Eleger Blsonaro presidente sugere que não, mas a verdade é complexa
 

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A eleição de Jair Bolsonaro como nosso presidente sugere que não, mas a verdade é mais complexa. Uma pesquisa revelou que nós nos importamos sim.
Redação10 de novembro de 201815 min

Eleger Blsonaro presidente sugere que não, mas a verdade é complexa.

O Brasil é o guardião da maior floresta tropical do planeta, onde a maior parte da biodiversidade da Terra e os estoques de carbono da floresta estão concentrados e que possui o maior reservatório de água doce do mundo. Seu patrimônio natural se estende por outros cinco biomas únicos. Mesmo assim, o presidente Jair Bolsonaro, com 55% dos votos válidos, deixou claro em sua campanha que a agenda ambiental não era uma prioridade.

Os primeiros movimentos de Bolsonaro após a eleição mostraram sinais de que ele iria fundir o Ministério do Meio Ambiente com o Ministério da Agricultura. No entanto, em resposta às críticas iniciais de acadêmicos, ONGs, conservacionistas e parte do setor do agronegócio — tal fusão foi chamada de “extinção” por conservacionistas, antropólogos e ativistas — Bolsonaro recuou da ideia. Mas o presidente prometeu outras ações que poderiam afetar negativamente o meio ambiente, como permitir a mineração dentro de áreas protegidas, acabar com o que ele chama de “indústria” de multas destinadas a reforçar a regulamentação ambiental e tornar o licenciamento ambiental para o desenvolvimento de infraestrutura e o uso de pesticidas mais flexível.

Os efeitos colaterais de suas promessas durante a campanha presidencial para afrouxar as regulamentações ambientais já começaram. O desmatamento na região amazônica aumentou, de acordo com os alertas de monitoramento florestal existentes (ver dados do SAD do instituto Imazon e do DETER do Inpe, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e já há mais invasões de áreas protegidas. Isso representa um agravamento de uma era de tempos difíceis para o setor ambiental, que começou em 2015 com o governo de Dilma Russef e continuou durante a a administração de Michel Temer.

Nosso país é relativamente jovem, tendo existido por pouco mais de 500 anos. Mas a Amazônia e os outros biomas estavam lá muito antes disso e abrigam vários milhões de indígenas. Nos últimos 100 anos, reduzimos a Mata Atlântica do Brasil a menos de 10% de sua extensão original. Também limpamos 50% da savana do Cerrado e quase 20% da Amazônia. Hoje, mais de três mil espécies estão ameaçadas de extinção. Quando falei com um empresário colombiano de tecnologia da informação sobre como usar visualização de dados e maneira de envolver mais cidadãos brasileiros no apoio à áreas protegidas e à natureza, ele disse: “vocês brasileiros devem se orgulhar de ter herdado esse imenso patrimônio natural”. E isso é absolutamente verdadeiro.

Eu sei que o nosso país tem outros grandes desafios sociais e econômicos. A taxa de criminalidade, com mais de 60 mil assassinatos em 2016, é inaceitável. A corrupção está entrincheirada em nossa sociedade. A qualidade dos cuidados de saúde públicos é baixa. E o investimento em educação e ciência diminuiu drasticamente. Outro problema urgente é a atual onde de desemprego, que já afeta mais de treze milhões de pessoas. Além disso, a economia brasileira vem encolhendo desde 2014.

Com sua promessa de acabar com a corrupção, melhorar a segurança interna e reconstruir a economia do país (mas sem propostas concretas), Bolsonaro venceu a eleição presidencial. Os eleitores não se importaram ou não perceberam os perigos para o ambiente que faziam parte de sua campanha. Entre esses perigos já havia uma ameaça de deixar o Acordo Climático de Paris durante sua campanha, embora ele pareça estar se afastando disso.

Mas eu não acredito que isso seja um sinal de que nós brasileiros não nos importamos com o meio ambiente. Na verdade, uma pesquisa recente com mais de um milhão de eleitores revelou que 51% acham que devemos ter mais proteções ambientais, não menos. Agora é a hora certa para os brasileiros enviarem uma mensagem clara ao novo presidente e aos seus ministros de que a agenda ambiental deve ser levada a sério.

Então, como podemos fazer isso? Nosso país tem mostrado sinais de extrema polarização e intolerância como resultado desta eleição. Consequentemente, o primeiro passo que devemos dar é reunir e restaurar nossa capacidade de dialogar e respeitar as ideias de cada um. Devemos nos recusar a tomar um caminho em direção à intolerância, discriminação, racismo ou qualquer tipo de violência, e dizer não à trajetória que nos leva a destruir nosso imenso patrimônio natural.

Leia também: “Onda conservadora na política ameaça conservação do meio ambiente”.

Em segundo lugar, precisamos acelerar nossa alfabetização ambiental. A maioria dos brasileiros não sabe que a floresta amazônica é responsável pelo transporte de vapor de água para outras regiões do país, o que contribui para a produção agrícola, a geração de energia hidrelétrica, o uso da água e a manutenção da biodiversidade aquática para a produção de alimentos. A maioria das pessoas não sabe que a redução do desmatamento pode retardar as mudanças climáticas e seus impactos negativos. E as pessoas não sabem que uma grande porcentagem de terras desmatadas é atualmente improdutiva, o que significa que não precisamos destruir ainda mais nossas florestas para expandir a agricultura e a pecuária.

A alfabetização ambiental também pode nos conectar com a natureza e melhorar nosso bem-estar. Em 2017, 10 milhões de pessoas visitaram parques nacionais no Brasil, um aumento de 20% em relação a 2016 — e pesquisas têm mostrado também os benefícios psicológicos de mais envolvimento com a natureza. Reduz o stress, fortalece o nosso sistema imunitário e torna-nos mais felizes (ver, por exemplo, os resultados do desafio 30 Days Wild).

O terceiro passo é o setor de agronegócios no Brasil reconhecer que a natureza é sua melhor aliada. O melhor manejo do solo e a manutenção da floresta para proteger rios, pequenos córregos e encostas íngremes melhoram a produtividade do solo e tornam o uso dele sustentável a longo prazo. Diversos estudos mostraram que a chuva diminui em paisagens altamente desmatadas, enquanto as emissões de CO2 aumentam, levando a condições climáticas extremas, como secas mais longas e mais intensas, além de mudanças na precipitação e aumento de incêndios florestais. A expansão da agricultura em detrimento das florestas também prejudicará a imagem das empresas que adotam tais práticas. Aliás, vários representantes internacionais do agronegócio e corporações no setor financeiro assinaram acordos para desenvolver um mercado livre de desmatamento.

Não vou responder à questão de saber se nós brasileiros nos preocupamos com o meio ambiente. Certamente, muitos de nós, incluindo muitos dos eleitores de Bolsonaro nos preocupamos. Muitos outros não entendem as implicações de políticas que prejudicam o meio ambiente. E uma minoria simplesmente não leva a sério proteção ambiental. Bolsonaro demonstrou que ele não cai no primeiro grupo, mas ele pode mudar.

Mas os cidadãos brasileiros devem abraçar e se orgulhar do capital natural que herdamos, e não esquecer nossa imensa responsabilidade para com nosso povo, nosso planeta e as futuras gerações. Devemos enviar os sinais certos a Bolsonaro sobre a importância de proteger nosso patrimônio nacional.

De Carlos Souza* para a Scientific American. Texto traduzido e adaptado da seção Observations (o original em inglês pode ser lido aqui). As opiniões expressas nessa seção são as do(s) autor(es) e não necessariamente as da Scientific American.

*Carlos Souza, Doutor, é pesquisador sênior da organização sem fins lucrativos Imazon. Ele realiza pesquisas sobre análise espacial e sensoriamento remoto para mapeamento e monitoramento de mudanças florestais.

Imagem de capa: vista aérea da Floresta Amazônica no trecho próximo a Manaus, Amazonas, Brasil (Crédito: Neil Palmer/CIAT – Flickr) e o próximo presidente do Brasil, Jair M. Bolsonaro (Crédtido: Wikimedia Commons).