Origens globais surpreendentes para os pratos regionais favoritos
 

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Diógenes Henrique27 de fevereiro de 2017825 min

Adaptado da BBC News

Uma avaliação de mais de 150 principais culturas alimentares mostra como a agricultura e as dietas dependem de culturas de outras regiões. O estudo constatou que nenhuma dieta nacional consistia apenas de culturas nativas, destacando a inter-relação do sistema alimentar global.

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Tomates são da Itália, ou seriam da…?

Os tomates da Itália e as potentes malaguetas da Tailândia, embora estreitamente associados a essas nações, são originários de outros lugares, segundo um estudo. Os autores do estudo afirmam que os resultados destacaram a interdependência dos sistemas alimentares e a necessidade de um esforço conjunto para assegurar a resistência desses sistemas às ameaças futuras.

A pesquisa de uma equipe internacional de cientistas avaliou a dieta e a produção agrícola de 177 países, que representaram 98% da população mundial. Os resultados foram divulgados na revista Proceedings da Royal Society B. Cerca de 70% dos suprimentos alimentares nacionais provêm de origens estrangeiras, explicam os pesquisadores.

Os gráficos interativos do estudo ilustram a “região primária de diversidade” das principais culturas em todo o mundo, ou seja, a região onde eles foram inicialmente domesticados e evoluíram durante longos períodos de tempo, e onde a diversidade de variedades de culturas tradicionais e plantas selvagens relacionadas é especialmente alta.

Passear pelo mapa da América do Norte, por exemplo, revelará que o país é originalmente o lar de mirtilos, airelas (mirtilo-vermelho), uvas, abóboras e cabaças, framboesas, morangos e girassol. Mas a região em grande parte produz milho, óleo de semente de algodão, feijão, batata doce, pimenta e pimentão — todos nativos da América Central.

A América do Norte também produz alimentos que provêm da Ásia Ocidental e Central, o revela gráfico, incluindo trigo, maçãs, uvas e alface.

Compreensão crescente

Esta tendência é refletida no mundo todo.

“O uso de culturas estrangeiras por parte dos países — plantas cujas regiões primárias de diversidade não coincidem com as mesmas regiões onde o país está localizado — era extenso em todo o mundo, tanto no fornecimento de alimentos como na produção agrícola nacional”, escreveram os autores.

Isto é especialmente verdadeiro para regiões geograficamente isoladas, observam os pesquisadores, o que ajuda a explicar por que a América do Norte se volta tão fortemente para culturas estrangeiras. Austrália e Nova Zelândia, juntamente com as ilhas do Oceano Índico, Caribe, sul da América do Sul, África do Sul e do norte da Europa compartilham essa característica também. Muitos dos países que dependem de uma abundância de culturas estrangeiras estão localizados em climas temperados, embora existam ilhas tropicais e regiões continentais que fazem isso também, como a África Central.

“Por mais de cem anos, os cientistas têm reunido informações para saber de onde as culturas vêm, as quais foram domesticadas por culturas agrícolas diversas”, disse o co-autor Colin Khoury, especialista em diversidade de culturas do Centro Internacional Para Agricultura Tropical, da Colômbia.

“Foi preciso reunir muita informação, incluindo linguística, genética e dados arqueológicos, a fim de alcançar este nível de compreensão.”

Khoury informou que uma figura importante na compreensão de onde nossa comida veio era de um cientista russo chamado Nikolai Vavilov, “um personagem que faria Indiana Jones parecer um cara um pouco medroso”. Ele foi preso em numerosas ocasiões por senhores da guerra durante suas expedições pelos cinco continentes.

Principais regiões de diversidade de grandes culturas agrícolas em todo o mundo. Veja material suplementar eletrônico, tabela S1, para uma lista de regiões primárias para todos os produtos agrícolas avaliados no paper do estudo.
Principais regiões de diversidade de grandes culturas agrícolas em todo o mundo. Cerca de 70% dos suprimentos alimentares nacionais provêm de origens estrangeiras. Os gráficos ilustram a “região primária de diversidade” das principais culturas em todo o mundo, ou seja, a região “onde eles foram inicialmente domesticados e evoluiu durante longos períodos de tempo, e onde a diversidade de variedades de culturas tradicionais e plantas selvagens relacionadas é especialmente alta”.

As informações que Vavilov reuniu durante suas viagens lhe permitiram registrar a diversidade de uma ampla gama de culturas e onde as plantas estavam crescendo ao lado de suas parentes selvagens.

Isto levou-o a propor os “centros de origem” para as culturas alimentares, que incluiu a América Central, a América do Sul, o Mediterrâneo e o Oriente Próximo, explicou o Khoury. Desde então, os cientistas têm debatido e avançado sobre esta parte do trabalho, com “centros de diversidade” em substituição à hipótese “centros de origem” de Vavilov.

“Um século depois, as pessoas ainda estão discutindo sobre de onde exatamente as culturas vêm, mas sabemos muito bem as regiões nas quais a diversidade é mais rica”, acrescentou. “Isso é importante agora para a agricultura porque essa diversidade ainda é usada para criar resistência a pragas e doenças, tolerância a mudanças climáticas e todo tipo de outras coisas”.

Teia alimentar

Khoury disse que sua equipe de pesquisadores foi a primeira a pensar sobre de onde todas as culturas provêm e a se perguntar quais áreas são importantes em termos dos modernos sistemas alimentares.

A equipe identificou 23 regiões produtoras de alimentos, todas elas foram consideradas importantes, destacando a interdependência global das safras.

Em países localizados nas regiões primárias de diversidade de grandes culturas, no entanto, o uso de culturas estrangeiras é muito menor, explicam os pesquisadores. Isso inclui o Sudeste Asiático, Sul e Leste do Mediterrâneo, Sul da Ásia, Ásia Central, Oeste da Ásia e África Ocidental. Estas regiões continuam a cultivar e a consumir os alimentos tradicionais básicos.

Contudo, tanto na produção como no consumo, os países estão se voltando para culturas não-nativas para alimentar suas populações. Isto está fazendo com que os países em torno do mundo tornem-se interconectados. O gráfico à esquerda mostra as ligações “as mais significativas”, quando o direito mostrar a “matriz cheia”.

As parcelas circulares ligam as regiões primárias de diversidade de culturas alimentares à sua importância atual no contexto das calorias (kcal per capita por dia) nos alimentos regionais. Cada região tem uma cor representando suas próprias culturas nativas e essas cores estão conectadas a outras regiões devido à importância dessas culturas na oferta de alimentos em outras regiões. A direção da contribuição é indicada pela cor da região primária e por um intervalo entre a linha de conexão e o segmento da região de consumo. A magnitude da contribuição é indicada pela largura da linha de conexão. Os valores regionais de oferta de alimentos (per capita por dia) foram formados pela determinação da média ponderada da população dos valores nacionais de fornecimento de alimentos entre os países que compõem cada região. IOI, Ilhas do Oceano Índico; ANZ, Austrália e Nova Zelândia; C América, América Central e México. (A) apenas são mostradas as ligações mais significativas (isto é, percentil 95) entre regiões, para visibilidade, enquanto que (b) apresenta a matriz completa de ligações. Como exemplo, C América é representada em laranja. As linhas alaranjadas representam a quantidade de suprimentos regionais de alimentos derivados de culturas nativas da região - como milho, feijão e mandioca - consumidos em diferentes regiões do mundo (veja a linha que liga à África Austral devido à alta importância dessas culturas naquela região). Por sua vez, C América consome culturas nativas de outras regiões, como arroz, café e cana-de-açúcar. Ver material complementar eletrônico, figura S3 para gráficos circulares para todas as variáveis de fornecimento e produção de alimentos medidos.
As parcelas circulares ligam as regiões primárias de diversidade de culturas alimentares à sua importância atual no contexto das calorias (kcal per capita por dia) nos alimentos regionais. Cada região tem uma cor representando suas próprias culturas nativas e essas cores estão conectadas a outras regiões devido à importância dessas culturas na oferta de alimentos em outras regiões. A direção da contribuição é indicada pela cor da região primária e por um intervalo entre a linha de conexão e o segmento da região de consumo. A magnitude da contribuição é indicada pela largura da linha de conexão. Os valores regionais de oferta de alimentos (per capita por dia) foram formados pela determinação da média ponderada da população dos valores nacionais de fornecimento de alimentos entre os países que compõem cada região. IOI, Ilhas do Oceano Índico; ANZ, Austrália e Nova Zelândia; C América, América Central e México. (A) apenas são mostradas as ligações mais significativas (isto é, percentil 95) entre regiões, para visibilidade, enquanto que (b) apresenta a matriz completa de ligações. Como exemplo, C América é representada em laranja. As linhas alaranjadas representam a quantidade de suprimentos regionais de alimentos derivados de culturas nativas da região – como milho, feijão e mandioca – consumidos em diferentes regiões do mundo (veja a linha que liga à África Austral devido à alta importância dessas culturas naquela região). Por sua vez, C América consome culturas nativas de outras regiões, como arroz, café e cana-de-açúcar. Ver material complementar eletrônico, figura S3 para gráficos circulares para todas as variáveis de fornecimento e produção de alimentos medidos.

“As conexões entre onde as pessoas cultivam e consomem o alimento e de onde ele se origina são inacreditavelmente extensas, as nações geralmente se conectam com muitas partes diferentes ao redor do mundo.”

Os pesquisadores explicam: a tendência geral ainda mostra um aumento nas culturas estrangeiras, fazendo com que os países ao redor do mundo se tornem interligados.

“Embora a persistência dos alimentos tradicionais e talvez até mesmo os vestígios das restrições biológicas originais sobre as plantas alimentares ainda são visíveis nos padrões de abastecimento alimentar”, escrevem os autores, “a tendência predominante é o uso considerável ao mesmo tempo de culturas alimentares nativas e estrangeiras de regiões tropicais e temperadas das regiões primárias de diversidade. ”

Khoury afirma que os achados do estudo — bem como as confirmações da importância de regiões, como o Oriente Próximo, nas quais por muito se acreditou ser a chave central para plantações de alimentos — também destacou que outras regiões foram igualmente importantes, como a América do Norte e o Oeste da Áfria.

Segundo a pesquisa de Khoury e colegas:

  • Cerca de 70% dos suprimentos alimentares nacionais provêm de origens estrangeiras; regiões geograficamente isoladas, em especial as culturas estrangeiras, incluindo a América do Norte e a Austrália;
  • Em países localizados nas regiões primárias de diversidade de culturas, o uso de culturas externas é menor, incluindo grande parte da Ásia;
  • Tanto na produção como no consumo, os países estão se voltando para culturas não-nativas para alimentar suas populações.

Outro achado principal foi que a dieta de nenhum país consiste inteiramente de culturas alimentares nativas.

Enquanto o sistema global de alimentos é visto sobre crescente pressão da crescente população humana e das mudanças climáticas, outros resultados deste estudo também apontam a necessidade de um esforço integrado para garantir a resiliência da produção de alimentos contra futuras ameaças.

“Está muito claro na ciência que a diversidade genética é a base biológica para ser capaz de sobreviver e se adaptar”, observou Khoury. “Então, se eu for o responsável por melhoramento vegetal e se quero que as batatas sejam resistentes a uma nova peste na Europa, onde eu encontro aquela diversidade? A resposta rápida é onde a diversidade é mais diversa, onde existe a maior variação”.

“Há áreas que chamamos de regiões primárias de diversidade. Ela não está apenas nas plantações; ela está também nos magros primos selvagens”, explica o cientista. “A realidade é que a diversidade está lá fora, na vida selvagem, mas ela não está muito bem coletada, especialmente quando se trata de parentes selvagens”.

E quanto as origens dos tomates italianos e das pimentas tailandesas?

“As duas culturas são de origem do novo mundo, das Américas. Elas vieram apenas depois do que é chamado de Troca Colombiana”, explicou Khoury.

Isto se deu no período seguinte à chegada de Cristóvão Colombo na América do Sul, quando se viu a transferência de animais, plantas, culturas e tecnologias entre a Europa e a América.

“Eles viram esses cultivos e os levaram de volta para a Europa. É surpreendente quão rápido os novos alimentos foram aceitos e adotados como se fossem de suas próprias culturas”.

Hoje com alimentos prontamente disponíveis não é difícil esquecer que muitos dos itens que desfrutamos podem não ter sido tão fácil de encontrar ou mesmo que é provável que muito do que você está comendo percorreu um longo caminho para chegar ao seu prato.

Referências:

  1. Colin K. Khoury et al., “Origins of food crops connect countries worldwide” <http://rspb.royalsocietypublishing.org/content/283/1832/20160792> Publicado em 8 junho de 2016. DOI: 10.1098/rspb.2016.0792;
  2. Origin of crops | CIAT Blog, “Where our food crops come from” <http://blog.ciat.cgiar.org/origin-of-crops/>.