Parkinson poder ser doença autoimune

Parkinson poder ser doença autoimune

Da New Scientist. Esta é a melhor evidência até agora de que o mal de Parkinson pode ser uma doença autoimune. E isso pode levar a novas formas de tratamento. A doença de Parkinson é um distúrbio...

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Da New Scientist.

Esta é a melhor evidência até agora de que o mal de Parkinson pode ser uma doença autoimune. E isso pode levar a novas formas de tratamento.

A doença de Parkinson é um distúrbio neurodegenerativo que envolve a morte de neurônios localizados bem no interior do cérebro, causando tremores, rigidez e dificuldade em se mover. Embora existam drogas que aliviam esses sintomas, elas se tornam menos efetivas à medida que a doença avança.

O parkinson começa com uma formação anormal de uma proteína chamada sinucleína no cérebro. Os neurônios vizinhos aos que produzem dopamina morrem, causando tremores e dificuldade em se mover.

O conhecimento predominante tem sido que esses neurônios morrem devido a uma reação tóxica aos depósitos de sinucleína. No entanto,o mal de Parkinson tem sido associado a algumas variantes genéticas que afetam o funcionamento do sistema imunológico, levando à hipótese alternativa de que a sinucleína causa parkinson ao desencadear no sistema imunológico um ataque ao cérebro.

Um argumento contra essa possibilidade é o de que as células cerebrais estão a salvo do ataque do sistema imunológico, porque a maioria dos neurônios não tem antígenos – as células marcadoras que o sistema imunológico usa para reconhecer um alvo. Mas ao estudar amostras de tecido cerebral pós-morte, David Sulzer da Universidade de Columbia e sua equipe descobriram que os neurônios produtores de dopamina exibem antígenos. A equipe de pesquisadores, então, realizou exames de sangue e revelou que as pessoas com parkinson mostram uma resposta imune a esses antígenos, enquanto as pessoas que não têm a condição não.

Esses achados sugerem que o parkinson pode ser um transtorno autoimune, no qual o sistema imune ataca equivocadamente parte do corpo. Houve sugestões antes de o sistema imunológico estar envolvido no mal de Parkinson, mas esta é a primeira evidência de que ele desempenha um importante papel patológico, disse Roger Barker, da Universidade de Cambridge. “Seria um alvo atraente para a intervenção terapêutica”, diz ele.

No entanto, ainda não está claro se a resposta imune diretamente causa a morte do neurônio ou se é apenas um efeito colateral da doença. Agora a equipe de Sulzer planeja tentar bloquear a resposta autoimune em pacientes com parkinson para ver se isso pode impedir a evolução da doença.

Sinucleína vista ao microscópio.
Sinucleína vista ao microscópio. Crédito: New Scientist

O intestino e o mal de Parkinson

Pesquisa anterior, divulgada em novembro do ano passado, sugeria que o dano ao sistema nervoso por trás do parkinson começaria no estômago ou no cólon antes de se espalhar para células cerebrais – mas não sabemos ao certo o que o está causando o mal.

Se essa ideia estiver correta, abre-se a porta para novas formas de tratar a doença antes que os sintomas ocorram. “Isso seria uma mudança de jogo”, diz David Burn na Universidade Newcastle, no Reino Unido. “Existem muitos mecanismos diferentes que poderiam potencialmente impedir a propagação”.

Uma das características da condição são os depósitos de fibras insolúveis de uma substância chamada sinucleína. Normalmente encontrado como pequenas moléculas solúveis em células nervosas saudáveis, em pessoas com o mal de Parkinson, algo faz com que as moléculas de sinucleína se deformem em uma forma diferente, o que faz com que essas moléculas modificadas se juntem como fibras.

A primeira pista de que essa transição pode começar fora do cérebro ocorreu há uma década, quando os patologistas relataram ver as fibras distintivas de sinucleína nos nervos do intestino durante as autópsias – tanto em pessoas com o mal de Parkinson e também naquelas sem os sintomas, mas que tinham as fibras em seus cérebros. Os pesquisadores então sugeriram que o gatilho da doença poderia ser algum micróbio ou alguma toxina desconhecida.

Conhecer a localização do primeiro ataque permite a detecção precoce do mal- e o tratamento

Essa descoberta fez sentido porque as pessoas com parkinson relatam problemas digestivos – principalmente constipação – começando até 10 anos antes de se notar os tremores. Curiosamente, outro sintoma inicial de parkinson é a perda de olfato. Pode não ser coincidência, diz Burn, já que o nariz e o intestino são dois órgãos onde as células nervosas estão expostas ao mundo exterior e a potenciais  toxinas problemáticas e micróbios.

Acontece que, as fibras de sinucleína foram flagradas viajando do intestino para o interior do cérebro. Collin Challis no Instituto de Tecnologia da Califórnia e seus colegas injetaram fibras de sinucleína no estômago e no intestino de camundongos. Três semanas depois, as fibras podiam ser vistas na base do cérebro, e por dois meses haviam viajado para partes do cérebro que controlavam os movimentos. Os ratos também se tornaram menos ágeis – semelhantes às pessoas com a doença de Parkinson. Esse trabalho foi apresentado na reunião da Society for Neuroscience em San Diego em 2016.

Este estudo se baseia em um crescente corpo de trabalhos que aponta evidências de que o intestino desempenha um papel no parkinson, disse Burn à New Scientist na ocasião. Por exemplo, pessoas que tiveram o principal nervo do estômago cortado – um tratamento antigo para úlceras no estômago – apresentam menor risco da doença.

Nenhuma bactéria ou vírus foi identificado como causa. Mas evidências iniciais sugerem que as pessoas com o mal de Parkinson têm bactérias intestinais diferentes em relação a pessoas saudáveis. Alguns médicos experimentam o tratamento de pacientes com antibióticos ou transplantes fecais.

“Pode ser que ter bactérias erradas em seu intestino desencadeie inflamação”, diz Sébastien Paillusson no King’s College de Londres. “Sabemos que, com a inflamação,  seja mais provável que a sinucleína se acumule”.

Outros estudos sugerem que os agricultores expostos a certos pesticidas, e as pessoas que obtêm a sua água potável de poços – que podem estar contaminados com pesticidas – são mais propensos a obter parkinson. Talvez esses produtos químicos também possam prejudicar nervos no intestino.

Imagem ao microscópio: nervos do intestino e depósitos de alfa-sinucleína. Crédito: Science Photo Library
Imagem ao microscópio: nervos do intestino. Crédito: Science Photo Library

Seja qual for o culpado, conhecer a localização da primeira ocorrência permite a detecção precoce e o tratamento. Por exemplo, drogas que absorvem fibras de sinucleína ou bloqueiam sua formação estão em andamento. A aposta é que se estes fármacos forem ministrado em pessoas antes que as fibras atinjam o cérebro, elas devem ter melhores chances de sucesso no bloqueio da progressão ou do aparecimento da doença. Também pode ser possível um dia pesquisar fibras nos nervos do intestino durante as colonoscopias para câncer em estágio inicial, diz Burn.

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Referências:

    1.  SLUZER, David. et al. T cells from patients with Parkinson’s disease recognize α-synuclein peptides. 2017. Nature, DOI: 10.1038/nature22815);
    2. SVENSSON, Elisabeth et al. Vagotomy and subsequent risk of Parkinson’s disease. 2015, Anals of Neurology. DOI: 10.1002/ana.24448;

    3. KESHAVARZIAN, Ali et al. Colonic bacterial composition in Parkinson’s disease. 2015. Movement Disorder. DOI: 10.1002/mds.26307;

    4.  SCHRAG, Anette et al. Prediagnostic presentations of Parkinson’s disease in primary care: a case-control study. 2014. The Lancet Neurology. DOI: 10.1016/S1474-4422(14)70287-X;
    5. BRAAK, Heiko et al. Gastric α-synuclein immunoreactive inclusions in Meissner’s and Auerbach’s plexuses in cases staged for Parkinson’s disease-related brain pathology. 2005. Neuroscience Letters, DOI: 10.1016/j.neulet.2005.11.012;

    6. KLEIN, Alice. Best evidence yet that Parkinson’s could be autoimmune disease. 2017. New Scientist. <https://www.newscientist.com/article/mg23431314-900-best-evidence-yet-that-parkinsons-could-be-autoimmune-disease>. Acesso em 26/06/2017;
    7. WILSON, Clare. Parkinson’s disease may start in the gut and travel to the brain. 2016. New Scientist: <https://www.newscientist.com/article/mg23231024-100-parkinsons-disease-may-start-in-the-gut-and-travel-to-the-brain/>. Acesso em 26/06/2017;

    8. World’s first Parkinson’s vaccine is trialled. 2012. New Scientist: <https://www.newscientist.com/article/mg21428682-000-worlds-first-parkinsons-vaccine-is-trialled/>. Acesso em 26/06/2017.

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