Por que todos nós não podemos recarregar nossos telefones por dispositivo wireless?
 

CiênciaTecnologiaPor que todos nós não podemos recarregar nossos telefones por dispositivo wireless?

Diógenes Henrique19 de setembro de 201711 min

Carregar seu telefone o dia todo por uma transmissão sem fio pode não estar tão longe.

De David Pogue* para a Scientific American

Mais cedo ou mais, tudo ficará sem fio. Ao longo das décadas, descobrimos como eliminar os cabos que nos trazem som, vídeo, texto, chamadas telefônicas e dados. Hoje, há apenas um cabo principal a eliminar: o cabo de alimentação.

Imagine se pudéssemos acessar a energia sem conexões por cabos! Todos nós abandonaríamos as lamúrias sobre nossos celulares estarem sem carga lá pela hora do jantar. A vida útil da bateria se tornaria uma especificação sem sentido. Uma nova era de gadgets poderia ser mais fina, elegante, mais leve e mais flexível — já que eles não teriam que dedicar um pedaço tão grande de seu volume às baterias.

E, por “recarga sem fio”, não me refiro à ideia de colocar seu telefone em um bloco de carregamento todas as noites, como é possível em alguns smartphones. Isso economiza você de conectar um cabo, mas o impede de usar seu telefone enquanto ele está sendo carregado. Não, queremos manter nossos aparelhos em nossos bolsos, recarregando durante o dia.

Carregar através do ar foi o santo graal para um punhado de startups por quase uma década — e uma obsessão minha por dois anos. Diversas equipes, com dinheiro de capital de risco, estão trabalhando muito, apresentando demonstrações e entusiasmando as plateias. O carregamento sem fio seria popular, lucrativo e transformador. Então, por que o atraso?

Para começar, a maioria dessas tecnologias funciona transmitindo ondas de radiofrequência (ondas RF). Nossos futuros telefones, tablets, laptops, relógios e Fitbits terão que estar equipados com receptores compatíveis que convertem essas ondas Wi-Fi de volta em energia. (Fitbit é uma empresa americana sediada em San Francisco, Califórnia, conhecida por seus produtos de mesmo nome, que são rastreadores de atividades, dispositivos de tecnologia junto ao corpo, ou “wearable”, habilitados via wireless que medem dados como o número de passos caminhados, frequência cardíaca, qualidade do sono, metros subidos, e outras métricas pessoais envolvidas com fitness.)

Essa tecnologia RF é, por exemplo, como funciona a tecnologia da Powercast. Desde 2010, essa empresa vem vendendo produtos industriais, como sensores de equipamentos e tags RFID ativas, que podem recarregar à distância. A companhia espera entrar em produtos de consumo em breve.

Infelizmente, a tecnologia da Powercast transmite apenas microwatts ou milliwatts (milionésimos ou milésimos de um watt), que está longe de ser suficiente para carregar um telefone. Pior ainda, não pode acompanhar a posição do seu dispositivo em um ambiente: você deve deixar o dispositivo em um ponto predefinido. Charles Greene, diretor de operações da companhia, diz que ele imagina que você vai colocar seu telefone na mesa de cabeceira todas as noites.

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Eliminar o cabo da tomada e recarregar equipamentos eletrônicos à distância pode não ser uma tarefa muito simples de ser realizada. Crédito: Jay Bendt.

Bem, legal. Mas não é o que o mundo está esperando.

Empresas como Ossia e Energous têm um plano mais ambicioso. Seus transmissores contêm uma série de centenas de antenas, que identificam seu dispositivo à medida que você se desloca. Agora, isso é mais parecido com o que você gostaria, certo?

Bem, sim. No entanto, aqui novamente, o sonho dos telefones que são recarregados em nossos bolsos é fugaz. O vice-presidente de marketing da Energous, Gordon Bell, diz que seus produtos vão recarregar aos poucos o telefone pelo ar, quando estiver no bolso. Mas se você estiver usando o telefone durante o dia, o melhor que se poderá esperar é que o transmissor faça com que o nível da bateria não caia.

Depois veio a uBeam, que usa ondas ultrassônicas para transmitir energia. Infelizmente, esta tecnologia requer uma linha de visão para o transmissor — então você tem que manter seu corpo na mesma posição o dia todo. (Além disso, o ex-vice-presidente de engenharia da uBeam agora diz que a tecnologia nunca funcionará.)

E ainda há o problema da Federal Communications Commission (FCC). Não se pode vender tecnologia sem fio nos EUA até que a FCC conclua que isso é seguro e não interfere com os produtos sem fio existentes. No momento, a agência permite a transmissão sem fio em duas categorias: potência muito baixa a distância (como a do Wi-Fi) ou uma potência maior contida ou localizada (como o micro-ondas ou as bases de carga). Claramente, nenhuma das categorias atualmente permite uma transmissão de longo alcance e de maior potência.

A Energous assegura que sua transmissão de energia é, de fato, localizada, graças a esse aparato formador de feixe de ondas. Se a FCC comprar esse argumento, ela e suas rivais podem ter uma chance de colocar seus produtos no mercado.

A empresa diz que espera ter a aprovação da FCC de seu primeiro carregador via ar, um modelo de desktop com um alcance de cerca de noventa centímetros, até o final deste ano. Se isso acontecer e se os fabricantes mundiais de produtos de consumo aceitarem a ideia, então podemos ter sorte. Talvez 2018 seja o ano em que o último fio vá embora.

Texto traduzido e adaptado de “Why Can’t We All Charge Our Phones Wirelessly?”. Leia o original nesse link.

Leia mais sobre quem está trabalhando no carregamento à distância em: ScientificAmerican.com/sep2017/pogue

*David Pogue é o principal colunista do Yahoo Tech e apresentador de várias minisséries NOVA no canal PBS.