O voto eletrônico é rápido e bastante seguro, e a desconfiança é infundada

Alegações de fraude e preconceito criam uma narrativa perigosa que mina a confiança no sistema eleitoral.

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Os 147 milhões de brasileiros, espalhados por uma área quase tão grande quanto os Estados Unidos, irão votar para 1.654 cargos executivos e legislativos, incluindo a presidência. O Brasil sabe dos resultados uma ou duas horas depois do fechamento das pesquisas. Foi o primeiro país a tornar a votação totalmente eletrônica, em 2000. Meio milhão de máquinas do tamanho de impressoras desktop votam tanto na cosmopolita São Paulo quanto em aldeias remotas da Amazônia, para onde são levadas de barco. Os resultados da Amazônia são transmitidos por satélite para a capital Brasília.

Os brasileiros não têm motivos para duvidar que a contagem de votos seja precisa. Os 22 anos desde que o país tentou pela primeira vez a votação eletrônica “não produziram um único caso sólido” de adulteração que afetou os resultados, diz Gerardo de Icaza, da Organização dos Estados Americanos (OEA). Mas nas eleições deste ano, marcadas pelo descontentamento popular com o establishment político corrupto, muitos eleitores não acham isso garantido. A porcentagem de brasileiros que vêem as eleições como honestas, que vem declinando há anos, atingiu uma baixa recorde de 14%, de acordo com o Gallup, um instituto de pesquisas de opinião.

A desconfiança é especialmente alta entre os partidários do favorito, Jair Bolsonaro, um feroz populista de direita. “Ninguém confia nas máquinas de votação porque elas são feitas na Venezuela”, diz um fã do candidato. Essa teoria da conspiração, disseminada pelas mídias sociais, é amplamente aceita. Na verdade, as máquinas são fabricadas no Brasil pela Procomp, subsidiária da Diebold Nixdorf, uma empresa americana. O Supremo Tribunal Eleitoral do Brasil (TSE) criou o software. No entanto, o próprio Bolsonaro sugeriu que qualquer resultado que não fosse uma vitória para ele no provável segundo turno, marcado para 28 de outubro, teria que ser fraudulento.

As autoridades eleitorais dizem que o abandono das cédulas de papel reduziu a fraude e os votos de cabresto, ou o “voto de freio” (isto é, coerção). Na época do papel, as contagens podiam durar semanas, alimentando a violência. As máquinas tornaram o voto mais fácil para pessoas analfabetas, o que reduziu em um décimo o número de cédulas em branco e ilegível. A emancipação dos pobres levou a um aumento dos gastos dos estados com a saúde, de acordo com Thomas Fujiwara, economista da Universidade de Princeton. “Para países com grandes populações e grandes extensões de terra, o voto eletrônico se mostrou eficaz”, diz Icaza.

Mas isso pode causar problemas. Os hackers convidados pelo TSE para testar o sistema concluíram que, embora um político inescrupuloso achasse quase impossível cometer fraudes em grande escala, porque as máquinas não estão conectadas à Internet, alguém com acesso ao software, ou seja, alguém conectado à rede do TSE poderia manipular os resultados sem ser detectado. Isso porque o Brasil não possui uma “trilha de auditoria de documentos verificada pelo eleitor”. O Congresso votou duas vezes para modificar o sistema para que os eleitores recebam recibos impressos, que poderiam ser verificados em caso de falhas técnicas ou alegações de fraude. O deputado Bolsonaro, de fato, patrocinou essa proposta. Mas em junho, o STF derrubou uma lei que teria introduzido recibos em papel para 5% das urnas. Foi alegado que a medida seria muito complicada e cara para usar em larga escala.

O TSE tem outras salvaguardas. O software é criptografado, as máquinas são lacradas até o dia das eleições e os partidos políticos podem enviar observadores a testes de máquinas selecionadas aleatoriamente no dia anterior. Mas nenhum sistema eletrônico é à prova de falhas, alerta Diego Aranha, um cientista da computação.

O deputado Bolsonaro não é o único candidato cujos apoiadores estão preventivamente a declarar fraude. O Partido dos Trabalhadores (PT), da esquerda, alega, sem fundamento, que o TSE mostrou preconceito ao desqualificar seu ex-candidato à presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente (por cumprir pena de prisão por corrupção). Recentemente, o TSE cancelou as inscrições de 3,4 milhões de pessoas que não conseguiram cumprir um prazo em maio para registrar suas impressões digitais, uma nova proteção que foi introduzida em algumas cidades. Quase metade dos eleitores desqualificados está no nordeste, uma região pobre onde o sucessor de Lula como candidato do PT, Fernando Haddad, está na frente. Alguns destes, sem dúvida, morreram ou se moveram. Não há provas de que o TSE esteja tentando suprimir o voto de Haddad. Mas, neste caso, alguns eleitores podem ter sido desqualificados injustamente, simplesmente porque eles não sabiam sobre o novo requisito.

A paranoia, no entanto, é infundada. Alegações de fraude e preconceito criam uma “narrativa perigosa” que “mina a confiança” no sistema eleitoral, diz Felipe Seligman, do Jota, um site que relata sobre o Judiciário. De fato, o voto eletrônico tornou as eleições brasileiras mais confiáveis, não menos. [The Economist]

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