Polvo sufoca golfinho até a morte em primeira causa de morte do tipo registrada
 

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Diógenes Henrique17 de janeiro de 20181210 min

O jovem macho, Gilligan, estava em perfeitas em condições de saúde, diz um estudo. Depois de ser engolido, o polvo parece ter agarrado a laringe do golfinho com um tentáculo, sufocando-o efetivamente até a morte.

Ninguém nunca disse a Gilligan, o golfinho, para não morder mais do que ele poderia mastigar. O golfinho nariz-de-garrafa macho (Tursiops truncatus) do indo-pacífico é o primeiro cetáceo conhecido a morrer de asfixia por um polvo, diz um novo estudo. “Ele parece ter sido extremamente ganancioso e deve ter pensado ‘sabe de uma coisa, eu vou engolir todo’”, diz o líder do estudo, Nahiid Stephens, uma veterinária especializada em patologia da Murdoch University, em Perth, Austrália.

Quando o jovem macho, encontrado em uma praia a cerca de duas horas ao sul de Perth, foi levado ao laboratório de Stephens para um exame post-mortem em agosto de 2015, pedaços de um polvo maori ou polvo neozelandês (Macroctopus maorum) ainda estavam pendurados para fora de sua boca.

Golfinhos já foram observados matando e comendo polvos, por isso Stephens realizou a autópsia para descobrir o que deu errado — e também porque esse animal, em específico, apelidado de Gilligan, estava em condições gerais de saúde surpreendentemente boas. Primeiro, Stephens teve que remover o polvo. “Realmente era um enorme polvo, apenas puxei e puxei e pensei: ‘Meu Deus! Ainda está saindo’”, diz Stephens, acrescentando que o cefalópode tinha envergadura de tentáculos de 1,28 metro.

A autópsia, descrita em um estudo publicado na revista Marine Mammal Science, revelou que o problema surgiu quando Gilligan estava engolindo o que seria sua última refeição.

Os golfinhos podem desengatar sua epiglote — uma extremidade de tecido que liga a laringe até a narina — para abrir a gargantas e engolir pedaços maiores de comida. Stephens disse no estudo que o polvo de 2,090 quilogramas pareceu ter agarrado a laringe de Gilligan com um tentáculo, impedindo que ele se reconecte ao aparelho de respiração dos golfinhos e sufocando-o efetivamente até a morte.

“Esse polvo poderia ter sido, em teoria, morto, mas o imodesto animal ainda estava vivo”, diz Stephens, acrescentando que, enquanto ninguém ganha em uma situação como essa, “o polvo sai um pouco na vantagem com o um último grito de ‘Viva!’”.

Brincando com a comida

Kate Sprogis, pesquisadora da Murdoch University, diz que um polvo não é “uma presa fácil que é somente engolir”.

Ao estudar a população de golfinhos perto de Bunbury, onde Gilligan morreu, Sprogis observou golfinhos jogando polvo no ar na tentativa de tontear os invertebrados ou dividi-los em pedaços mais pequenos e digeríveis.

Um cetáceo muitas vezes se irrompe a superfície do oceano e joga o polvo pelo ar, quase um espetáculo, de acordo com Sprogis, que não esteve envolvida no estudo. “Exige bastante dos golfinhos do ponto de vista energético”, diz ela, acrescentando que os infelizes cefalópodes tentarão se agarrar às cabeças dos golfinhos. Um grande esforço necessário já que “o polvo é altamente nutritivo”.

Depois de jogar suas presas a esmo pelo ar, o golfinho geralmente morde a cabeça do polvo — embora a batalha esteja longe de terminar, já que os tentáculos podem permanecer ativos por algum tempo.

Quanto a Gilligan, “ele obviamente não jogou o polvo o suficiente, e foi um pouco arrogante e o engoliu”, diz Sprogis.

Aprendendo com a tragédia

Enquanto a morte de Gilligan pode ter sido o único registro do caso, pela primeira vez que os cientistas marinhos estão preocupados, já que provavelmente isso pode acontecer com mais frequência na natureza.

Uma foto de autópsia revela o polvo alojado na laringe. Foto: John Symons, Marine Mammal Science
Uma foto de autópsia revela o polvo alojado na laringe. Foto: John Symons, Marine Mammal Science

Relatos históricos de marinheiros nos contam histórias de cachalotes lutando contra “krakens” — provavelmente apenas se travaram de lutas incompreendidas entre polvos gigantes e cachalotes, diz Stephens. A situação de Gilligan é apenas “uma maneira interessante de destacar as coisas que acontecem no nosso quintal todo o tempo que não estamos conscientes”, diz ela.

Não só isso, mas o desafortunado final do golfinho ajuda os cientistas a aprender mais sobre os animais e sua biologia. Como um macho jovem e saudável, Gilligan também é um contraponto importante para muitas das amostras biológicas doentes e antigas que os patologistas frequentemente se deparam.

“Essas oportunidades não surgem, muitas vezes”, afirma Stephens, “então, quanto mais possamos estudar esse indivíduo após o infeliz e trágico evento de sua morte, melhor será”.

De Joshua Rapp Learn para a National Geographic.

Referência:

  1. STEPHENS, N. et al. Death by octopus (Macroctopus maorum): Laryngeal luxation and asphyxiation in an Indo-Pacific bottlenose dolphin (Tursiops aduncus). Mar Mam Sci, 33: 1204–1213. doi:10.1111/mms.12420