Guglielmo Marconi, o homem que conectou o mundo
 

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Diógenes Henrique20 de julho de 201711 min

Guglielmo Marconi: o homem que colocou o mundo em rede.

Greg Milner para o The New York Times

Embora vivamos em um mundo em grande parte sem fio, o símbolo mais potente da nossa era da informação são as prosaicas instalações de tecnologia no Vale do Silício, brilhantemente representadas no seriado “Silicon Valley” da HBO como uma visão do futuro que se estende distante. Mas houve um momento em que o conceito “sem fio” — mensagens que atravessavam grandes distâncias sem o uso de cabos — turbinava a imaginação. “Ao contribuir para a produção da modernidade, o acesso sem fio — especialmente a sua encarnação como ‘rádio’ — tornou-se instantaneamente um produto da modernidade”, escreve, em Marconi – The Man Who Networked the World”, o historiador de mídia Marc Raboy sobre o estado da tecnologia em 1909, quando o italiano Guglielmo Marconi, com 35 anos, um italiano visionário do mundo sem fio, foi laureado com o Prêmio Nobel de Física.

Oito anos antes, Marconi havia realizado a primeira transmissão de rádio transatlântica bem-sucedida, uma transmissão do código Morse entre a Inglaterra e Terra Nova e Labrador, no Canadá. Raboy argumenta que Marconi não era tanto um gênio tecnológico tanto quanto ele era um especialista em reunir elementos distintos, de modo a compor um todo congruente, e mestre em acordos. Marconi também foi empreendedor, empresário e fundador da The Wireless Telegraph & Signal Company no Reino Unido em 1897 (que se tornaria em 1963 a Marconi Company). Durante o século anterior, James Maxwell estabeleceu as bases teóricas para o eletromagnetismo e Heinrich Hertz demonstrou a existência de ondas eletromagnéticas. Enquanto a maioria dos discípulos de Maxwell investigava as qualidades ópticas do eletromagnetismo, Marconi imaginava um novo tipo de telefonia.

Quando alguém apresenta uma mensagem poderosa e digna de atenção, dizemos que essa pessoa está “fazendo onda”. Marconi foi um criador de ondas original. Ele fez o ar morto vir a ter vida. Mesmo antes do triunfo transatlântico de Marconi, sua tecnologia sem fio lhe dera um valor líquido que as páginas de Raboy captam como o equivalente moderno de vários milhões de dólares — uma conferência internacional em 1903 foi convocada com o único propósito de discutir o poder não verificado de suas patentes. Fora da órbita corporativa de Marconi, tocava a Radio Corporation of America (RCA), a nova gigante de comunicação do país, liderada por David Sarnoff, um ex-office-boy do escritório de Marconi, para a preocupação da gigante americana.

Embora Raboy às vezes em sua narrativa se atole nas maquinações corporativas e na vida pessoal de Marconi, ele é especialmente hábil em retratar como a Marconi foi varrida no mundo moderno que ela mesma ajudou a criar. Como Thomas Edison, Marconi talvez tenha tido uma visão estreita de sua criação, especialmente porque os avanços na tecnologia possibilitaram transmissões de sons fluidos, não apenas cliques de código Morse sem vida, levando ao rádio como o conhecemos. Assim como Edison originalmente imaginava o fonógrafo como uma máquina de ditado, Marconi ficou impassível diante da possibilidade do rádio como entretenimento. Para ele, a comunicação sem fio seria sobre as possibilidades revolucionárias de uma comunicação bidirecional desenfreada — e ele insinuou que seu aparelho havia captado sinais de extraterrestres.

“Marconi” realmente nos aborrece quando Raboy detalha como seu subordinado estava implicado nos efeitos sociais e políticos da rede sem fio. A tecnologia de “feixe” de ondas curtas de Marconi possibilitou a “cadeia sem fio imperial”, uma rede de comunicações que conectou os extensos territórios distantes do Império Britânico. Embora seu relacionamento com Mussolini tenha sido complexo, algo que Raboy explora com detalhes fascinantes, Marconi gostou de notar que a palavra italiana para “feixe”, neste contexto, é fascio“Sistema a Fascio” [não se esqueça que a palavra fascismo, sistema ideológico-político do ditador italiano, tem a mesma raiz], disse ele em um discurso público. “Eu sempre reivindico para mim mesmo a honra de ter sido o primeiro ‘fascista’ na radiotelegrafia.” Ele usou sua fama para servir como um entusiasta e influente defensor das aventuras imperialistas da Itália na África Oriental. Surgiram, nessa época, rumores persistentes que a pesquisa sem fio de Marconi estaria possibilitando algum tipo de “raio da morte” que transformaria a guerra. Isso nunca se materializou.

Guglielmo Marconi nunca conseguiu capturar comunicações de civilizações alienígenas, mas hoje os drones e as bombas guiadas por GPS mantêm seus alcance e orientação graças a um sinal de rádio quase imperceptível proveniente de 20 mil quilômetros pelo céu. “Marconi”, que funciona como uma história cultural tanto quanto uma biografia, lembra-nos que, nas primeiras aparições, o celular tinha um romance e uma mística. “Este beijo fraterno da Europa e da América através do espaço”, transmitiu a atriz francesa Sarah Bernhardt em uma mensagem de Londres em 1907, “é a manifestação mais poética da ciência”.

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Livro:

MARCONI
The Man Who Networked the World
By Marc Raboy
Illustrated. 863 pp. Oxford University Press.

Greg Milner é autor de “Pinpoint: How GPS Is Changing Technology, Culture, and Our Minds”.

Texto adaptado de “In a New Biography, How Marconi’s Start-Up Changed the World”, do The New York Times