Saúde & Bem-EstarEstudo encontra ligação entre xingamento e honestidade

Diógenes Henrique3 anos atrás
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Ele tem sido associado com raiva e grosseria, mas o insulto e o uso de uma má linguagem podem ter uma outra conotação mais positiva. Os psicólogos aprenderam que as pessoas que frequentemente maldizem e xingam estão sendo mais honestas. Agora, uma equipe de pesquisadores da Holanda, Reino Unido, EUA e Hong Kong relatou no periódico Social Psychological and Personality Science que pessoas que ofendem e usam do insulto são menos propensas a estarem associadas à mentira e ao engano.

O xingamento ou insulto é a linguagem obscena que, em alguns contextos sociais, é considerada inadequada e inaceitável. Frequentemente se refere à linguagem que contém referências sexuais, transgressões ou termos vulgares. Geralmente está relacionada à expressão de emoções como raiva, frustração ou surpresa. Mas o insulto também pode ser usado para entreter e conquistar o público. “Encontramos uma relação positiva consistente entre insulto e honestidade; o insulto foi associada a menos mentiras e decepções em termos individuais e com maior integridade no que diz respeito à sociedade”, escreveram os autores do estudo no Social Psychological and Personality Science .

“Xingar é tido como inapropriado, mas xingamentos podem ser a evidências de que alguém está contando a você a sua opinião sincera”, diz o co-autor do estudo, Dr. David Stillwell.
“Xingar é tido como inapropriado, mas xingamentos podem ser as evidências de que alguém está contando a você a sua opinião sincera”, diz o co-autor do estudo, Dr. David Stillwell.

“Há duas perspectivas conflitantes quanto à relação entre o uso de linguagem inadequada e insultos e a desonestidade. Essas duas formas de comportamento de violação de normas compartilham causas comuns e são frequentemente consideradas positivamente relacionadas. Por outro lado, no entanto, o insulto é muitas vezes usada para expressar os sentimentos genuínos de uma pessoa e, portanto, poderia estar negativamente relacionados com a desonestidade”, escreveram os autores do estudo.

Realmente parece haver atitudes conflitantes sobre o ato de insultar e seus impactos sociais vêm mudando ao longo das décadas. Em 1993, Clark Gable pronunciando a memorável frase “Francamente, minha querida, não dou a mínima” no filme E o Vento Levou foi suficiente para desembarcar sobre os produtores do filme uma multa de cinco mil dólares (no original em inglês “Frankly, my dear, I don’t give a damn” a palavra “damn” nos EUA é considerado um palavrão e isso foi um choque para a época). Atualmente nossos filmes, programas de TV e livros estão preparados com palavras profanas e, na maioria das vezes, somos mais tolerantes com elas.

Como a desonestidade e o xingamento são consideradas desvios, muitas vezes são vistos como evidências de padrões morais baixos. Por outro lado, o ato de insultar pode ser positivamente associada à honestidade. É frequentemente usado para expressar sentimentos não filtrados e sinceridade. Os pesquisadores citam o exemplo do presidente eleito Donald Trump, que usou palavrões em alguns de seus discursos durante uma campanha na eleição dos EUA no ano passado e foi considerado, por alguns, mais genuíno do que seus rivais.

David Stillwell, professor da Big Data Analytics na Universidade de Cambridge e coautor do artigo, diz: “a relação entre xingamento e desonestidade é complicada. Alguém está dizendo a sua opinião honesta, assim como eles não estão filtrando sua língua para ser mais palatável, eles também não estão filtrando seus pontos de vista.”

A equipe internacional de pesquisadores começou a avaliar as opiniões das pessoas sobre esse tipo de linguagem em uma série de questionários que incluiu interações com os usuários de uma mídia social.

No primeiro questionário, 276 participantes foram solicitados a listar suas palavras mais usadas e favoritas. Eles também foram convidados a avaliar suas razões para usar essas palavras e, em seguida, participaram de um teste de mentira para determinar se eles estavam sendo verdadeiros ou simplesmente responderam na forma que eles pensavam que seria socialmente aceitável. Aqueles que escreveram um número maior de palavrões eram menos propensos a mentir.

Uma segunda pesquisa envolveu a coleta de dados de 75.000 usuários do Facebook para medir o uso de palavrões em suas interações sociais on-line. A pesquisa descobriu que aqueles que usaram mais xingamentos também foram mais propensos a usar padrões de linguagem que foram mostrados em pesquisas anteriores que estavam relacionados com a honestidade, como o uso de pronomes como “eu” e “mim”. Os usuários do Facebook foram recrutados em todo os Estados Unidos e suas respostas destacam as diferentes opiniões sobre palavrões que existem entre diferentes áreas geográficas. Por exemplo, os estados do nordeste (como Connecticut, Delaware, Nova Jersey e Nova York) eram mais propensos a xingar enquanto que as pessoas nos estados do sul (tais como Carolina do Sul, Arkansas, Tennessee e Mississippi) eram menos propensas a usar palavrões.

“Nós nos propusemos a fornecer uma resposta empírica a pontos de vista concorrentes sobre a relação entre o uso de uma linguagem ofensiva e a honestidade. Em três estudos, tanto em relação a indivíduo como em relação a sociedade, descobrimos que uma maior taxa de uso de uma linguagem ofensiva ou obscena estava associada a mais honestidade. Esta pesquisa faz várias contribuições importantes, dando um primeiro passo para examinar a má linguagem e a honestidade adotadas em configurações naturalistas, usando grandes amostras e estendendo conclusões do indivíduo para um olhar sobre as implicações sobre a sociedade.”, concluíram os pesquisadores.

Referências:

  1. Site: Universidade de Cambridge. Research “Frankly, do we give a damn…? Study finds links between swearing and honesty. <https://www.cam.ac.uk/research/news/frankly-do-we-give-a-damn-study-finds-links-between-swearing-and-honesty> Acesso em 20 janeiro de 2017.
  2. Gilad Feldman, Huiwen Lian, Michal Kosinski, David Stillwell. Frankly, we do give a damn: The relationship between profanity and honesty. Social Psychological and Personality Science, 2017; DOI: 10.1177/1948550616681055
  3. Site ScienceDaily. “Frankly, we do give a damn: Study finds links between swearing and honesty.” ScienceDaily acessado em 19 janeiro de 2017. <www.sciencedaily.com/releases/2017/01/170117105107.htm>.

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