Adeus a Cavalli-Sforza, o geneticista que estudou as migrações da humanidade

Pioneiro da reconstrução da história das populações através da genética, Cavalli-Sforza faleceu aos 96 anos. Ele ensinou em Parma e Stanford e demonstrou que o conceito da raça humana não tem base científica. Diógenes Henrique...

6299 0

Pioneiro da reconstrução da história das populações através da genética, Cavalli-Sforza faleceu aos 96 anos. Ele ensinou em Parma e Stanford e demonstrou que o conceito da raça humana não tem base científica.

Diógenes Henrique

O cientista italiano Luigi Luca Cavalli-Sforza morreu em Belluno, Itália, na tarde de sexta-feira (31). Pioneiro da genética de populações, ele dedicou a sua vida a estudar a história humana com os instrumentos da biologia, chegando a desconstruir a ideia da existência de diferentes raças humanas.

Luigi Luca Cavalli-Sforza nasceu em Gênova e estudou na escola de Giuseppe Levi em Turim (também professor de Salvador Luria, Renato Dulbecco e Rita Levi Montalcini, três prêmios Nobel). Mas acima de tudo ele foi estudante de Adriano Buzzati Traverso, pai da genética italiano e irmão do escritor Dino Buzzati; a esposa de Cavalli-Sforza, Amanhecer Williams, era sobrinha dos irmãos Buzzati e eles tinham herdado a casa Belluno, onde o cientista viveu nos últimos anos, em Turim. 

Com Buzzati Traverso e depois em Cambridge, Cavalli-Sforza estudou acima de tudo a genética das frutas e das bactérias, mas desde o início dos anos cinquenta o seu interesse científico se concentrou principalmente no homem. Sua principal ideia, à qual dedicou décadas de pesquisa e logo foi adotada por muitos outros cientistas, foi comparar a disseminação de genes (inicialmente, grupos sanguíneos) e a evolução cultural humana através da construção da primeira árvore genealógica da família humana, baseada não apenas em dados biológicos, mas também em informações arqueológicas e lingüísticas. Os resultados de sua pesquisa foram contados por ele mesmo em alguns best-sellers de não-ficção científica, incluindo os fundamentais, “Genes, Povos e Línguas”.

Além do ensino universitário, na verdade especialmente em Parma, Pavia e Stanford, Cavalli-Sforza dedicou muito esforço à divulgação científica, inclusive atendendo ao público em muitos festivais e curando exposições sobre a história da humanidade.

Biografia
Luigi Luca Cavalli-Sforza foi um geneticista bacteriano e populacional que fez importantes contribuições para a compreensão da genética da bactéria Escherichia coli e da resistência bacteriana aos antibióticos. Ele passou a estudar a origem e a migração de populações humanas e é o fundador do campo da geografia genética.

Estudando muitas populações, Luigi construiu uma paisagem genética global, revelando que a história humana foi impulsionada por migrações em massa desencadeadas por explosões populacionais. Ele mostrou que os pioneiros métodos agrícolas se espalharam através da lenta migração e que o isolamento geográfico dos bascos os levou a singularidade genética e cultura distinta, provavelmente descendente dos primeiros caçadores-coletores europeus.

Ao acompanhar a migração humana em todo o mundo, o trabalho de Cavalli-Sforza abrangeu genética, estatística, demografia linguística, matemática e evolução cultural. Ele escreveu vários livros, incluindo A História e Geografia de Genes Humanos (1994, com Paolo Menozzi e Alberto Piazza) e Genes, Povos e Línguas (de 1994, lançado no Brasil em 2003). Esse primeiro é frequentemente descrito como “uma história de tudo sobre todos”. Luigi Luca Cavalli-Sforza foi membro da Academia Nacional de Ciências dos EUA.

A geografia genética

Ao estudar o DNA e as línguas, o geneticista italiano fundou uma nova área do saber, em que o estudo da distribuição geográfica de variantes genéticas permitiu reconstruir a expansão da humanidade pelo planeta. Professor do Departamento de Genética da Escola de Medicina da Universidade de Stanford desde 1970, membro emérito da Pontifícia Academia das Ciências desde 1994 e da Academia Francesa de Ciências e da Royal Society, Cavalli-Sforza conduziu estudos que desvendaram como, a partir de África, se espalhou a humanidade pelo planeta. Essa investigação científica nos ensinou algo ainda mais profundo: o conceito de “raça” não tem qualquer utilidade em termos biológicos.

Desde sempre, os humanos, mesmo os que ainda não os Homo sapiens como nós, tiveram um desejo inato de viajar e correr mundo, o que fez com que há cerca de 12 mil anos, quando surgiu o homem moderno e a agricultura estava prestes a começar, existissem humanos praticamente em todos os pontos da Terra – nesse ponto éramos todos bastante parecidos geneticamente e culturalmente. A curiosidade de Cavalli-Sforza foi voltada a essa viagem, a qual procurou compreender.

Cavalli-Sforza iniciou seus estudos no mestrado na Universidade de Pavia, Itália, no curso de medicina, vindo a obter o título de mestre em 1944, aos 22 anos de idade e estudou genética, quando o gene e os mecanismos da hereditariedade eram ainda um livro cheio de páginas em branco para os cientistas, e também estatística. Essa escolha poderia parecer um pouco heterodoxa quando ele era jovem, mas faz todo o sentido hoje em dia, com a ascensão da genômica, o estudo dos genomas, o livro de instruções dos seres vivos, escrito com a química das bases nitrogenadas que compõem o DNA.

Ao estudar o DNA, a partir dos anos 1960, depois de ter trocado a genética das bactérias pela genética humana na década anterior, como explicou numa entrevista à Nature em 2007, Cavalli-Sforza começou a publicar os trabalhos que o tornaram célebre (ver Genes, Povos e Línguas). Traçou as migrações em massa do passado remoto da humanidade não apenas através das escavações arqueológicas, como se fazia tradicionalmente, mas também procurando pistas no sangue dos humanos atuais. Tornou-se o fundador de uma nova área do saber, a geografia genética, em que o estudo da distribuição geográfica de variantes genéticas permite, por exemplo, reconstruir a expansão da humanidade pelo planeta.

O renomado geneticista foi responsável por promover o progresso de importantes iniciativas de cooperação científica internacional, como o estudo do cromossomo Y e o Projeto de Diversidade do Genoma Humano, que passou da leitura do genoma de uma única pessoa para a leitura do de várias pessoas buscando compreender o que torna cada indivíduo único e irrepetível.

O investigador que mostrou a proximidade genética entre as populações humanas, reduzindo a raça a um conceito cultural sem qualquer justificação biológica, recebeu muitas mensagens de ódio de supremacistas brancos, revelou a revista da Universidade Stanford, num artigo sobre o seu professor emérito em 1999. O ódio fruto da incompreensão e do preconceito não iriam poupar o cientista que derrubou de vez o conceito de raça no sentido biológico na espécie humana.

Fontes: R.it, The Royal Society e Público.

Publicação arquivada em