Por que se esquecer é realmente importante
 

MedicinaNeurociênciaPor que se esquecer é realmente importante

O propósito da memória não é gravar tudo, segundo estudo da Universidade de Toronto.
Diógenes Henrique2 meses atrás16 minCena do filme MIB - Homens de Preto, (MIB - Men in Black, 1997, direção de Barry Sonnenfeld, Columbia Pictures). No filme, o Agent K (Tommy Lee Jones) e Agent J (Will Smith) possuem um aparelho capaz de apagar a memória das pessoas.

A maioria de nós acha que memória “perfeita” significa nunca esquecer, mas talvez esquecer realmente nos ajude a navegar em um mundo que é aleatório e em constante mudança. É o que diz um estudo de 2017 publicado no periódico científico Neuron. O estudo conclui que pessoas esquecidas (como eu) exibem sinais de inteligência superior porque mostram que nossos cérebros estão mais focados em coisas mais importantes.

Realizado por pesquisadores da Universidade de Toronto, no Canadá, os pesquisadores afirmam que ter uma boa memória é um ativo severamente superestimado pelas pessoas em geral, mas o esquecimento pode ser um benefício para sua inteligência.

Pesquisas neurobiológicas anteriores já se concentraram nos mecanismos celulares de armazenamento de informações, conhecidos como persistência, mas menos atenção foi dada aos processos envolvidos no esquecimento — ou transitoriedade. Supõe-se que a incapacidade de lembrar se deve a uma falha nos mecanismos envolvidos em armazenar ou recuperar informações. Mas, de acordo com pesquisadores da Universidade de Toronto, o papel de esquecer certas informações pode ser igualmente importante.

“O objetivo real da memória é otimizar a tomada de decisões”, diz o professor assistente da Universidade de Toronto, em Scarborough, Blake Richards, autor do novo estudo de revisão enfocando o papel na memória de se esquecer informação. “É importante que o cérebro esqueça detalhes irrelevantes e, em vez disso, se concentre nas coisas que ajudarão a tomar decisões no mundo real”.

Assim, esquecer informações antigas pode nos tornar mais eficientes. No artigo, Richards localiza um estudo de 2016 em que cientistas treinaram ratos para encontrar um labirinto aquático. O local do labirinto foi movido e, em seguida, alguns dos ratos receberam uma droga que os ajudou a esquecer o local original. Os ratos que esqueceram a primeira rodada de treinamento encontraram o novo labirinto mais rapidamente. Mas pense em todas as vezes em que você memorizou o nome errado e depois desejou que você a memória errada fosse apagada e, com isso, parasse de se confundir com o nome certo.

“Encontramos muitas evidências de pesquisas recentes que existem mecanismos que promovem a perda de memória e que estes são distintos daqueles envolvidos no armazenamento de informações”, diz o coautor Paul Frankland, professor associado da mesma universidade e cientista sênior de neurociências e saúde mental no Hospital da Criança Doente – SickKids, afiliado à Universidade de Toronto.

A pesquisa explorou como o esquecimento na infância pode desempenhar um papel no motivo pelo qual os adultos normalmente não têm memórias de eventos que ocorreram antes dos quatro anos de idade. E, em particular, o estudo mostrou que o crescimento de novos neurônios no hipocampo parece promover o esquecimento. Este foi um achado interessante, uma vez que esta área do cérebro gera mais células em jovens.

Mas por que nossos cérebros gastam tanta energia armazenando memórias, e depois também gastam energia tentando esquecer a informação?

Richards diz que há duas boas razões pelas quais você pode querer esquecer pelo menos algumas informações. Por um lado, em um mundo em constante mudança, a velha informação torna-se desatualizada e não é tão importante de lembrar. “Se você tem que seguir pelo mundo e seu cérebro está constantemente criando várias memórias conflitantes, fica mais difícil para você tomar uma decisão com fundamento”, diz o pesquisador.

Cena do filme “Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças” (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004), vencedor da categoria melhor roteiro original no Oscar de 2005. O longa, utiliza elementos de ficção científica, tem como tema central a memória, o passado e a função desses para os seres humanos. Joel Barrish (Jim Carrey) contrata uma empresa para apagar todas as lembranças de seu ex-relacionamento com Clementine Kruczynski (Kate Winslet).

A outra razão importante reflete um conceito usado em modelos de inteligência artificial (IA) conhecidos como regularização. Este princípio visa obter modelos de computador para aprender como fazer generalizações com base em grandes quantidades de dados. Para fazer isso, deve haver algum esquecimento nos dados envolvidos, a fim de priorizar as informações essenciais que são necessárias para as decisões.

De acordo com Richards, esse paralelo com a inteligência artificial e como esses sistemas aprendem funciona assim. Se você ensinar um computador com inteligência artificial a reconhecer rostos, memorizando milhares deles, tudo o que ele fará será aprender os detalhes de todos os rostos específicos. Então, quando você expõe a IA a um novo rosto, o programa não saberá realmente que se trata de um rosto, porque ele nunca aprendeu as regras gerais. Em vez de aprender que os rostos são geralmente ovais e têm dois olhos, um nariz e uma boca, a IA aprendeu que algumas dessas imagens têm olhos azuis e algumas têm olhos castanhos e algumas têm lábios mais grossos e assim por diante. Assim, esquecer informações antigas também pode nos impedir de generalizar demais uma informação.

Os cérebros humanos também poderiam se deparar com esse problema. Richards comparou isso a “Funes, o memorioso”, uma história de Jorge Luis Borges em que um homem é amaldiçoado com uma memória perfeita. Funes se lembra de detalhes requintados, mas “não entende, porque tudo o que ele experimenta é o seu próprio momento instantâneo”. Para corrigir esse programa, os pesquisadores da IA usam uma técnica chamada “regularização”, onde forçam o sistema a esquecer alguns detalhes até que eles fiquem com as informações básicas que eles estão interessados: o que é um rosto, o que é um cachorro versus um gato, e assim por diante.

“A grande descoberta sobre a memória da recente pesquisa é que a melhor coisa para a memória é não memorizar absolutamente tudo”, observa Richards. “Se você estiver tentando tomar uma decisão, será impossível decidir se seu cérebro estiver constantemente sendo bombardeado com informações inúteis”.

“O objetivo da memória é fazer de você uma pessoa inteligente que pode tomar decisões dadas as circunstâncias, e um aspecto importante em ajudá-lo a fazer isso é poder esquecer algumas informações. ”

O processo no qual, e o quanto, a informação que o sistema deve esquecer pode ser tentativa e erro, tanto em humanos quanto em computadores. Nosso cérebro tende a esquecer as lembranças das coisas que aconteceram (memórias episódicas) mais rapidamente do que o conhecimento geral (memórias semânticas). Na verdade, memórias episódicas tendem a desaparecer de maneira bastante rápida — saber qual camisa você usou há seis semanas raramente é útil. Muitos fatores diferentes entram nisso: o quão nova é a situação é nova, quanta atenção se está prestando, quanta adrenalina está relacionada. “O princípio do cérebro é esquecer tudo, exceto aqueles casos que eram altamente relevantes”, diz Richards. Eventos traumáticos como assalto, por exemplo, permanecem conosco porque o cérebro quer que nos lembremos, e evitemos que ocorra novamente, o que nos ajudará a permanecer vivos.

Em última análise, diz Richards, muitas vezes assumimos que a memória é uma coisa boa, mas “no final das contas, nossos cérebros só fazem coisas se for bom para nossa sobrevivência de uma perspectiva evolutiva”. E no caso da memória, ele acrescenta, nossos cérebros provavelmente foram moldados pela evolução para lembrar apenas aquelas coisas que são pertinentes a nossa sobrevivência. Então talvez não ser capaz de lembrar como você conheceu alguém é uma característica do nosso cérebro, não um bug.

O artigo publicado na revista Neuron foi financiado pelo Conselho de Pesquisa em Ciências Naturais e Engenharia do Canadá (NSERC), um ganhador de 2016 do Google Faculty Research Award, e com subsídio do Instituto Canadense de Pesquisa em Saúde (CIHR).Os pesquisadores Richards e Frankland também foram apoiados pelo Instituto Canadense de Pesquisa Avançada (CIFAR) como Associate Fellow e Senior Fellow, respectivamente.

Referências:

  1. Richards B. A., Frankland P. W. The Persistence and Transience of Memory, Neron 94, 6, P1071-1084,  21 de jul. de 2017. DOI: https://doi.org/10.1016/j.neuron.2017.04.037;
  2. Campbell D., Why forgetting is really important for memory: U of T research, University of Toronto (2017). <https://www.utoronto.ca/news/why-forgetting-really-important-memory-u-t-research>. Acesso em de 13 março de 2019.

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