Evidências interculturais para as bases genéticas da homossexualidade
 

GenéticaEvidências interculturais para as bases genéticas da homossexualidade

Diógenes Henrique22 de setembro de 201714 min

O terceiro gênero do México lança luz sobre os correlatos biológicos da orientação sexual.

De Debra W. Soh para a Scientific American

As razões por trás do porquê as pessoas são homo, hétero ou bissexuais têm sido por muito tempo motivo de fascinação pública. De fato, pesquisas no tópico de orientação sexual oferece uma poderosa visão para compreender a sexualidade humana. O periódico científico Archives of Sexual Behavior publicou em abril uma seção especial dedicada à pesquisa na área, intitulada “O Quebra-Cabeças da Orientação Sexual”. Um estudo, conduzido por cientistas na Universidade de Lethbridge em Alberta, Canadá, oferece evidências convincentes, evidências interculturais de que há fatores genéticos comuns que governam preferências sexuais de homens homossexuais por parceiros do mesmo sexo.

Entre os indígenas Zapotecas no sul do México, indivíduos que são biologicamente homens e sexualmente atraídos por homens são conhecidos como muxes. Eles são reconhecidos como um terceiro gênero: Muxe nguiiu tendem a ser masculinos em sua aparência e comportamento; muxe gunaa são femininos. Em culturas ocidentais, seriam considerados homens gays e mulheres transexuais, respectivamente.

Diversos correlatos de androfilia masculino — atração sexual de homens biológicos por outros homens — já foi observada em diversas culturas, o que é um indício de uma base biológica comum entre elas. Por exemplo, o efeito de ordem de nascimento fraternal — o fenômeno onde androfilia masculina pode ser predita pela existência de um grande número de irmãos mais velhos — é evidente tanto nas sociedades ocidentais quanto nas das Ilhas Samoa.

Curiosamente, na sociedade ocidental, homens homossexuais, comparados com homens heterossexuais, tendem a apresentar maiores níveis de ansiedade de separação — o estresse advindo da separação de grandes figuras de afeição, como um cuidador ou membro próximo da família. Pesquisas em Samoa apresentaram de forma similar que um terceiro gênero fa’afafine — indivíduos que são femininos na aparência, biologicamente masculinos, e atraídos por homens — também se lembram de maior ansiedade de separação quando comparados com homens samoanos heterossexuais. Assim, se um padrão similar relacionado à ansiedade de separação fosse encontrado em uma terceira cultura — no caso, no estado de Oaxaca no México – adicionaria às evidências que a androfilia masculina sofre influência biológica.

O recente estudo incluiu 141 mulheres heterossexuais, 135 homens heterossexuais, e 178 muxes (61 muxe nguiiu  e 117 muxe gunaa). Os participantes do estudo foram entrevistados usando um questionário que perguntava sobre ansiedade de separação — mais especificamente, o estresse e preocupação que eles apresentaram quando crianças com relação a serem separados de figuras parentais. Os participantes avaliaram o quão verdadeiras as perguntas eram para eles quando eles tinham idades na faixa de 6 a 12 anos.

Os Muxes apresentaram altas taxas de separação de ansiedade quando comparados à homens heterossexuais, de forma similar ao que foi observado em homens homossexuais no Canadá e nas Ilhas Samoa. Também não houve diferenças nos valores de ansiedade de separação entre mulheres e muxe nguiiu ou muxe gunaa, ou entre os dois tipos de muxe.

Quando consideramos possíveis explicações para esses resultados, mecanismos sociais são improváveis porque estudos prévios mostraram que a ansiedade é herdável e a parentalidade costuma ser em resposta aos comportamentos e características de crianças, e não o contrário. Mecanismos biológicos, porém, oferecem uma explicação mais convincente. Por exemplo, acredita-se que a exposição à níveis hormonais tipicamente femininos de hormônios sexuais esteroides durante o período pré-natal possa “feminilizar” regiões do cérebro masculino relacionadas à orientação sexual, influenciando, portanto, questões de afeto e ansiedade.

Além dessas observações, estudos em genética molecular mostraram que a Xq28, uma região localizada na ponta do cromossomo X, está envolvida tanto na expressão da ansiedade e da androfilia masculina. Esse trabalho sugere que fatores genéticos comuns podem regular a expressão de ambos. Estudos em gêmeos apontam, adicionalmente, para explicações genéticas como uma força fundamental para a preferência por parceiros do mesmo sexo em homens e neuroticismo, uma característica comparável à ansiedade.

A pesquisa aponta para o fato de que a ansiedade de separação na infância age como um correlato culturalmente universal para a androfilia em homens. Isso possui implicações importantes para a compreensão de condições mentais em crianças, porque níveis subclínicos de ansiedade de separação, quando relacionados à androfilia masculina, podem representar uma parte típica no curso do desenvolvimento da vida.

Nesse cenário atual, estudos de orientação sexual vão continuar a despertar interesse e controvérsia em um futuro próximo, pois tem o potencial de ser utilizado — para o bem ou para o mal — para sustentar determinadas agendas políticas. A aceitação moral da homossexualidade tem tradicionalmente se sustentado na ideia que a atração por parceiros do mesmo sexo é inata e imutável e, portanto, não é uma escolha. Isso é claro quando pensamos como crenças sobre a homossexualidade ser “aprendida” já foram utilizadas para justificar tentativas hoje descreditadas de tentar mudar esse comportamento.

As similaridades interculturais evidenciadas pelo estudo da Universidade de Lethbridge oferecem ainda mais evidências de que ser gay é genético, o que é, por si só, um achado interessante. Mas nós como sociedade precisamos desafiar a noção de que a homossexualidade precisa ser não-volitiva para ser socialmente aceitável. A etiologia da homossexualidade, biológica ou não, não deveria interferir no direito individual dos homossexuais por igualdade.

Referências:

  1. Gómez, F.R.; Semenyna, S.W.; Court, L.; VASEY, P.L.. Recalled Separation Anxiety in Childhood in Istmo Zapotec Men, Women, and Muxes. Archives of Sexual Behavior (2017). Arch Sex Behav (2017) 46: 109. https://doi.org/10.1007/s10508-016-0917-x;
  2. Blanchard, R. Quantitative and theoretical analyses of the relation between older brothers and homosexuality in men. PubMed (2017) PMID: 15302549 DOI: 1016/j.jtbi.2004.04.021
  3. Semenyna S.W., VanderLaan D.P., Vasey, P.L.. Birth order and recalled childhood gender nonconformity in Samoan men and fa’afafine. PubMed (2017) PMID: 28261795 DOI: 1002/dev.21498;
  4. VanderLaan D.P., Petterson L.J., Vasey, P. L. Elevated childhood separation anxiety: An early developmental expression of heightened concern for kin in homosexual men? Personality and Individual Differences, Volume 81, July 2015, Pages 188-194 https://doi.org/10.1016/j.paid.2014.03.018.