até a morte a sua liberdade de fala, Helvídio demonstra firmeza de caráter e resistência diante das adversidades externas, sendo resoluto em sua decisão e mostrando a disposição necessária para sofrer o suplício sem se afligir. Não obstante, reconhece Epicteto, a decisão do senador é como a linha púrpura da toga, um exemplo aos demais do caráter firme e altivo de alguém que demonstra instrução filosófica: “Pois que outra coisa em Prisco se apresenta notável como a linha senão o belo exemplo que expõe aos demais?” (Diss. 1.2.22). Sendo também distante dos ‘muitos’, sua ação se mostra insigne na medida em que, se agisse como César quisesse, mostrando-se submisso, jamais teria chamado a atenção de Vespasiano, jamais o Imperador se daria ao trabalho de pedir o seu silêncio.

A anônima amiga de Gratilla parece seguir o mesmo modo de agir de Helvídio. Para ela, é dela enviar as provisões a sua amiga Gratilla, enquanto é de Domiciano confiscá-las. Apesar de sua breve menção, a amiga de Gratilla é apresentada, portanto, como um exemplo de coragem idêntico a Helvídio Prisco, como uma mulher capaz de seguir os ditames do estoicismo e não se deixar abalar ou conduzir pela fatalidade externa. Epicteto, portanto, coloca homem e mulher em pé de igualdade, como seres morais igualmente capazes de ações destemidas e heroicas.

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  • Na imagem destacada, detalhe de Auto-retrato, de Tarsila do Amaral.

[1]Não é mencionada a identidade dessa amiga de Gratilla, mantida em anonimato por Epicteto (Diatribes2.7.8).

[2]Carlon (2009, p. 32) apresenta uma discussão travada entre comentadores acerca da possibilidade de ser a Verulana Gratilla, mencionada por Tácito (Histórias3.69) como a mulher que estava no campo dos apoiadores de Vespasiano quando os vitelianos o cercaram. Mas, não há nenhuma prova cabal de que se tratam das mesmas pessoas (cf. Carlon, 2009, p. 32)

[3]Domitiano(51 – 96 EC) foi um imperador romano da dinastia flaviana, que se notabilizou por expulsar os filósofos da Itália. Considerado um tirano pelo Senado, acabou por ser assassinado por oficiais da corte.

[4]DIO CÁSSIO, LXVII,16; PLÍNIO, Cartas iii.11, vii.16, vii.19; SUETÔNIO, Dom. X.3.

[5]Libertasé um termo latino de difícil definição. WIRSZBUSKI (1968, p. 1) propõe uma definição operacional pensando-a como um direito civil em: “Libertasconsiste, portanto, na capacidade para a posse de direitos e na ausência de sujeição”. Nesse sentido, Libertasé a condição do Liber, isto é, aquele que não está sujeito à dominação, o contrário da condição de um escravo. No contexto do Principado (isto é, do Império) a Libertasparece ter sido cada vez mais cerceada pelo surgimento de um “Princeps supra leges” (Príncipe acima das leis) e parece ter sido confinada à classe senatorial. Ainda assim, a defesa e prática da Libertasera uma prova de coragem.

[6]Arria Maior protagoniza uma das mais tocantes anedotas da Roma Imperial. Em 42 EC,seu marido, até então Cecina Peto, é condenado ao suicídio por ordem do Imperador Cláudio. No momento do derradeiro ato Peto naturalmente hesita em acertar o próprio peito com a adaga, pelo que Arria toma a arma de sua mão e acerta a si mesma dizendo: “Peto, isso não dói” ‘Paete, non dolet” (Plin. Cartas. 3.16; D. C. 60.16; Marcial. 1.14; Zonaras, 11.9). Esse acontecimento se eternizou no imaginário romano (sendo tema de algumas estátuas antigas) como um exemplo extremo de resistência, autocontrole e companheirismo, como também de prática estoica da firmeza de caráter.

[7]Aulo Cecina Peto foi um senador romano condenado à morte em 42 por Cláudio por participar da revolta de Escriboniano.