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Muita gente não sabe do que se trata a Arqueologia; alguns têm uma ideia mais ou menos correta a respeito, e outros tantos a confundem com paleontologia. Isso resulta de vários fatores: falta de divulgação fora da academia sobre essa área por parte dos pesquisadores, enganos cometidos por jornalistas acerca da área, etc.

Primeiramente vamos falar sobre o que não é Arqueologia (pelo menos como ela é na academia): O estudo de fósseis de dinossauro, comumente associado à Arqueologia, é na verdade feito por paleontólogos! A arqueologia também não é aquilo que muitas vezes é mostrado na mídia, como em desenhos (ex.: As Aventuras de Jackie Chan), filmes (ex.: Indiana Jones) ou jogos (ex.: Tomb Raider), mas temos que dar um desconto, afinal, nessas mídias sempre haverá exageros ou ficção, e acredito que muitas pessoas saibam disso. A Arqueologia também não lida com extraterrestres e, na academia, eles não são utilizados como explicação para as grandes construções que sociedades do passado fizeram (como, por exemplo, as grandes pirâmides ou o Stonehenge).

Grosso modo, podemos dizer que a Arqueologia busca estudar as diferentes culturas e sociedades humanas a partir principalmente, mas não somente, da materialidade que a elas está relacionada. Materialidade aqui são todos os objetos, tanto aqueles que ainda são utilizados ou reutilizados, como aqueles que foram descartados ou abandonados. Esses objetos podem ser pequenos ou grandes, móveis ou estáticos. Por exemplo, um lápis ou uma ponta de flecha de pedra são pequenos e móveis, enquanto um edifício, ou uma pirâmide, ou o Stonehenge, são grandes e estáticos, uma estrutura de fogueira é pequena e estática. A Arqueologia pode se utilizar de outras fontes além da materialidade nos seus estudos, como, por exemplo, os documentos históricos e a história oral. A paisagem em si também acaba sendo estudada pelo arqueólogo ou arqueóloga, afinal, as sociedades humanas estavam e estão se relacionando com os ambientes, tanto ao buscar recursos, quanto ao darem diferentes significados para essas paisagens.

A Arqueologia busca, então, entender os diferentes aspectos das sociedades humanas, assim como as relações que essas sociedades tinham ou têm com o mundo e entre si. A Arqueologia busca também entender as mudanças que ocorreram nestas sociedades, em como elas entendem o mundo e consequentemente em suas práticas. Um arqueólogo vai tentar compreender, por exemplo, como um grupo se alimenta, como se veste, quais são suas práticas/hábitos/comportamentos, qual o sistema hierárquico dessa sociedade, a cosmovisão/visão de mundo, etc., bem como as mudanças culturais através do tempo; afinal, nenhum grupo permanece estático no tempo (não estou dizendo que esses grupos “evoluem” com o tempo, apenas que mudam sua forma de entender o mundo e seus comportamentos ou até mesmo suas estruturas sociais).

Isso faz com que a Arqueologia seja extremamente interdisciplinar: ela vai estar em contato com, além das ciências humanas, várias disciplinas das ciências naturais, como a Química, Física, Biologia, Zoologia, etc., sendo que muitos métodos destas outras disciplinas podem ser usados na pesquisa arqueológica. Em outros artigos irei detalhar mais esse assunto. Já postei um artigo aqui sobre como a física de partículas está ajudando a arqueologia a encontrar sítios arqueológicos subterrâneos.

Para muita gente o estudo arqueológico foca apenas no passado distante. Porém, a arqueologia trabalha tanto com culturas e sociedades do passado quanto com sociedades contemporâneas. Um exemplo é o trabalho de William L. Rathje[1]. Ele pesquisava povos antigos Mesoamericanos, mas começou a estudar o lixo contemporâneo a partir de uma ideia proposta por seus alunos em um projeto de pesquisa que ficou chamado de “Projeto lixo” (Garbage Project) e a partir daí começou a estudar a sua própria cultura, a partir dos métodos arqueológicos.

Há uma dificuldade em definir o que é arqueologia mesmo entre aqueles que estão de uma forma ou de outra em contato com essa área. Geralmente a definição dada por estes sofrem influência de suas opiniões acerca do que pode ou não ser conhecido pelo estudo arqueológico, assim como de qual é o objetivo da arqueologia. A própria definição dada neste texto vai ter um viés meu, e, embora eu tenha tentado ao máximo me desvencilhar dele, reconheço a impossibilidade de uma definição não ter influências da perspectiva pessoal de seu autor ou autora. Outro fator que dificulta a conceitualização é o fato do campo de estudo da Arqueologia ser muito amplo. Afinal, ela estuda todas as diferentes sociedades humanas e suas culturas, e o período que ela estuda vai desde o do surgimento dos primeiros hominídeos (datado entre 4 e 2 milhões de anos atrás) até os tempos atuais. No final deste artigo deixarei links para que você possa ver alguns dos diferentes conceitos de Arqueologia (como ela é feita na academia), assim como de livros sobre assuntos dos quais que possam te interessar também.

Espero que com este artigo eu tenha dado algum esclarecimento sobre o que é e do que trata a Arqueologia, embora eu imagine (espero) que você tenha ficado com ainda mais interrogações na cabeça depois de lê-lo. Farei mais artigos sobre as metodologias e as pesquisas arqueológicas que estão sendo realizadas no Brasil, mas caso você, como eu, seja impaciente, você pode saber mais sobre esses assuntos no site https://arqueologiaeprehistoria.com que inclusive conta com um canal no YouTube chamado Arqueologia em Ação, onde eles fazem entrevistas em vídeo com arqueólogos e arqueólogas sobre as subáreas de pesquisa (https://www.youtube.com/user/arqueologiaemacao).

Links sobre o que é arqueologia:

1- https://arqueologiaeprehistoria.com/o-que-e-arqueologia/

2- http://paleonerd.com.br/2015/08/03/arqueologia-o-estudo-do-principio-do-presente/

3- http://www.saa.org/Default.aspx?TabId=1346 (Em inglês)

4- https://archaeology.elpasotexas.gov/educational-resources/what-is-archaeology (Em inglês)

Livros que podem te interessar:

1- Arqueologia Brasileira – André Prous

2- O Brasil Antes Dos Brasileiros: A Pré-História do Nosso País – André Prous

3- Historia do Pensamento Arqueológico – Bruce Trigger

4- Brasil Rupestre: Arte pré-histórica brasileira – André Prous

5- Classificação em Arqueologia Robert C. Dunnell

Referências:

[1]https://sbs.arizona.edu/news/william-l-rathje-1945-2012

Foto: http://iafs.ie/index.php/blog/page/8/

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