Novo exoplaneta pode abrigar a vida, segundo o ESO
 

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Diógenes Henrique17 de novembro de 201721 min

Um novo exoplaneta foi acrescentado à lista de planetas de sistemas extrassolares que podem hipoteticamente abrigar a vida, informou o ESO.

Um novo planeta é o mais novo candidato na busca por sinas de vida para além do Sistema Solar. O Observatório Europeu Austral (ESO, na sigla em inglês) informou nesta quarta-feira (15) ter descoberto o planeta Ross 128 b orbitando uma estrela localizada na constelação de Virgem distante de nós apenas 11 anos-luz, o que é bastante perto em termos astronômicos (um ano-luz equivale a 9,46 trilhões de quilômetros). A essa distância, Ross 128 b é o segundo exoplaneta (planeta fora do Sistema Solar) temperado e mais próximo do nosso, perdendo apenas para Proxima b, na lista de planetas potencialmente capazes de abrigar a vida.

“Mas em termos intergalácticos isso não é tão longe”, diz Xavier Bonfils, um astrônomo do centro de pesquisa francês CNRS no Observatório de Grenoble para Ciências do Universo. “Ross 128 b está muito próximo, o que nos permitirá vê-lo com um telescópio como Extremely Large Telescope (ELT) previsto para 2025″, disse Bonfils à AFP.  O ELT atualmente está em construção no Cerro Amazones (Chile) e poderá ser usado para procurar biomarcadores neste exoplaneta recém anunciado.

A equipe de astrônomos do ESO que fez a descoberta utilizou um instrumento único em seu gênero: o caçador de planetas HARPS instalado no Observatório de La Silla, no Chile. Crédito: ESO.

 

Com o auxílio do instrumento HARPS (High Accuracy Radial velocity Planet Searcher) do ESO, um espectrógrafo infravermelho instalado no Observatório de La Silla, no Chile, a equipe de astrônomos que reatou a descoberta do exoplaneta, informou também que ele orbita a estrela anã vermelha Ross 128 a cada 9,9 dias. Os pesquisadores dizem que Ross 128 b, que tem uma massa de 1,35 vez a massa da Terra, tem temperatura de superfície que poderá também ser próxima à da Terra”, informou o comunicado de imprensa do ESO. “A estrela Ross 128 é a estrela próxima ‘mais calma’ que abriga um exoplaneta temperado”.

As conclusões dos astrônomos se baseiam em dados coletados através de monitoramento de anãs vermelhas como a Ross 128 por mais de dez anos por meio do HARPS. “Esta descoberta baseia-se em mais de uma década de monitoração intensa por parte do HARPS, juntamente com técnicas de redução e análise de dados de vanguarda. Só o HARPS tem demonstrado tal precisão, permanecendo o melhor instrumento de velocidades radiais, mesmo após quize anos de operações” disse Nicola Astudillo-Defru, do Observatório de Genebra — Universidade de Genebra, Suíça, co-autor do artigo científico que revela a descoberta.

As anãs vermelhas como a Ross 128 encontram-se entre as estrelas mais frias e fracas, sendo também as mais comuns do Universo. “São, por isso, bons alvos para a procura de exoplanetas, sendo cada vez mais estudadas”, informou o ESO em um comunicado à imprensa. “De fato, o autor principal Xavier Bonfils, do Institut de Planétologie et d’Astrophysique de Grenoble – Université Grenoble-Alpes/CNRS, Grenoble, França, chamou o seu programa HARPS de ‘Atalho para a felicidade’, uma vez que é mais fácil detectar pequenos planetas frios do tipo terrestre em torno destas estrelas do que em torno de estrelas mais parecidas ao Sol”, segundo a nota.

 

Esta concepção artística mostra o planeta temperado Ross 128 b com a sua estrela anã vermelha progenitora ao fundo. Este planeta, que se situa a apenas 11 anos-luz de distância da Terra, foi descoberto por uma equipe que utilizou o instrumento HARPS do ESO, o único caçador de planetas. O novo mundo é o segundo planeta temperado mais próximo a ser detectado, depois de Proxima b. Trata-se também do planeta mais próximo a ser descoberto em torno de uma estrela anã vermelha inativa, o que pode aumentar a probabilidade deste planeta poder potencialmente sustentar vida. Ross 128 b será o alvo principal do Extremely Large Telescope (ELT) do ESO, que poderá procurar marcadores biológicos na atmosfera do planeta. Crédito: ESO/M. Kornmesser
Esta concepção artística mostra o planeta temperado Ross 128 b com a sua estrela anã vermelha progenitora ao fundo. Este planeta, que se situa a apenas 11 anos-luz de distância da Terra, foi descoberto por uma equipe que utilizou o instrumento HARPS do ESO, o único caçador de planetas. O novo mundo é o segundo planeta temperado mais próximo a ser detectado, depois de Proxima b. Trata-se também do planeta mais próximo a ser descoberto em torno de uma estrela anã vermelha inativa, o que pode aumentar a probabilidade deste planeta poder potencialmente sustentar vida. Ross 128 b será o alvo principal do Extremely Large Telescope (ELT) do ESO, que poderá procurar marcadores biológicos na atmosfera do planeta. Crédito: ESO/M. Kornmesser

 

Instalado no telescópio de 3,6 metros no Observatório La Silla do ESO no Chile, o  HARPS (High Precision Radial Velocity Planet Searcher) é o instrumento de caça ao planeta mais produtivo do mundo usando o método da velocidade radial e revolucionou nossa compreensão dos sistemas exoplanetários e ampliando a capacidade do telescópio para o infravermelho e permitindo que os astrônomos caracterizassem diversos sistemas planetários.

O objetivo principal do instrumento é usar o método de velocidade radial para detectar e caracterizar planetas orbitando estrelas de tipo M, vermelhas e de baixa massa. Em particular, busca encontrar planetas rochosos semelhantes à Terra que possam ser habitáveis. As estrelas de tipo M são de particular interesse porque as variações de velocidade radial induzidas por um planeta em órbita são maiores para uma estrela menos maciça do que uma estrela semelhante ao Sol, e, portanto, seus planetas — incluindo aqueles na zona habitável — são mais facilmente detectáveis. O HARPS funciona no infravermelho, pois esta é a principal gama de comprimentos de onda emitidos por essas estrelas vermelhas, que são as mais comuns na vizinhança do nosso sistema solar.

“O que HARPS realmente faz para detectar esses planetas? É tudo questão de perspectiva. Como estamos tão longe das estrelas, não podemos ver seus exoplanetas diretamente. Em vez disso, o HARPS detecta pequenas ondulações no movimento das estrelas. As estrelas e os seus exoplanetas estão unidos pela gravidade, de modo que um exoplaneta orbita sua estrela mãe distante, assim como os planetas do Sistema Solar orbitam o Sol. Mas um planeta em órbita em torno de uma estrela exerce sua própria suave atração gravitacional, de modo que o centro orbital do sistema está um pouco distante do centro da estrela e a própria estrela orbita sobre esse ponto — que é o que  podemos detectar como um pequeno movimento regular da estrela de um lado para outro ao longo da nossa linha de visão. Este puxão de cabo de guerra entre qualquer estrela e seus exoplanetas pode ser visto (ou melhor, medido) pelo HARPS, com uma precisão incrível. O HARPS detecta pequenas mudanças na velocidade radial da estrela (ou seja, ao longo da linha de visão), o que pode ser tão pequeno quanto p ritmo de caminhada suave de 3,5 km/h!”, explica o ESO em sua página dedicada ao instrumento.

Os dados do HARPS que revelaram a presença do exoplaneta revelaram também que, embora a estrela Ross 128 se localize a 11 anos-luz da Terra, ela se move em nossa direção e ela se tornará uma vizinha estelar bem mais próxima daqui a 79.000 anos, “um piscar de olhos em termos cósmicos”, segundo o ESO, que destaca ainda que “nessa ocasião, o Próxima b será ultrapassado e o Ross 128 b passará a ser o exoplaneta mais próximo da Terra”.

É comum que anãs vermelhas, inclusive Proxima Centauri, a estrela mais próxima do Sol de que se tem conhecimento e que está situada a 4,25 anos-luz, “ejetam eventualmente plumas de material que banham os planetas que se encontra em sua órbita. No entanto, Ross 128 é uma estrela muito mais calma e, por isso, os seus planetas podem ser os mais próximos conhecidos que poderão sustentar vida de modo confortável”, informou o ESO num comunicado à imprensa. Daí o fato de os astrônomos do ESO que fizeram a descoberta de Ross 128 b dizerem que ele está em órbita de uma das estrelas mais calmas nos arredores do Sistema Solar.

O HARPS também revelou à equipe que Ross 128b está em uma órbita cerca de vinte vezes mais próxima de sua estrela que a Terra está do Sol. Mas, mesmo estando tão próximo, o mais novo candidato a potencial local a abrigar a vida recebe somente cera de 1,38 vez mais energia de Ross 128 que a Terra recebe do Sol, isso devido à característica fria dessa pequena anã vermelha que tem pouca mais da metade da temperatura de superfície do Sol. De posse desses dados, os astrônomos da equipe da descoberta estimaram a faixa de temperatura de equilíbrio de Ross 128 b esteja entre -60 a 20 graus centígrados.

Embora o exoplaneta Ross 128 b seja considerada temperado pelos envolvidos na pesquisa, eles ainda não conseguiram determinar se o exoplaneta está dentro, nos limites ou fora da zona habitável da estrela progenitora, dentro da qual poderia existir água líquida.

Impressão artística do “Telescópio Extremamente Grande”. Conhecido como ELT (sigla para Extremely Large Telescope) e previsto para ser o maior telescópio óptico e infravermelho do mundo, esse fantástico telescópio terá um espelho primário de 39 metros de diâmetro e "será o maior olho do mundo virado para o céu"— mas palavras do ESO. O começo das operações do ELT está planejado para o início da próxima década, quando a comunidade de astrônomos e astrofísicos poderão conduzir estudos científicos que incluem galáxias com elevado desvio para o vermelho, formação estelar, exoplanetas e sistemas protoplanetários”. O design para o ELT mostrado aqui foi publicado em 2011 e é preliminar. Crédito: ESO
Impressão artística do “Telescópio Extremamente Grande”. Conhecido como ELT (sigla para Extremely Large Telescope) e previsto para ser o maior telescópio óptico e infravermelho do mundo, esse fantástico telescópio terá um espelho primário de 39 metros de diâmetro e “será o maior olho do mundo virado para o céu”— mas palavras do ESO. O começo das operações do ELT está planejado para o início da próxima década, quando a comunidade de astrônomos e astrofísicos poderão conduzir estudos científicos que incluem galáxias com elevado desvio para o vermelho, formação estelar, exoplanetas e sistemas protoplanetários”. O design para o ELT mostrado aqui foi publicado em 2011 e é preliminar. Crédito: ESO

“Os astrônomos estão detectando cada vez mais exoplanetas temperados, sendo que a próxima fase será estudar as suas atmosferas, composições e química com mais detalhe. A detecção de marcadores biológicos, como por exemplo o oxigênio, nas atmosferas dos planetas mais próximos, constituirá um enorme passo em frente. O futuro ELT do ESO estará muito bem preparado para realizar tais estudos”, concluiu a nota de imprensa do ESO.

Fontes: ESO e AFP.