Antigas cremações de Stonehenge lançam luz sobre a origem dos misteriosos construtores do monumento

Science – Cinco mil anos atrás, o povo de Stonehenge enterrou corpos cremados sob o antigo e misterioso local, perto de Amesbury, Reino Unido. Os arqueólogos há muito acreditam que os restos pertenciam a indivíduos...

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Science – Cinco mil anos atrás, o povo de Stonehenge enterrou corpos cremados sob o antigo e misterioso local, perto de Amesbury, Reino Unido. Os arqueólogos há muito acreditam que os restos pertenciam a indivíduos ligados ao monumento, mas por mais de um século eles não conseguiram descobrir de onde eles vieram ou porque eles foram enterrados no local. Agora, uma nova análise desses restos está fornecendo algumas respostas.

“Este é um estudo extremamente importante”, diz Martin Smith, um antropólogo biológico da Universidade de Bournemouth, em Poole, no Reino Unido, que não esteve envolvido na pesquisa.

Os enterros de 58 indivíduos foram descobertos em 1919. Os ossos cremados tinham sido enterrados em recipientes orgânicos agora desaparecidos, talvez sacos de couro, em poços redondos perto do monumento. Curiosamente, esses poços podem ter contido pedras eretas, assim como restos humanos.

A datação dos restos revelou mais tarde que as cremações foram enterradas durante os primeiros estágios da construção de Stonehenge, de 3000 a 2480 aC. Especialistas ainda discordam sobre o propósito de Stonehenge, sendo que a hipótese predominante é a que defende que o icônico monumento seria um templo relacionado com a observação do movimento do Sol. Outros argumentaram que era um monumento aos mortos, onde, como nas proximidades de Durrington Walls, pessoas de todas as partes se reuniam para se banquetear.

Fragmentos de crânio cremado descobertos em Stonehenge no Reino Unido. Crédito: Christie Willis / UC

Os cientistas sabem que os construtores trouxeram algumas das rochas gigantes do monumento, conhecidas como pedras azuis, de pedreiras nas colinas Preseli — uma série de colinas a 220 quilômetros de distância, no oeste do País de Gales. Os pesquisadores provaram ainda que as pessoas levaram gado oriundos de todos os lados para as proximidades das Muralhas de Durrington, incluindo o País de Gales, embora esse local seja posterior à maioria das cremações em Stonehenge. Esses pesquisadores não tinham quase nada ou nenhuma informação sobre os humanos de Stonehenge, no entanto.

Os cientistas não conseguiram obter muita informação dos restos humanos porque a cremação destrói toda a matéria orgânica, incluindo o DNA. No novo estudo, Christophe Snoeck, um arqueólogo da Universidade de Oxford, no Reino Unido, decidiu analisar os níveis de uma forma do elemento estrôncio nos ossos — os chamados isótopos — que podem revelar onde o falecido viveu uma década ou mais antes da morte.

Os níveis de estrôncio diferem dependendo da geologia local e de outros fatores. Do solo, o estrôncio entra nas plantas. Quando essas plantas são comidas por animais e humanos, o elemento é incorporadas ao tecido e deixam sua assinatura nos ossos. Ao comparar os níveis de estrôncio registrados em diferentes locais com os encontrados em restos humanos, os movimentos de uma pessoa durante a última década de vida podem ser revelados.

Normalmente, os ossos são inadequados para essa forma de análise, diz Snoeck, porque eles absorvem o estrôncio do solo “ofuscando o sinal biológico”. Mas as altas temperaturas da cremação modificaram a estrutura do osso, diz ele, efetivamente selando o osso estrôncio como estava na morte. O fato de que a informação biológica sobreviva às altas temperaturas da cremação só recentemente veio a ser descoberto, diz Snoeck.

A pedreira em Carn Goedog, uma das fontes de pedras azuis nas colinas de Preseli, no oeste do País de Gales, usada pelos construtores de Stonehenge. Crédito: Adam Stanford / Aerial-Cam Ltda.

A equipe estudou os restos mortais de 25 dos indivíduos cremados e enterrados em torno de Stonehenge. O estrôncio em seus ossos sugere que pelo menos 10 deles antes da morte viviam , em vez de nos arredores de Stonehenge no oeste da Grã-Bretanha, provavelmente no oeste do País de Gales,  concluem os pesquisadores em um artigo publicado nesta quinta-feira (02) no Scientific Reports. Os restantes 15 indivíduos parecem ter vivido exclusivamente na região local de Stonehenge, pelo menos na última década de suas vidas.

Outra descoberta intrigante. Usando análise de infravermelho e de isótopos de carbono dos ossos, os pesquisadores mostraram que a madeira usada para cremar alguns dos corpos corresponde à madeira de densa área florestal, como encontrada no País de Gales, em vez da madeira cultivada na região de Stonehenge. Isso os levou a argumentar que alguns indivíduos haviam sido cremados de Stonehenge e levados ao local para serem enterrados.

“A análise das cremações sugere que as comunidades no oeste de Gales não apenas forneceram os arenitos usados para construir Stonehenge, mas também foram autorizados a ser enterrados lá”, diz o coautor John Pouncett, um arqueólogo em Oxford. Isso sugere fortes ligações entre as duas comunidades que remontam aos primeiros dias do monumento, diz ele.

De um modo geral, as descobertas da equipe destacam o movimento de pessoas e materiais entre essas duas regiões. Anteriormente, Smith diz que alguns pesquisadores suspeitaram que pessoas das Colinas Preseli haviam se mudado para a área de Stonehenge e se apropriaram do monumento existente para legitimar sua reivindicação de poder sobre o território. “No entanto, as descobertas atuais sugerem que a ligação entre Stonehenge e o oeste de Gales não apenas se estendeu às fases iniciais das atividades no monumento, mas que essa relação foi mantida por muitos séculos”, diz Smith.

“Como em todos os bons estudos, a pesquisa atual faz surgir outras questões — será interessante ver aonde elas levarão a seguir. ”

Este texto foi primeiramente publicado no site da Science em 02 de agosto de 2018. Leia o texto original de Garry Shaw em “Stonehenge cremations shed light on where mysterious monument builders came from”.

Referência:

  1. SNOECK, Christophe et al. Strontium isotope analysis on cremated human remains from Stonehenge support links with west Wales. Scientific Reports, volume 8, Article number: 10790 (2018). doi:10.1038/s41598-018-28969-8
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