“Superbactérias” encontradas no banheiro da Estação Espacial Internacional

Um novo estudo sobre bactérias a bordo da Estação Espacial Internacional encontrou cinco cepas com características de resistência a drogas.

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As autoridades de saúde há algum tempo se preocupam com “superbactérias”, ou microorganismos que desenvolvem resistência a medicamentos, o que os torna difíceis de serem eliminados quando são os causadores de doenças. E superbactérias podem não ser um problema apenas aqui na Terra. De acordo com informações de Chase Purdy no Quartz, um novo estudo sobre bactérias a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS na sigla em inglês) encontrou cinco cepas com características de resistência a drogas.

Como parte de um esforço contínuo para aprender mais sobre os micróbios aos quais os astronautas são expostos em órbita, os pesquisadores do Laboratório de Propulsão a Jato (Jet Propulsion Laboratory ou JPL) da NASA analisaram1  105 cepas bacterianas coletadas em vários locais da (ISS) em 2015. Dentre as bactérias coletadas e pesquisadas, foram encontrados cepas de Enterobacter, que é uma bactéria conhecida por causar uma variedade de infecções em seres humanos. Pesquisas anteriores2 já encontraram cepas de enterobactérias que também desenvolveram resistência a múltiplas drogas aqui em terra firme.

O novo estudo, publicado no periódico científico BMC Microbiolog3, analisou mais de perto cinco cepas da ISS. Uma foi coletado de um aparelho de exercícios, enquanto as outros quatro vieram do “compartimento de resíduos e higiene”, ou o banheiro da estação espacial, em outras palavras.

Os pesquisadores usaram “vários métodos para caracterizar seus genomas em detalhes”, diz Kasthuri Venkateswaran, coautor do estudo e pesquisador sênior do JPL da NASA, ao site Phys.org. A equipe também comparou as bactérias da ISS a 1.291 cepas de Enterobacter coletadas na Terra. As cepas da ISS foram mais semelhantes geneticamente a três cepas de bactérias que haviam sido identificadas recentemente como a causa de infecção em recém-nascidos e em pacientes com “comprometimento imunológico” em três hospitais diferentes: um um país da África e outros dois casos nos Estados Unidos, sendo um no estado de Washington e outro no Colorado. As cepas hospitalares pertenciam a uma única espécie de bactéria, a Enterobacter bugandens.

Os pesquisadores descobriram que as amostras da ISS tinham padrões semelhantes de resistência antimicrobiana às cepas de Enterobacter bugandensis da Terra. É importante notar que as cepas espaciais não foram “consideradas virulentas”, o que significa que atualmente não representam uma ameaça para os astronautas a bordo da Estação Espacial. Mas a pesquisa revelou que as cepas da ISS tinham 112 genes relacionados à “virulência, doença e defesa”, escrevem os autores do estudo.

A virulência de um microorganismo é, segundo a definição de MeSH, o grau de patogenicidade dentro de um grupo ou espécie de  conforme indicado por taxas de letalidade e / ou a capacidade do organismo de invadir os tecidos do hospedeiro. Essa patogenicidade do microorganismo, ou seja, sua capacidade de causar doença, é determinada pelos seus fatores de virulência. Assim, o termo “virulento” pode descrever a gravidade da doença ou a infecciosidade ou infectividade, que a capacidade de disseminação ou propagação da doença, de um patógeno.

As bactérias atualmente não representam um risco para os astronautas, mas isso pode mudar à medida que esses microorganismos se adaptam ao ambiente.”

Usando análises por computador, os autores do artigo previram que as cepas do ISS têm 79% de probabilidade de se tornarem patogênicas para humanos.

O principal autor do estudo, Nitin Singh, disse a Chelsea Gohd, da Discover Magazine, que há certa preocupação de que, à medida que as bactérias se adaptam ao novo ambiente, os astronautas fiquem suscetíveis à infecção porque o sistema imunológico fica um pouco instável no espaço. “Uma vez que o sistema imunológico começa a enfraquecer, os micróbios que antes eram inofensivos poderiam deixá-los doentes”, explica Singh.

Contudo, os cientistas ainda não entendem completamente como patógenos como a Enterobacter bugandensis se comportam no ambiente espacial. Os pesquisadores precisariam estudar as cepas bacterianas da ISS em um corpo vivo para ter uma ideia melhor de como poderiam afetar os astronautas que trabalham na Estação Espacial. Assim, as bactérias são, como disse Singh ao Phys.org, “algo a ser monitorado” para garantir que nossos astronautas permaneçam saudáveis ​​e seguros. [Smithsonian Magazine]

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  1. Study Reveals Immune System is Dazed and Confused During Spaceflight. NASA (2018). https://www.nasa.gov/content/study-reveals-immune-system-is-dazed-and-confused-during-spaceflight-u;
  2. Bassetti, Matteo; Peghin, Maddalena; Pecori, Davide. The management of multidrug-resistant Enterobacteriaceae. Current Opinion in Infectious Diseases: December 2016 – Volume 29 – Issue 6 – p 583–594. DOI: 10.1097/QCO.0000000000000314;
  3. Singh, Nitin K. et al, Multi-drug resistant Enterobacter bugandensis species isolated from the International Space Station and comparative genomic analyses with human pathogenic strains, BMC Microbiology (2018). DOI: 10.1186/s12866-018-1325-2.
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