História & HumanidadeCaverna cheia de artefatos intocados é encontrada em Chichén Itzá

Caverna cheia de artefatos intocados é encontrada em Chichén Itzá
Redação5 meses atrás17 minChichén Itzá, uma cidade de pedra na península de Yucatán no México, construída pela civilização Maia por volta de 750 depois de Cristo.
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Os artefatos redescobertos intactos permitirão que os pesquisadores entendam as mudanças no local.

Especialistas há muito estudam e exploram Chichén Itzá, um conjunto importante de ruínas maias na Península de Yucatán, no México, que inclui a impressionante pirâmide El Castillo (também conhecida Templo de Kukulkán ou Pirâmide de Kukulkán). Mas, como relata a Associated Press, foi preciso uma dica — ou, mais precisamente, duas dicas — dos moradores locais para apontá-los em direção a uma caverna inexplorada no local, que contém dezenas de artefatos, ossos e holocaustos para os deuses.

Esta é uma imagem do Interior da “Cueva Balamkú”. Foto: Karla Ortega, Proyecto Gran Acuífero Maya (GAM).

A caverna, que fica a aproximadamente 2,7 quilômetros a leste de El Castillo, foi descoberta a cerca de cinquenta anos atrás. Na época, arqueólogo Víctor Segovia Pinto ficou sabendo da descoberta por meio dos moradores da região. Ele emitiu um breve relatório sobre a caverna e a selou. O relatório de Pinto ficou esquecido até recentemente.

Mas no ano passado, os moradores locais mais uma vez apontaram o local para os arqueólogos, que começaram a investigar o sítio novamente. E aí que foi redescoberto esse santuário subterrâneo.

De acordo com a agência de notícias Agence France-Presse, por respeito aos costumes locais, a equipe de pesquisadores, liderada pelo arqueólogo Guillermo de Anda, arqueólogo do Instituto Nacional de Antropologia e Historia (INAH) e diretor do programa Grande Aquífero Maia, (Gran Acuifero Maya, ou GAM), realizou um ritual de purificação que durou seis horas antes de entrar na caverna conhecida como Balamkú, a cova do deus do jaguar, um pequeno sítio arqueológico localizado no estado mexicano Campeche (faz divisa com  o estado de Yucatán), a 200 quilômetros em linha reta a sudoeste de Chichén Itzá.

Para alcançar as sete câmaras, em certas passagens Anda teve que rastejar pelas apertadas passagens entre uma câmara e outra. Até que as luzes que ele levava presa em sua cabeça revelou algo surpreendente: uma boa quantidade de oferendas deixadas pelos antigos moradores de Chichén Itzá, tão perfeitamente preservadas e intocadas que as estalagmites se formaram ao redor dos queimadores de incenso, vasos, pratos decorados e outros objetos na caverna. O local era onde os maias iam para deixar ofertas, que eram principalmente para o deus Tláloc, divindade da civilização tolteca responsável por raios, chuvas e terremotos.

“Você quase sente a presença dos maias que depositaram essas coisas lá”, relata Anda à National Geographic.

Até o momento, segundo a Smithsonian Magazine*, os pesquisadores descobriram 155 queimadores de incenso de cerâmica, bem como caixas de argila e outros vasos no local. Eles planejam deixar os artefatos no mesmo local no sítio arqueológico redescoberto.

A National Geographic noticiou ainda que essa redescoberta da caverna Balamkú foi feita por pesquisadores do projeto GAM, a quem os locais relatam a existência da entrada da gruta. Os pesquisadores do projeto chegaram para trabalharem para o Projeto, que visa mapear a vasta rede de cavernas subterrâneas, rios e outras corpos de água sob a Península de Yucatán. No ano passado, o Projeto mapeou parte de um sistema de cavernas inexplorado que acabou se unindo ao sistema existente, criando o maior sistema de cavernas subaquáticas do mundo.

Arqueólogo Guilhermo Anda na Caverna Balamkú
“O Projeto GAM redescobre Balamkú, santuário subterrâneo de ChichénItzá. O projeto do Instituto Nacional de Antropologia e Historia (INAH), Gran Acuífero Maya (GAM), iniciará um registro meticuloso do site através da criação de modelos tridimensionais, sem modificar contexto”, escreveu a instituição no Twitter. Na foto, o arqueólogo Guillermo de Anda, do INAH e diretor do GAM. Créditos:  Foto: Karla Ortega, Proyecto Gran Acuífero Maya.

Foi um grande golpe de sorte que Pinto decidiu não remover os artefatos da caverna, o que foi crucial para a conservação de todos os itens durante todo esse tempo. O estado intocado do sistema de cavernas dá aos pesquisadores a chance de investigar quanta troca cultural ocorreu entre a civilização maia e outras culturas da América Central. Talvez o sítio servirá também para que os estudiosos aprofundem mais no conhecimento sobre os maias, antes de Chichén Itzá entrar em declínio.

Um mapeamento 3-D com tecnologia de ponta, pesquisa paleobotânica e outras técnicas recentes ajudarão nesse esforço de pesquisa. “Balamkú vai ajudar a reescrever a história de Chichen Itzá, um dos centros cerimoniais mais importantes para a antiga civilização maia”, Anda previu durante uma coletiva de imprensa realizada na sede do INAH, na Cidade do México nesta semana.

Nova chance

No relatório original sobre a caverna (recentemente localizado pelo arqueólogo James Brady, da Universidade Estadual da Califórnia, em Los Angeles), Pinto já havia identificado 155 artefatos, alguns com faces do deus Tláloc, e outros com marcas da sagrada ceiba, uma representação potente do universo maia. Para fins de comparação, a caverna vizinha de Balankanché, um local de ritual escavado em 1959, contém apenas 70 desses objetos.

“Balamkú parece ser a ‘mãe’ de Balankanché”, diz Anda. “Eu não quero dizer que a quantidade é mais importante do que a informação, mas quando você vê que há muitas, muitas ofertas em uma caverna que também é muito mais difícil de acessar, isso nos diz algo”. Veja a galeria de fotos no site do INAH.

Por que Pinto decidiu selar uma descoberta tão fenomenal ainda é uma questão de debate. Mas ao fazê-lo, ele inadvertidamente forneceu aos pesquisadores uma “segunda chance” sem precedentes para responder a algumas das questões mais intrigantes que continuam a provocar controvérsias entre os estudiosos dos maias hoje, tais como o nível de contato e influência trocados entre diferentes culturas mesoamericanas e o que estava acontecendo no mundo maia antes da queda de Chichén Itzá.

Pesquisadores acessaram a caverna
Pesquisadores acessaram a caverna descoberta fortuitamente há mais de 50 anos e documentaram um grande número de objetos arqueológicos. Os cientistas dizem que essa descoberta os ajudará a entender melhor as origens e crenças dos moradores de Chichen Itza. Chichen Itza é uma cidade de pedra na península de Yucatán, no México, fundada por volta de 750 depois de Cristo. Crédito: Grande Aquífero Maia (Facebook)

“Este é um complexo arqueológico que não foi tocado ou alterado, o que tem um enorme valor para nós”, disse Anda à agência Aristegui Notícias.

Nova descoberta

Esta não é a única descoberta recente em Chichén Itzá.

Segundo a Smithsonian, os arqueólogos supõem que muitos dos edifícios do sítio arqueológico foram construídos em cima de cenotes. Os cenotes são poços de água formados por rios subterrâneos e revelados há milhares de anos pelo colapso de camadas de rochas calcárias. Algumas dessas piscinas naturais de água cristalina são parcialmente escondidas por cavernas, enquanto outras são abertas e parecidas com lagoas. A palavra “cenote” vem justamente do maia “Dzonot”, que significa poço ou buraco.

Um grupo de pesquisadores, esses do Projeto Subterrâneo Chichén Itzá, agora buscam encontrar e mapear esse mundo subterrâneo como parte do Projeto Subterrâneo Chichén Itzá, parte do projeto Grande Aquífero Maia. Na verdade, há alguns anos, os pesquisadores descobriram que a própria pirâmide de El Castillo está construída sobre um antigo cenote. Desde então os arqueólogos têm procurado por túneis que possam levar poço aquático e oculto abaixo do templo. [National GeographicSmithsonian  Mag]

*A Smithsonian Magazine é um veículo de comunicação do Instituto Smithsoniano (em inglês, Smithsonian Institution), instituição educacional e de pesquisa associada a um complexo de museus e administrada pelo governo dos Estados Unidos.

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