Como proteger o seu cérebro das "Fake News"
 

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Victor Hugo Joaquim26 de agosto de 20181311 min

Medical News Today — Psicólogos afirmam que as estratégias de enfrentamento desenvolvidas na infância são a razão pela qual as pessoas se tornam vulneráveis a notícias falsas quando adultas.

 

[dropcap]T[/dropcap]endo em vista os mais recentes desenvolvimentos políticos no ocidente, o fenômeno das chamadas fake news (notícias falsas) tem atraído cada vez mais interesse.

Um importante estudo desenvolvido por pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em Cambridge, analisou informações disponíveis no Twitter para verificar quem ganhava mais atenção: a verdade ou a mentira?

Os cientistas examinaram 126 mil notícias contestadas que três milhões de usuários twittaram ao longo de uma década, e concluíram que as fake news alcançam um número muito maior de pessoas e se espalham de forma muito mais rápida do que informações precisas.

É importante ressaltar que a predominância de notícias falsas faz com que as pessoas desconfiem dos meios de comunicação, e muitos relatam que não sabem distinguir o verdeiro do falso.

Recentemente uma pesquisa internacional encontrou que sete em cada dez pessoas temem que as fake news estejam sendo usadas como “uma arma”, e mais de 60% dos pesquisados não sentem segurança para distinguir as notícias falsas dos fatos.

“Desenvolver um grau maior de ceticismo nas crianças, encorajando-as a perguntar o porquê e a  questionar, diminui o viés de confirmação.”Mark Whitmore, Ph.D.

Mas, afinal, o que torna as pessoas vulneráveis às notícias falsas? Existe alguma estratégia que podemos adotar para nos proteger das mentiras propagadas no internet?  Apresentado na convenção anual da Associação Americana de Psicologia (APA), um estudo explicou o mecanismo por trás da atração pelas fake news.

O cérebro está programado para as fake news

O Ph.D. Mark Whitmore, professor assistente de gestão e sistemas de informação da Kent State University em Ohio, que se apresentou na convenção da APA deste ano, aponta para o chamado viés de confirmação como a principal razão por trás do apelo das notícias falsas.

O viés de confirmação refere-se à tendência de as pessoas aceitarem informações que confirmam suas crenças pré-existentes e ignorar quando a informação confronta tais credos.

“Em poucas palavras, é a necessidade que o cérebro tem de receber informações que confirmam e se harmonizam com o ponto de vista e crenças que o indivíduo já possui”, explica Whitmore. “Na verdade”, continua o pesquisador, “pode-se dizer que o cérebro é programado para aceitar, rejeitar, lembrar de forma incorreta ou ainda distorcer a informação confirmada de acordo com o que ele julga aceitável ou ameaçador para o que ele já acredita”.

Eve Whitmore, Ph. D., psicóloga do desenvolvimento na Western Reserve Psychological Associates em Stow, em Ohio, explica que esse viés de confirmação é formando nos primeiros anos de vida, quando a criança aprende a distinguir o mundo real e a fantasia.

Durante esse período crítico, os pais encorajam as crianças a acreditarem em “jogos de faz-de-conta” porque isso ajuda a lidar com a realidade e assimilar normas sociais. A desvantagem, porém, é que as crianças aprendem que a fantasia, as vezes, é aceitável.

Da infância à adolescência, explicam os pesquisadores, o pensamento crítico próprio da criança começa a se desenvolver. Nesse momento, iniciam-se os questionamentos voltados aos pais ou outras figuras de autoridade, situação que pode, por vezes, levar a conflitos e aflições que são desconfortáveis no nível psicológico.

É aí em que o raciocínio enviesado entra em ação. Para evitar tais conflitos, as pessoas desenvolvem mecanismos de enfrentamento, a exemplo do viés de confirmação. Uma vez que desafiar falsas crenças preexistentes causam esse desconforto psicológico, os adolescentes aprendem a racionalizar e aceitar a mentira.

“Na verdade pode-se dizer que o cérebro é programado para aceitar, rejeitar, lembrar de forma incorreta ou ainda distorcer a informação confirmada de acordo com o que ele julga aceitável ou ameaçador para o que ele já acredita”Mark Whitmore, Ph.D.

O humor pode proteger contra as fake news

Uma forma de reduzir a atração pelas fake news é reduzindo essa aflição que faz com que o viés de confirmação seja uma válvula de escape.

“O humor é uma estratégia de defesa”, diz Mark Whitmore. “Assistir comédia no estilo Talk Show ou sátiras políticas, não altera a fonte do agente estressor ao mesmo tempo que ajuda a reduzir a aflição associada a ele”.

“Outra é a sublimação, em que você canaliza seus sentimentos negativos em algo positivo, como correr para o escritório, marchar em um protesto ou se voluntariar por uma causa social”. Se esforçar para ouvir outros pontos de vista ajudam a moderar as opiniões e torná-las menos extremas, ele adiciona.

Por fim, os pesquisadores enfatizam a importância de um desenvolvimento precoce de habilidades de pensamento crítico. “Desenvolver um grau maior de ceticismo nas crianças, encorajando-as a perguntar o porquê e a  questionar, diminui o viés de confirmação.”

 

Publicado em Medical News Today. Material disponível em: American Psychological Association. Traduzido por Victor Hugo Joaquim

Leia mais sobre fake news em Habilidade cognitiva e vulnerabilidade às notícias falsas traduzido da Scientific American.

*Imagem de capa: Waldrop. 2017. News Feature: The genuine problem of fake news.