Como identidade, não os temas, explica a divisão partidária — nova pesquisa tem implicações preocupantes

Os liberais e conservadores dos EUA não apenas discordam em questões políticas: eles também estão cada vez menos dispostos a viver perto um do outro, serem amigos ou se casar com membros do outro grupo.

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De Cameron BrickSander van der Linden na Scientific American.

 

A política dos Estados Unidos parece cada vez mais uma batalha selvagem entre esquerda e direita. Consistente com as fileiras cerradas em uma batalha, os estadunidenses estão expressando opiniões políticas que se alinham cada vez mais com seus grupos políticos. De todos os conflitos entre grupos no país, o partidarismo é um dos mais polêmicos, com 86% dos norte-americanos testemunhando fortes conflitos entre republicanos e democratas. No entanto, as diferenças políticas nem sempre são motivo de alarme. O aumento da divisão pode refletir a identificação com grupos que melhor correspondem aos nossos valores. Talvez republicanos e democratas não possam se entender porque suas preferências políticas são irreconciliáveis. No entanto, isso não explica por que os cidadãos daquele país não gostam de seus opositores políticos com um fervor tão intenso.

Liberais e conservadores dos Estados Unidos não apenas discordam em questões políticas: eles também estão cada vez menos dispostos a viver perto um do outro, serem amigos ou se casar com membros do outro grupo. Essa rejeição baseada na participação em um grupo é chamada de polarização afetiva (“affective polarization”), o que significa que nossos sentimentos são diferentes em relação aos membros de nosso próprio grupo em comparação com os afetos para com os de fora do nosso grupo. A crescente intolerância no país é um enigma, já que discordar das políticas não precisa necessariamente causar desconfiança desenfreada e impasse legislativo. Por exemplo, países com representação eleitoral proporcional como a Alemanha criam coalizões funcionais em diferentes ideologias.

Agora, novas pesquisas surpreendentes sugerem que o que os divide pode não ser apenas as pautas políticas. Em duas pesquisas em todo os Estados Unidos, a psicóloga política Lilliana Mason, da Universidade de Maryland, mediu as posições dos norte-americanos em seis questões como aborto e controle de armas, e quão fortemente eles se identificaram como liberais e conservadores, e também o quanto as pessoas preferiam contato social com membros de seus próprios grupos ideológicos. Identificar-se como liberal ou conservador explicou apenas uma pequena parte de suas posições. (Essa parte da pesquisa obteve resultados consistentes com as descobertas de que os norte-americanos superestimam as diferenças nas preferências políticas entre republicanos e democratas.) Em seguida, Mason analisou se a substancial intolerância entre liberais e conservadores era devida a suas identidades políticas (o quão forte eles se rotulariam como “liberais” ou “conservadores”) ou às suas opiniões políticas. Por exemplo, quem se oporia mais a se casar com um conservador: um liberal moderado que é pró-escolha (pró-escolha é o partidário da legalização do aborto) ou um liberal forte que é pró-vida (pró-vida se refere àquele que defende a não legalização do abroto)? Em todas as seis questões, identificar-se como liberal ou conservador foi um preditor mais forte de polarização afetiva do que as posições em relação aos temas políticos. Os conservadores parecem particularmente propensos a sentirem-se frios com os liberais, até com os conservadores que têm posições muito liberais.

Ao mesmo tempo, o estudo de Mason tem várias limitações importantes. Primeiro, o estudo não usou um modelo experimental — foi baseado em pesquisas —, portanto, os resultados não podem dizer se a polarização afetiva é a causa dos conflitos partidários. Além disso, o conjunto de questões políticas incluídas não era abrangente e, portanto, pode subestimar as conexões entre posições aos temas e identidade com o grupo ou com antipatia a grupos externos. Além disso, esperar uma forte ligação entre a ideologia e o posicionamento do entrevistado sobre os temas ignora o fato de que muitos indivíduos respondem a pesquisas políticas repetindo o que ouviram recentemente da mídia e das elites políticas, em vez de refletir sobre valores pessoais. Essas observações podem explicar por que as declarações de posicionamento dos norte-americanos frequentemente parecem contraditórias e instáveis.

Não obstante, vemos que o estadunidense está cada vez mais dividido não apenas nas questões, mas também em sua disposição de socializar ao longo do espectro político. É normal que a sociedade manifeste novas clivagens sociais à medida que cura as antigas. No entanto, quando as identidades são fundidas com políticas públicas que têm vastas consequências a longo prazo (por exemplo, guerra, impostos ou o Acordo de Paris), essas divisões colocam em risco nossa capacidade de selecionar as políticas públicas com base em seus resultados esperados. Parafraseando o antropólogo John Tooby, formar coalizões em torno de questões políticas é desastroso porque coloca nosso modesto desejo de busca da verdade contra nosso apetite voraz de sermos bons membros do grupo. Se os norte-americanos perceberem todos os debates sobre políticas como batalhas entre “nós contra eles”, paramos de selecionar políticas com base em seu conteúdo real. Ironicamente, isso levaria à escolha de políticas que não correspondem aos nossos valores pessoais, porque o conteúdo e as evidências se tornariam menos importantes que a fonte. Em suma, ver a política como uma batalha pode piorar as coisas para todos.

Uma solução pode ser apelar para o que os psicólogos chamam de “identidades superordenadas”. Por exemplo, republicanos e democratas são ambos membros de uma categoria unificadora maior: o estadunidense.  A teoria do modelo da identidade endogrupal comum prediz que, se os membros de partidos opostos (“nós contra eles”) pensarem em fazer parte do mesmo grupo (“nós”), os partidários podem desenvolver atitudes mais positivas em relação uns aos outros. Acredita-se que Martin Luther King tenha dito: “Podemos ter vindo em navios diferentes, mas agora estamos todos no mesmo barco”. Vamos tentar nos manter flutuando.

Artigo traduzido e adaptado do original “How Identity, Not Issues, Explains the Partisan Divide” de Cameron BrickSander van der Linden publicado no site da revista Scientific American. Crédito da Imagem: Brown University.

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