AmbienteNovos estudos mostram que má qualidade do ar realmente está ligada ao autismo

A pesquisa mais recente, conduzida em Xangai mostrou ligações envolvendo crianças que há um risco para o desenvolvimento neurológico em ambientes poluídos nos primeiros anos após o nascimento.
Diógenes Henrique11 meses atrás
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A pesquisa mais recente, conduzida em Xangai, foi o passo além da pesquisa anterior que mostrou ligações semelhantes envolvendo crianças não nascidas.

Quando se trata de descobrir as causas ambientais dos problemas de desenvolvimento nas crianças, o panorama é complicado. Mas um novo estudo demonstrou que a exposição a certos tipos de poluição do ar no início da infância pode aumentar significativamente o risco de desenvolver sintomas associados ao Transtorno do Espectro Autista (TEA).

A pesquisa mais recente, conduzida em Xangai, foi o passo além da pesquisa anterior que mostrou ligações semelhantes envolvendo crianças não nascidas. A pesquisa anterior tinha mostrado que havia um risco continuado para o desenvolvimento neurológico nos primeiros anos após o nascimento em ambientes poluídos por partículas sobre as quais ninguém estava atento.

Cerca de 1.500 crianças foram incluídas na pesquisa mais recente, liderada pela Faculdade de Saúde Pública e Medicina Preventiva da Universidade Monash. “Os graves efeitos na saúde da poluição do ar estão bem documentados, sugerindo que não há nível seguro de exposição”, diz o principal autor do estudo, Yuming Guo. A pesquisa foi publicada no periódico científico Environment International.

“Mesmo a exposição a quantidades muito pequenas de partículas finas tem sido associada a nascimentos prematuros, atraso no aprendizado e uma série de condições graves de saúde, incluindo doenças cardíacas”, explica Guo.

As partículas inaláveis até dez micrômetros de tamanho são uma importante fonte de poluição do ar. Eles incluem pedaços finos de carbono, óxidos de enxofre e compostos orgânicos produzidos pelo tráfego, processos industriais e queima de combustíveis fósseis.

Sua ameaça à nossa saúde geral não é um grande segredo, e os governos geralmente fazem o possível para manter as concentrações de partículas no mínimo. Embora quanto menos material particulado melhor, até mesmo níveis baixos de partículas de tamanho micrométrico são uma preocupação. E há uma série de condições de saúde relacionadas a essa importante categoria de poluição do ar, envolvendo principalmente doenças cardiovasculares e pulmonares.

Menos claros são os riscos maiores de comprometimento do desenvolvimento neurológico. A maioria das pesquisas que mostram as ligações entre o TEA e a qualidade do ar tem se concentrado na exposição pré-natal, com algumas se detiveram sobre a exposição durante o primeiro ano de vida.

As características do TEA, incluindo dificuldades nas interações sociais e na comunicação, são difíceis de identificar antes dos dois ou três anos de idade, mas parecem ser causadas por diferenças fundamentais na estrutura cerebral e na conectividade funcional. A condição é uma mistura incrivelmente complexa de comportamentos, refletida em sua história de associar vários distúrbios semelhantes ao autismo em uma única categoria.

Os genes desempenham claramente um papel importante no desenvolvimento e no surgimento do TEA, mas as condições ambientais também parecem desempenhar um papel, deixando em aberto a questão de quão influentes são os primeiros anos de vida no cérebro em crescimento da criança. “Os cérebros em desenvolvimento de crianças pequenas são mais vulneráveis a exposições tóxicas no meio ambiente e vários estudos sugerem que isso poderia afetar a função cerebral e o sistema imunológico”, diz Guo.

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O momento das influências genéticas e os efeitos ambientais poderiam nos dizer mais sobre como a condição se desdobra, o que implica investigações que olhem para além do nascimento.

Assim, a equipe do estudo atual comparou 124 casos de TEA com 1.240 crianças que não tiveram diagnóstico. As crianças foram selecionadas de escolas primárias e jardins de infância em Xangai em 2014, o que significa que as crianças tinham entre 3 e 12 anos de idade.

Os dados das leituras diárias de partículas de 1, 2,5 e 10 micrômetros foram combinados com o local em que essas crianças viveram durante os primeiros três anos de vida, dando aos pesquisadores uma noção de quais crianças haviam sido expostas a altas concentrações de aerossóis.

A equipe viu um padrão claro emergir. Esses primeiros três anos de vida são períodos cruciais no desenvolvimento infantil, com até 86% a mais de chance de desenvolver o TEA quando expostos a partículas com cerca de um micrômetro de tamanho. E além disso, este risco foi maior durante o segundo e terceiro anos de idade. As razões não estao claras, embora os pesquisadores suspeitem que as perturbações no sistema imunológico possam ser, pelo menos em parte, as culpadas.

O tipo das partículas também pode desempenhar um papel importante. Outro estudo recente descobriu que a exposição a compostos tóxicos chamados dioxinas também aumenta as chances de desenvolver a doença, enquanto outras pesquisas sugerem que o famoso pesticida DDT também pode também ser uma causa do problema.

As partículas em torno de um micrômetro não tendem a ser classificadas separadamente das partículas de 2,5 micrômetros no monitoramento e controle da qualidade do ar, e ainda assim parecem ser responsáveis por alguns dos efeitos mais graves sobre a saúde. Estudos como esse mostram que podemos querer começar a prestar atenção e desenvolver políticas de saúde pública melhores.

“Dado que PM1 responde por 80% da poluição por PM2,5 somente na China, mais estudos sobre seus efeitos na saúde e toxicologia são necessários para preparar os formuladores de políticas a desenvolver padrões para o controle da poluição do ar PM1 no futuro”, disse Guo. [ScienceAlert]

Referências:

  1. HUANG, Hong e GUO, Yuming et al. “Early life exposure to particulate matter air pollution (PM1, PM2.5 and PM10) and autism in Shanghai, China: A case-control study”. Environment International, 05 de novembro de 2018 (online). Doi: https://doi.org/10.1016/j.envint.2018.10.026;
  2. BOKSA, Patricia; ZHAO, Bin et al. “Dioxins as potential risk factors for autism spectrum disorder”. Environment International (2018), 20 de outubro de 2018 (on line). Doi: https://doi.org/10.1016/j.envint.2018.10.028;
  3. BROWN, Alan S. et al. “Association of Maternal Insecticide Levels With Autism in Offspring From a National Birth Cohort”. American Journal of Psychiatry (2018), 16 de agosto de 2018. https://doi.org/10.1176/appi.ajp.2018.17101129.

Imagem de capa: Xangai, China. (Crédito: flikcr @keppetreal)