O esquecido fundador da ornitologia

Francis Willughby foi um grande virtuoso em uma era virtuosa.

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Lembrado por um estudo pioneiro sobre a classificação das aves, o historiador natural Francis Willughby do século XVII também tinha interesses em entomologia, botânica, linguística, jogos e acaso, e na reforma da classificação biológica. O fato de não ser tão conhecido pode ser explicado por sua morte aos 36 anos de idade. Em The Wonderful Mr Willughby, o ornitólogo Tim Birkhead mostra sua criatividade e suas contribuições para a ciência.

Nascido em 1635 na Inglaterra, filho único de uma família bem estabelecida da nobreza, Willughby herdou propriedades em Warwickshire e Nottinghamshire. Na Universidade de Cambridge, onde os jovens geralmente adquiriam influências culturais, ele encontrou um caminho diferente – na descoberta científica. Mergulhou nas “novas ciências”, lendo as obras de Galileo Galilei, Francis Bacon e René Descartes. Fez anotações organizadas por tópico, em seu livro comum – o banco de dados da época.

Um homem sociável, Willughby encontrou amigos que o estimularam. Como Birkhead relata, o mais importante foi John Ray, colega do Trinity College. Ray incentivou os interesses de Willughby em matemática e levou-o a estudar botânica. Foi durante alguns passeios que Willughby observou transformações intrigantes em lagartas que desencadearam descobertas entomológicas. No final da década de 1650, os dois embarcaram em um programa experimental de “química”. A “química”, como praticada por Robert Boyle e outros filósofos naturais, estava evoluindo da alquimia medieval para a química moderna. A excursão buscou analisar a transmutação de metais básicos em ouro, mesmo quando foi utilizada para aplicações como a fabricação de armas. Eventualmente, Willughby e Ray cruzaram a Inglaterra e o País de Gales em suas expedições de observação de aves e plantas.

 

Francis Willughby, pintado por Gerard Soest em 1657-60. Crédito: Univ. Nottingham

Por volta de 1662, estabeleceram um objetivo ambicioso: observar, descrever e classificar todas as espécies. Eles notaram que tanto a literatura quanto a nomenclatura eram confusas. A história dos animais do naturalista suíço Conrad Gessner (1551-1558), por exemplo, misturava conhecimento antigo com aqueles fruto de suas observações. Por outro lado, Ray e Willughby desenvolveram um sistema baseado em uma descrição anatômica precisa, distinguindo até espécies intimamente relacionadas. Começando com as espécies britânicas e se estendendo para a Europa continental, eles criaram uma taxonomia que seria usada por séculos entre os naturalistas, incluindo Carl Linnaeus em meados do século XVIII. Dividindo as aves terrestres e aves aquáticas, eles implantaram atributos como a forma do bico para criar uma chave de classificação com ramificações. Willughby amadureceu com a colaboração e usou sua riqueza para possibilitar ainda mais o desenvolvimento das pesquisas. Em 1662, Ray renunciou a sua bolsa de estudos universitária, em vez de assinar o Ato de Uniformidade aprovado pelo Parlamento para fortalecer a recém-restaurada monarquia de Carlos II. Willughby convidou seu mentor para morar em sua casa. No ano seguinte, Willughby foi eleito um “companheiro original” da Royal Society, e ele e Ray, com os alunos de Ray, Philip Skippon e Nathaniel Bacon, se aventuraram em uma turnê pela Europa.

Assistiram palestras universitárias e visitaram gabinetes de curiosidade – tesouros exóticos como a cabeça de um calau e uma cauda de elefante. Eles coletaram ovos de aves e um livro de pinturas de aves e peixes de Leonard Baldner, protetor das florestas em Estrasburgo, agora parte da França. Nos quartos alugados onde estavam hospedados, eles dissecaram peixes dos mercados de Veneza, e muitas vezes um empregado fazia o trabalho. Visitaram o museu do naturalista Ulisse Aldrovandi, do século XVI, em Bolonha, e participaram de dissecações humanas. Nesta tripulação protestante, Willughby enfrentou sozinho as estradas empoeiradas da Espanha católica, que ele via como uma sociedade ameaçadora e fechada.

Depois que eles voltaram para a Inglaterra em meados da década de 1660, Ray permaneceu na casa de Willughby quando este então se casou, teve filhos e começou a administrar suas terras. Birkhead trás uma sensação maravilhosa durante a leitura, mesmo quando relata que Willughby começou a ter febres recorrentes. Inspirado pela descoberta do médico William Harvey sobre a circulação sanguínea, publicada em 1628, Willughby observou o movimento da seiva em árvores anos antes do assunto surgir no jornal da Royal Society, Philosophical Transactions. Ele foi o primeiro a classificar os insetos por suas metamorfoses, reconhecendo que uma lagarta, pupa e borboleta eram fases do ciclo de vida de um inseto, não espécies diferentes. Ele fez perguntas astutas, como quais aves sobrevivem ao inverno ao migrar. Ele observou o ciclo de vida de uma abelha cortadeira, posteriormente batizada com seu nome – Megachile willughbiella. Também escreveu um estudo sobre jogos, do futebol aos cartões.

Um peru da Ornithologiae libri tres. Créditos: NHM London/SPL

O relato de Birkhead foi escrito a partir de suas colaborações com historiadores da ciência. Seguimos Willughby a partir de terras de nidificação de aves marinhas na Ilha do Homem até fábricas de vidro em Murano, Veneza. As cartas e os cadernos de Willughby, cheios de escrita rápida e impaciente, contam como ele trabalhava avidamente. A estranheza de seu século cientificamente liminar brilha na exemplificação de um “inseto” coletado na Itália, um falso feito de mandíbulas de uma moreia e de uma planta espinhosa. Birkhead faz vínculo entre o trabalho de Willughby e a biologia moderna, mostrando que ele e Ray identificaram cerca de 90% das 200 espécies de aves vistas na Inglaterra e no País de Gales.

Como Birkhead enfatiza, a parceria entre o inquieto Willughby e o calmo Ray foi extraordinariamente produtiva. No entanto, houveram desafios nas diferenças sociais. Willughby era um cavalheiro, Ray um filho de ferreiro. As dificuldades aumentaram depois da morte de Willughby. Em troca de uma anuidade, a família esperava que Ray educasse os filhos de Willughby; e ele mostrara-se bastante relutante. A família também se ressentiu com o controle de Ray sobre o legado póstumo de Willughby. Eles brigaram pelo acesso às coleções e artigos de Willughby, enquanto Ray produzia The Ornithology (1676), The History of Fishes (1686) e The History of Insects (1710), obras baseadas em seu trabalho conjunto com seu amigo. Posteriormente, os historiadores lutaram para dividir o crédito, às vezes favorecendo um, às vezes o outro.

“Este jogo de definir um gênio é inadequado e inútil”, escreveu Birkhead. Ele nos convida a conhecer uma vida científica bem vivida, rica em idéias, aventura e companheirismo – e, a profunda colaboração de Willughby com Ray, duas personalidades muito diferentes que enxergaram mais além porque trabalharam juntas.  [Nature]

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