Precisamos de um plano para parar de poluir o espaço antes que seja tarde demais

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Antes de começarmos a colonizar outros planetas, temos que lidar com todo o lixo que já lançamos no nosso.

De Amy Webb* para o WIRED

Há um monte de lixo flutuando no espaço, e esse é um problema do qual estamos falando, com certa irregularidade, desde a década de 1960.

O lixo espacial foi o tema do trabalho “desafio da sociedade futurista” do meu colegial. Naquele ano, três amigos e eu mapeamos a provável linha do tempo e as implicações de todos os pedaços e peças quebradas de espaçonaves inoperantes na desordem orbital, escrevendo cenários sobre como todo aquele lixo acabaria dificultando o lançamento de novos satélites. Nossa solução: uma rede enorme, conectada a um sistema movido por e lançado de um foguete com base em terra.

O mesmo assunto, o lixo espacial, foi tema do debate no meu último ano do ensino médio, quando eu e meus colegas de equipe passaram o ano estudando justificativas e explicações de todas as formas sobre como satélites errantes poderiam causar preocupações nas agências espaciais, instabilidade política e baixas humanas. No segundo ano da faculdade, o tema fez parte da minha aula de política ambiental. Eu escrevi uma dissertação sobre isso. Uma década depois, quando eu estava morando no Japão, um satélite chinês colidiu com um foguete da NASA. O lixo espacial — e as notícias sobre ele — pareciam estar em toda parte, seguindo-me ao longo da vida.

O lixo espacial só chega ao nível de nossa consciência nacional quando algo — um satélite inativo, propulsores de foguetes lançados, partes de espaçonaves tripuladas — nos ameaça na volta à Terra. Estamos falando sobre isso novamente porque, depois de quase sete anos orbitando a Terra, a estação espacial chinesa Tiangong-1 caiu de sua trilha celestial no início deste mês de abril, mergulhando na atmosfera e espalhando detritos por centenas de quilômetros no sul do Oceano Pacífico.

O lixo espacial é um problema que continua a orbitar nossa atenção coletiva e em poucos dias ele voltará a circular. Ignoraremos o problema em nosso próprio detrimento. A Federal Aviation Administration (FAA) está projetando “um número sem precedentes” de lançamentos de satélites entre 2018 e 2020, com algumas estimativas de até 12.000 durante esse período.

Enquanto a Tiangong-1 caia em direção à Terra, do outro lado do mundo em um prédio de escritórios em Washington D.C., a Federal Communications Commission (FCC) dava à SpaceX aprovação provisória para lançar cerca de 4.000 novos satélites em órbita — sem nenhuma preocupação de como lidar com todo esse futuro lixo espacial que eles inevitavelmente se tornaram.

Como humanos, operamos com uma mentalidade “mais atual” — tendemos a fazer planos que abranjam os anos de nossas vidas mais do que qualquer outro período de tempo. O pensamento “no agora” patrocina conquistas tecnológicas, mas também cria um ponto cego sério: esquecemos que nossas ações no presente podem ter sérias consequências no futuro.

Aqui mesmo em terra firme, descartamos dezenas de milhões de toneladas de eletrônicos a cada ano. Sujamos lagos com produtos químicos tóxicos, contaminamos a atmosfera com dióxido de carbono que altera o clima e jogamos tanto plástico nos oceanos que, em 2050, os especialistas acham que haverá mais plástico do que peixes no mar.

O espaço é o nosso próximo depósito de lixo. Cerca de 170 milhões de fragmentos de metal e astro detritos estão ao redor da Terra. Isso inclui 20.000 peças maiores que uma bola de softball e outros 500.000 detritos do tamanho de uma bola de gude, segundo a NASA. Satélites e estações antigos, como a Tiangong-1, são os maiores e mais altos pedaços de lixo, mas a maioria vem de partes de foguetes e até mesmo de ferramentas perdidas por astronautas. O tamanho nem sempre importa — uma lasca de tinta, orbitando em alta velocidade, quebrou o para-brisa do Ônibus Espacial.

Esse entulho representará um risco à navegação por muitos séculos vindouros. Pelo menos 200 objetos rugem de volta à atmosfera a cada ano, incluindo pedaços de painéis solares e antenas e fragmentos de metal. Todos eles representam perigos para futuros astronautas: um pedaço do tamanho de uma ameixa de lixo espacial viajando em alta velocidade mais rápido do que uma bala poderia rasgar um buraco de um metro e meio em uma espaçonave. E essa colisão, então, irá gerar a sua própria constelação de estilhaços, que se juntaria ao rio caudaloso de detritos já circulando o planeta.

Não são só os norte-americanos que estão enchendo o espaço de lixo. China e Rússia têm dúzias de satélites desativados, embora os Estados Unidos certamente façam isso com estilo. Como todo mundo, eu me maravilhei com o lançamento bem-sucedido do foguete Falcon Heavy da SpaceX, cuja carga incluía o Tesla Roaster de Elon Musk e um motorista de manequim chamado Starman. Eu admito, meus olhos realmente encheram de lágrima ouvindo David Bowie enquanto os estágios do foguete se separavam da carga útil. Foi uma conquista tecnológica incrível, uma prova de que o sistema poderá algum dia transportar realmente pessoas e bens — talvez veículos espaciais de verdade e pessoas reais — para o espaço.

Agora que Tesla e seu motorista estão no espaço, o ferro-velho dos Estados Unidos está no céu. É certo que o espaço é grande. Realmente grande. A maior parte dos destroços se eleva cerca de 775 quilômetros (1.250 milhas) acima da superfície da Terra, então você tem chances melhores de ganhar um assento na viagem inaugural da Virgin Galactic do que testemunhar o Starman colidindo na casa do seu vizinho. Mas é o nosso comportamento aqui na Terra — nossa insistência em enviar as coisas, sem realmente pensar em como mantê-las lá ou como trazê-las de volta com segurança — que deveria nos preocupar.

Nós não éramos sempre tão míopes. Antigos americanos nativos viviam segundo o Princípio da Sétima Geração, uma maneira de pensar a longo prazo que considerava como cada decisão afetaria seus descendentes por sete gerações no futuro. No Japão, os monges budistas dedicavam parte de seus rituais diários ao trabalho que buscava garantir a longevidade de suas comunidades, até mesmo plantando e cuidando das florestas de bambu, que eventualmente seriam colhidas, tratadas e usadas para reparar os telhados do templo muitas décadas depois. A cada nova geração, vivemos a vida mais rapidamente que nossos ancestrais. Como resultado, gastamos menos tempo pensando sobre o futuro da humanidade.

Nós agora temos nosso vislumbre da colonização de Marte, na mineração de asteroides para pesquisa e comércio, e nos aventurar até os confins da nossa galáxia. O espaço não é mais a fronteira final; já o exploramos. Nossa abordagem atual é sobre chegar lá, em vez de considerar o que esse “chegar lá” pode significar para as futuras gerações de seres humanos, para não mencionar vivermos em outro lugar no universo.

Onde todo esse lixo acabará não é algo que podemos prever com precisão. Poderíamos estar involuntariamente acabar causando estragos em civilizações distantes da Terra, catalisando futuras guerras intergaláticas. Ou podemos causar problemas menos cintilantes. O lixo espacial poderia começar a se comportar de maneiras imprevisíveis, refletindo a luz do sol na direção oposta, ou mudar nossa atmosfera, ou impactar o universo de maneiras que não se encaixam em nossa compreensão atual da física.

Na semana passada, 30 anos depois que meus amigos e eu criamos uma rede imaginária para capturar detritos espaciais, a SpaceX lançou o RemoveDEBRIS, seu próprio protótipo, uma rede experimental para coletar lixo em órbita. É uma boa ideia, mas, mesmo sendo do ensino médio, sabíamos que era impraticável. As redes por si só não podem ser dimensionadas para lidar com as centenas de milhões de partículas de detritos que já estão em órbita.

O desafio é que todas as nossas agências espaciais estão indissociavelmente ligadas a governos e militares nacionais. Buscar um acordo global sobre como mitigar os detritos envolveria cada país divulgando exatamente o que estava sendo lançado e quando — um cenário improvável. O setor privado poderia colaborar contribuindo limpadores orbitais em grande escala, mas seus interesses comerciais são impulsionados por lançamentos imediatos. Dados todos os lançamentos planejados em nosso futuro próximo, não temos muito tempo para esperar. Precisamos aprender a ser melhores anfitriões de nosso próprio planeta — e nos comprometer com o pensamento de longo prazo — antes de tentarmos colonizar quaisquer outros mundos.

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*Amy Webb (@amywebb) é professora da New York University Stern School of Business e diretora executiva do Future Today Institute, um grupo estratégico de pesquisa e previsão em Washington, D.C.

Fonte: Wired Opinion. Imagem de capa: impressão artística de detritos espaciais em órbita com base em dados de densidade (número de peças por unidade de área em órbita). Crédito: European Space Agency (ESA).

 

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