Israel realiza o primeiro pouso privado de uma sonda lunar
 

CiênciaEngenharia aeroespacialIsrael realiza o primeiro pouso privado de uma sonda lunar

Essa pode ser a primeira de muitas missões privadas para a Lua.
Redação3 de março de 201918 min

A primeira missão espacial de Israel está a caminho da lua! Em 21 de fevereiro, uma pequena espaçonave construída por Israel entrou em órbita por meio de de um dos foguetes Falcon 9 da empresa SpaceX – dando o início a uma missão de dois meses para aterrissar na superfície lunar. O módulo, chamado Beresheet (que significa “no começo” em hebraico), tentará aterrissar na Lua em 11 de abril e, se for bem-sucedido, será o primeiro veículo financiado pelo setor privado e a primeira espaçonave israelense a fazê-lo. Mas ao mesmo tempo que a sonda Beresheet é única em muitos aspectos, ela é apenas uma das muitas espaçonaves lunares similares em desenvolvimento atualmente.

Um foguete Falcon 9 reutilizado da SpaceX lançou o módulo lunar israelense junto com um satélite de comunicações indonésio da Estação da Força Aérea de Cabo Canaveral na Flórida. Depois de implantar suas duas cargas em órbita, o primeiro estágio do Falcon 9 retornou à Terra e acertou um pouso (o terceiro para este booster) no drone da SpaceX “Of Course I Still Love You”, que estava estacionado no Oceano Atlântico. A decolagem do foguete Falcon 9 ocorreu às 20h45 no horário local ou 22h45 no horário de Brasília (0145 22 de fevereiro GMT).

O minúsculo lander lunar Beresheet pegou uma carona com o satélite indonésio, denominado Nusantara Satu, com uma carga secundária roubou roubou a cena. Beresheet tornou-se não apenas a primeira espaçonave israelense a se aventurar além da órbita da Terra, mas também a primeira missão lunar financiada pelo setor privado.

Representação artística do módulo Beresheet na superfície da lua. (Crédito: SpaceIL)

Até o feito da SpaceIL, a empresa sem fins lucrativos que construiu e que opera a sonda israelense, apenas os Estados Unidos, a Rússia e a China tiveram o dinheiro e o conhecimento tecnológico para aterrissar intacto um módulo na superfície lunar. A Índia espera juntar-se a esse time com uma missão à Lua chamada Chandrayaan-2 em abril. Mas a Lua pode não ser mais um destino tão exclusivo como tem sido até agora.

Empresas privadas em todo o mundo também esperam enviar sondas para a superfície lunar durante a próxima década. Esses empreendimentos veem modelos de negócios inteiramente novos possibilitados pela Lua. Alguns, como o da empresa Astrobotic, com base nos Estados Unidos, e o ispace, com origiem no Japão, querem se tornar um serviço de entrega lunar, oferecendo passeios a pesquisadores e organizações que querem enviar instrumentos científicos e tecnologias para a Lua. Os empreendimentos também estão interessadas em colher os recursos naturais da Lua, como os minerais ou o gelo de água que se imagina estar à espreita na superfície do nosso satélite natural. Entre esses estão a ispace e a Moon Express, sediada na Flórida.

Por causa de empreendimentos com esses, é possível que haja uma onda de desembarques lunares nos próximos anos. Mas para que esse renascimento lunar realmente comece, o lander de Israel precisa chegar primeiro à Lua.

A sonda lunar Beresheet da SpaceIL, a primeira espaçonave lunar israelense, é vista antes de ser encapsulada para o lançamento. (SSL / ColectSpace)

No domingo, 24 de fevereiro, Beresheet disparou seu motor no espaço, uma etapa programada que ajudou a estender sua órbita ao redor da Terra. O plano é continuar fazendo manobras assim até que Beresheet atinja a distância da Lua e entre em órbita lunar. No entanto, pouco antes de uma segunda ignição planejada do motor na segunda-feira 25 à noite, a reinicialização do computador de Beresheet cancelou a manobra. A SpaceIL diz que os sistemas da espaçonave estão funcionando bem, mas que a equipe da missão está analisando a situação. Por enquanto, não está claro como isso afetará a jornada da sonda para a lua.

Quer Beresheet aterrisse ou não na Lua, existirão muitas outras empresas privadas com ambições lunares nos próximos anos.

O módulo Beresheet foi construído pela organização israelense sem fins lucrativos SpaceIL, que começou a trabalhar nesta missão em 2011 como um participante do Google Lunar X Prize, uma competição internacional que ofereceu US$ 30 milhões para qualquer equipe financiada por fundos privados que pudesse pousar uma espaçonave robótica na Lua. Quando nenhuma das equipes conseguiu atingir essa meta antes do prazo final, a competição terminou sem vencedor. Mas isso não impediu a SpaceIL de perseguir seu objetivo.

“Temos uma visão para mostrar as melhores qualidades de Israel para o mundo inteiro”, disse Sylvan Adams, um doador da SpaceIL e filantropo canadense-israelense, durante um briefing de pré-lançamento em Orlando, Flórida, em 20 de fevereiro, segundo informou o site Space.com. “A pequena Israel está prestes a se tornar a quarta nação a pousar na Lua, e isso é notável porque continuamos a demonstrar nossa capacidade de conseguir muito acima de nossa importância e mostrar nossas habilidades, nossa inovação e nossa criatividade na resolução de qualquer problema difícil que possa existir.”

Beresheet vai passar sete semanas a caminho da Lua, passando pela Terra algumas vezes e usando a gravidade do nosso planeta para conseguir impulso de que precisa para chegar ao seu destino. Se Beresheet executar com sucesso uma aterrissagem suave na superfície lunar, Israel se tornará a quarta nação a alcançar tal aterrissagem na Lua, seguindo os passos das “superpotências espaciais” do mundo – Estados Unidos, Rússia e China.

Representação artística da trajetória que a espaçonave Beresheet da SpaceIL está seguindo para alcançar e aterrissar na lua. (SpaceIL)

O primeiro pouso na Lua foi realizado pela espaçonave Luna 9 da União Soviética em 1966. A sonda Surveyor 1 da NASA aterrissou na superfície lunar no final daquele ano. A China se juntou à cena em 2013 com seu lander Chang’e 3 e o rover Yutu .

“Nós pensamos que é hora de uma mudança, e queremos levar a pequeno Israel até a Lua”, disse Yonatan Winetraub, co-fundador da SpaceIL, durante o briefing. “Este é o propósito do SpaceIL.”

Quando Beresheet se aproximar da superfície lunar, ele terá o objetivo de pousar em uma região chamada Mare Serenitatis, que significa “Mar da Serenidade”. A espaçonave sobreviverá por apenas dois dias antes de ficar sem energia. Durante esse tempo, ele estudará os campos magnéticos da lua e tirará fotos da superfície lunar – juntamente com algumas selfies além Terra, disse Yigal Harel, chefe do Programa Espaço Espacial israelense.

O componente final a ser instalado no módulo lunar Beresheet da SpaceIL era uma cápsula do tempo digital com cópias da Bíblia, a Declaração de Independência de Israel e a arte das crianças. (SpaceIL)

Quando os dois dias de Beresheet terminarem, a espaçonave morta não será totalmente inútil. No módulo está montado um retrorefletor a laser, um dispositivo de espelhamento que não requer energia e pode ser usado para comunicações espaço-terra via Deep Space Network (DSN) da NASA. A NASA contribuiu com o dispositivo para essa missão como parte de um acordo com a SpaceIL que permitiria que a empresa iniciante utilizasse o DSN para sua missão lunar.

O retroreflector não é a única carga útil a bordo da Beresheet que foi concebida para resistir ao curto tempo de vida do módulo. O SpaceIL também incluiu uma cápsula do tempo na espaçonave repleta de arquivos digitais que contêm informações sobre a espaçonave e uma variedade de memorabilia israelense. Isso inclui uma cópia da Bíblia Hebraica, canções hebraicas, obras de arte criadas por crianças israelenses e uma foto de Ilan Ramon, o primeiro e único astronauta de Israel.

Parte da cápsula do tempo na plataforma Beresheet da SpaceIL, esta pequena moeda contém o texto de toda a Bíblia hebraica gravada a laser em sua superfície. (Imagem: Hanneke Weitering / Space.com)

Dentro da cápsula do tempo há um enorme banco de dados digital conhecido como Arch Lunar Library, um projeto da Arch Mission Foundation, organização sem fins lucrativos. A biblioteca contém “milhões de documentos de todo o mundo, diferentes dicionários e enciclopédias” em três moedas gravadas a laser, disse Winetraub ao Space. “Vai ser o artefato mais denso para alcançar a Lua do ponto de vista da informação, e vai ficar lá para as gerações futuras verem como é a Terra aqui em 2019.”

Fontes: Space.com, The Verge e ColectSpace.