História & HumanidadeConheça a história de Serguêi Krikalev, o cosmonauta abandonado no espaço

Serguêi Krikalev estava em missão espacial quando a União Soviética entrou em colapso. Incapaz de voltar para casa, pela inércia e dificuldades econômicas dos governos, levou duas vezes mais tempo do que o originalmente planejado em órbita.

Enquanto tanques circulavam pela Praça Vermelha de Moscou, pessoas construíam barricadas nas pontes, e Mikhail Gorbatchov e a União Soviética davam sequência à história russa, o cosmonauta Serguêi Krikalev estava literalmente no espaço. A 350 quilômetros da Terra, a estação espacial Mir era seu lar temporário na época.

Logo foi apelidado de “o último cidadão da URSS”. Quando a União Soviética se desintegrou em 15 Estados independentes, em 1991, Krikalev foi informado de que não poderia voltar porque o país que prometera trazê-lo não existia mais.

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Como isso aconteceu?

Quatro meses antes, Krikalev, um engenheiro de voo de 33 anos, partiu em missão para a estação espacial Mir, a partir do cosmódromo soviético de Baikonur, localizado no Cazaquistão. A missão de Krikalev deveria durar cinco meses, e seu treinamento não havia preparado o cosmonauta para exceder esse período no espaço.

“Para nós, foi uma surpresa completa”, lembra Krikalev. “Não entendíamos o que estava acontecendo. Durante as conversas, tentávamos entender como isso afetaria a indústria espacial.” E, de fato, afetou a indústria espacial.

Krikalev foi informado de que não havia verba para trazê-lo de volta. Um mês depois, recebeu a mesma resposta: a base pediu que ele ficasse um pouco mais no espaço. Mais um mês se passou, e a mesma resposta novamente. “Eles dizem que é difícil para mim – que não é muito bom para minha saúde. Mas agora o país está com tanta dificuldade que economizar dinheiro deve ser a prioridade”, disse, citado pela “Discover Magazine”.

À espera de um milagre financeiro

Na verdade, ele teria como ir embora. Havia uma cápsula de reentrada Raduga a bordo da Mir, que fora projetada especificamente para fazer o retorno à Terra. Mas pegar essa saída significaria o fim da Mir, já que não havia mais ninguém para cuidar da estação.

“Eu me perguntava se teria forças para sobreviver e concluir o programa. Eu não tinha certeza”, disse. Atrofia muscular, radiação, câncer, o enfraquecimento do sistema imunológico a cada dia – essas são apenas algumas das possíveis consequências de uma missão espacial prolongada, ainda mais sem o preparo suficiente.

No caso de Krikalev, a missão durou o dobro do tempo planejado originalmente. Ele passou 311 dias, ou 10 meses, no espaço, estabelecendo – inadvertidamente – um recorde mundial no processo. Ao longo desse período, as quatro missões programadas foram cortadas para duas, e nenhuma delas tinha espaço para outro engenheiro de voo.

A Rússia, que na época enfrentava grandes problemas financeiros devido à hiperinflação, estava vendendo assentos a outros países para a estação espacial no foguete Soyuz. A Áustria, por exemplo, comprou um assento por US$ 7 milhões, enquanto o Japão adquiriu outro por US$ 12 milhões para enviar um repórter de TV. Houve até conversas sobre a possível venda do Mir enquanto ainda estava funcionando. Tudo isso significa que outros tripulantes retornaram à Terra, enquanto Krikalev, o único engenheiro de voo, ficou por lá. Trancado no espaço, longe de casa, pediu que trouxessem mel para levantar o ânimo. Mas não teve mel; em vez disso, trouxeram para ele limão e raiz-forte.

O retorno à Terra (e ao espaço de novo)

Krikalev retornou à Terra em 25 de março de 1992, depois que a Alemanha pagou US$ 24 milhões pelo assento de seu substituto, Klaus-Dietrich Flade.

Ao aterrissar, um homem com as quatro letras “URSS” e uma bandeira soviética vermelha em seu traje espacial emergiu da cápsula da Soyuz. Uma reportagem da época descreveu sua aparência como “pálida como farinha, e suada como um pedaço de massa molhada”. Até então, todos só tinham ouvido falar dessa “vítima do espaço”. Quatro homens o ajudaram a se erguer, apoiando-o enquanto ele colocava os pés no chão. Um deles jogou um casaco de pele sobre seu corpo, enquanto outro trouxe um caldo quente.

Igor Mikhalev/Sputnik

Enquanto Krikalev estava fora, os arredores de Arkalikh, a cidade onde desembarcou, deixaram de ser soviéticos e passaram a fazer parte da república independente do Cazaquistão. A cidade onde ele morava não era mais chamada Leningrado – em vez disso, tornou-se São Petersburgo. Enquanto permaneceu no espaço, ele orbitou a Terra 5.000 vezes e o território de seu próprio país encolheu mais de 5 milhões de quilômetros  quadrados. O Partido Comunista da URSS Soviética, que governava o país desde a década de 1920, deixou de ser um monopólio político e virou apenas um dos diversos partidos. Seu ganho mensal de 600 rublos, que na época de sua partida ao espaço era considerado um bom salário para um cientista, estava desvalorizado. Agora, um motorista de ônibus ganhava o dobro.

“A mudança não é tão radical”, disse Krikalev, em uma coletiva de imprensa alguns dias depois de sua volta. “Eu vivia no território da Rússia enquanto as repúblicas estavam unidas na União Soviética. Agora eu voltei para a Rússia, que faz parte da Comunidade de Estados Independentes.”

Krikalev ganhou o título de Herói da Rússia e dois anos depois partiu para outra missão espacial, desta vez tornando-se o primeiro cosmonauta russo a voar em um ônibus da NASA – e alguns anos depois, o primeiro a viver na nova Estação Espacial Internacional.

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