NaturezaDegelo de geleiras de montanha é o que mais contribui com aumento do nível dos oceanos

Derretimento de geleiras é o grande responsável do aumento do nível do mar, conclui estudo publicado na Nature
Diógenes Henrique4 meses atrás13 minMarmolada (3.343 m), uma montanha no nordeste da Itália, é a mais alta das Dolomitas, uma seção alpina. (Crédito: Marco Bonomo / Unsplahs - Wikimedia Commons)
https://i0.wp.com/socientifica.com.br/wp-content/uploads/2019/04/Marmolada_Italy.jpg?fit=1200%2C801&ssl=1

Os derretimentos de geleiras de montanha são atualmente os maiores contribuintes para o aumento do nível do mar. A desmanche dessas camadas de gelo é uma fonte tão grande de aumento do nível do mar quanto a camada de gelo da Groenlândia e maior que a da Antártida.

A conclusão é de um recente estudo, que faz com que as contribuições oriundas do processo de derretimento das geleiras de montanhas para o aumento dos níveis globais dos oceanos se assemelhem às contribuições do maciço manto de gelo da Groenlândia e muito mais significativas do que as da Antártida. Há apenas uma única contribuição para o aumento global dos níveis dos mares maior que o derretimento dos glaciares: o aquecimento dos próprios oceanos, o que faz com que a água se expanda.

Segundo os autores do artigo, o derretimento das geleiras restritas ao topo de montanhas entre os trópicos também chamadas de glaciares, pode representar quase um terço do aumento do nível do mar ocorrido nos últimos sessenta anos.

Ocorre que quando essas geleiras derretem, grande parte da água corre para os rios próximos e, finalmente, chegam até os oceanos. Portanto, mesmo que essas geleiras estejam localizadas em regiões montanhosas mundo a fora, elas são contribuintes imediatos para a elevação dos níveis dos mares.

“Os glaciares são, no momento, um dos impulsionadores relevantes, e eles continuarão assim provavelmente no próximo século”, disse o principal autor do estudo, Michael Zemp, um glaciologista da Universidade de Zurique. “Porque esses glaciares são muito sensíveis – muito mais sensíveis do que as camadas de gelo – eles realmente são a causa do problema agora”.

Isso coloca muitas regiões em risco de perder suas coberturas de gelo já nas próximas décadas. Se o derretimento não diminuir, o estudo sugere que as geleiras desaparecerão até o final do século em lugares como o oeste do Canadá, os Estados Unidos, a Europa Central e a Nova Zelândia.

Isso faz com que o derretimento das geleiras seja um grande problema por dois motivos. As geleiras não apenas continuarão contribuindo para a elevação global do nível do mar (enquanto elas existirem). E também porque o fornecimento local de água doce provavelmente diminuirá à medida que elas forem desaparecendo. O derretimento do verão das geleiras das montanhas é muitas vezes uma importante fonte de água doce para as comunidades vizinhas. E vale lembrar que as geleiras são as maiores reservas de água doce do planeta.

“Essas geleiras de montanha alimentam grandes populações”, disse Alex Gardner, especialista em geleiras do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL na sigla em inglês) da NASA. “Neste momento, essas populações provavelmente estão presenciando um aumento no volume durante os meses quentes e secos em que essas geleiras estão contribuindo com uma fração significativa do fluxo da corrente”.

Mas à medida que o tempo passa, daqui a 50 ou 100 anos, essa contribuição começará a desacelerar. “Acho que teremos um impacto muito mais significativo em termos de recursos hídricos, já que esse reservatório de água não estará mais disponível”, acrescentou Gardner.

Em primeiro plano, o Glaciar Furtwängler no topo do Kilimanjaro (ou Quilimanjaro) no norte da Tanzânia, junto à fronteira com o Quênia e o Campo de Gelo Norte ao fundo. (Crédito: Yosemite / Wikipédia)

As novas descobertas, publicadas na Nature, se basearam em uma combinação de observações de campo, coletadas no local de quase quinhentas geleiras em todo o mundo, com dados de satélite cobrindo mais de 19 mil glaciares. A combinação desses dados permitiu que os pesquisadores construíssem uma série temporal do derretimento ocorrido em regiões de todo o mundo, desde 1961.

E a duração da série temporal é o grande avanço desse novo trabalho, sugeriu o glaciologista Zemp. E Gardner acrescentou que o novo estudo pode abordar algumas incertezas que os cientistas tiveram sobre estimativas anteriores, da década de 1960.

Em linhas gerais, no entanto, as descobertas reforçam estimativas de estudos anteriores, que também sugeriram que as geleiras de montanha são os principais propulsores da elevação global do nível do mar. Um artigo de 2013 da Science, liderado por Gardner, também indicou que os glaciares contribuem com cerca de um terço de todo o aumento recente nos níveis dos oceanos, embora esse estudo tenha focado no período de 2003 a 2009.

O novo estudo ajuda a destacar uma questão com consequências imediatas, disse o glaciologista Tad Pfeffer, da Universidade do Colorado, em Boulder. As calotas de gelo da Groenlândia e da Antártida tendem a atrair mais atenção quando se trata da questão do aumento do nível do mar, principalmente porque suas contribuições potenciais são tão enormes. A camada de gelo da Groenlândia contém gelo suficiente para elevar o nível global do mar em cerca de 6 metros se tudo derretesse, e a Antártida poderia contribuir com um incrível aumento de 60 metros.

Enquanto os cientistas trabalham para entender a rapidez com que certas regiões daquelas calotas podem se liquefazer, suas maiores contribuições para o nível do mar provavelmente ocorrerão em escalas de tempo muito maiores. Por outro lado, como confirma a nova pesquisa, as geleiras de montanha são os maiores propulsores do aumento do nível do mar na atualidade. E o rápido desaparecimento dessas geleiras também traz consequências imediatas para as comunidades humanas próximas.

“É uma questão que precisa de mais atenção”, disse Pfeffer. “É muito difícil obter financiamento para estudar pequenas geleiras”, explicou, acrescentando que a necessidade mais urgente de previsões do nível do mar, para ajudar as comunidades costeiras a se prepararem, é para o período que abrange as próximas décadas. “Nessa escala de tempo, essas geleiras montanhosas provavelmente ainda serão a dominante, e nós as negligenciamos por nossa conta e risco”, explicou Pfeffer.

De um modo geral, o estudo das geleiras de montanha enfatiza a velocidade com que a mudança climática já está ocorrendo e também as mudanças em larga escala que ela já inflige nas paisagens de todo o mundo.

“É bizarro que possamos nos sentar e durante a nossa vida assistir a muitas dessas geleiras nessas regiões desaparecerem”, disse Gardner. “É meio assustador ver essas coisas desaparecerem diante de nossos olhos”.

Adaptado do original em inglês Environment & Energy Publishing (E&E News) publicado na Scientific American. O site da E&E News fornece cobertura diária sobre energia, política ambiental, mercados e ciência.

Fonte: E&E News – Climatewire / Scientific American (adaptado).