AntropologiaCiênciaO número de norte-americanos sem afiliação religiosa está em ascensão

Diógenes Henrique1 ano atrásFoto: Atheists at the Twin Cities Pride Parade 2011. Flickr Fibonacci Blue. Via Wikipedia ( Creative Commons Attribution 2.0 Generic)
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A ascensão dos ateus.

De Michael Shermer para a Scientific American (publicado na edição de abril de 2018).

 

Nos últimos anos, muito tem sido escrito sobre a ascensão dos “nones” — pessoas que marcam a caixa para “nenhum” (ou “none” em inglês) em pesquisas sobre afiliação religiosa. Uma pesquisa Harris Poll de 2013 com 2.250 adultos nos Estados Unidos, por exemplo, descobriu que 23 por cento de todos os norte-americanos abandonaram completamente a religião. Uma pesquisa do Pew Research Center de 2015 informou que 34 a 36 por cento dos millennials (indivíduos nascidos depois de 1980) são nones e corroboraram os 23 por cento, acrescentando que este foi um aumento expressivo em relação a 2007, quando apenas 16 por cento dos americanos disseram que eram afiliados sem religião.

Em números brutos, isso significa um aumento de 36,6 milhões para 55,8 milhões de nones.

Apesar de ficar muito atrás dos 71 por cento dos americanos que se identificaram como cristãos na pesquisa do Pew, eles ainda são um bloco de votação significativo, muito maior que os judeus (4,7 milhões), muçulmanos (2,2 milhões) e budistas (1,7 milhão), que juntos somam 8,6 milhões, e comparável a seitas cristãs politicamente poderosas, como evangélicas (25,4%) e católicas (20,8%).

Essa mudança para longe do domínio de qualquer religião é boa para uma sociedade secular, cujo governo está estruturado para desencorajar as bacias captadoras de poder de se acumularem e transbordarem para a vida privada das pessoas. Mas é importante notar que esses nones não são necessariamente ateus. Muitos se mudaram de religiões tradicionais para movimentos espirituais da Nova Era, como evidenciado em uma pesquisa Pew de 2017 que encontrou um aumento de 19 por cento em 2012 para 27 por cento em 2017 daqueles que relataram ser “espirituais, mas não religiosos”. Entre esse coorte, apenas 37 por cento descreveram sua identidade religiosa como ateu, agnóstica ou “nada em particular”.

Mesmo entre ateus e agnósticos, a crença em coisas geralmente associadas à fé religiosa pode se infiltrar por fissuras na represa materialista. Uma pesquisa de 2014 conduzida pelo Instituto Austin para o Estudo da Família e da Cultura com 15.738 estadunidenses, por exemplo, descobriu que dos 13,2 por cento dos que se consideravam ateus ou agnósticos, 32 por cento responderam afirmativamente à pergunta “Você acha que existe vida, ou algum tipo de existência consciente, após a morte?”. Hein!? Ainda mais incongruente, seis por cento desses ateus e agnósticos também disseram que acreditavam na ressurreição corporal dos mortos. Você sabe, como Jesus.

O que está acontecendo aqui? As pesquisas não perguntaram, mas eu suspeito fortemente que muitos desses incrédulos adotam noções New Age para a crença da continuação da consciência sem um cérebro através de algum tipo de “ressonância mórfica” ou campo quântico (ou algo assim) ou estão esperando que em breve, a ciência dominará a clonagem, a criônica, a transferência mental ou a capacidade transumanista de nos transformar em híbridos ciber-humanos. Como explico no meu livro “Heavens on Earth”, sou cético em relação a todas essas ideias, mas entendo a força. E esse poço gravitacional crescerá cada vez mais à medida que a ciência progredir nessas áreas — e especialmente se o número de ateus aumentar.

Em um estudo publicado na edição de janeiro de 2018 do periódico científico Social Psychological and Personality Science intitulado “Quantos ateus existem?”, Will M. Gervais e Maxine B. Najle, ambos psicólogos da Universidade de Kentucky, afirmam que pode haver muitos mais ateus do que os pesquisadores dizem, porque “as pressões sociais que favorecem a religiosidade, junto com o estigma contra a descrença religiosa…, podem fazer com que as pessoas que não acreditam em Deus se autoapresentem como crentes, mesmo em questionários anônimos”.

Para contornar esse problema de dados autorrelatados, os psicólogos empregaram o que é chamado de técnica de contagem incomparável, que foi previamente validada para estimar o tamanho de outras coortes subnotificadas, como a comunidade LGBTQ. Eles contrataram o YouGov para conduzir duas pesquisas com dois mil adultos norte-americanos cada, pedindo aos participantes que indiquem quantas declarações eram “inócuas” ou “sensíveis” em uma lista eram verdadeiras para elas. Os pesquisadores então aplicaram uma estimativa de probabilidade Bayesiana para permitir comparar seus resultados com pesquisas semelhantes do Gallup e do Pew, também dois mil adultos estadunidenses cada. A partir dessa análise, eles estimaram, com 93% de certeza, que entre 17 e 35% dos americanos são ateus, com uma “estimativa indireta mais confiável” de 26%.

Se for verdade, isso significa que existem mais de 64 milhões de ateus norte-americanos, um número impressionante que nenhum político pode ignorar. Além disso, se essas tendências continuarem, deveríamos estar pensando sobre as implicações mais profundas de como as pessoas encontrarão significado à medida que a fonte tradicional diminui sua influência. E devemos continuar trabalhando na fundamentação de nossa moral e valores em fontes seculares viáveis, como a razão e a ciência.

Este artigo foi originalmente publicado com o título “Silent No More” (“Chega de Silêncio”, em tradução livre).

Michael Shermer é editor da revista Skeptic (www.skeptic.com) e membro da Presidential Fellow da Chapman University. Seu novo livro é “Heavens on Earth: The Scientific Search for the Afterlife, Immortality, and Utopia (Henry Holt, 2018)”, ou “Céus na Terra: A Busca Científica pela Vida Após a Morte, a Imortalidade e a Utopia, em tradução não oficial, ainda sem edição no Brasil).