Risco de câncer da radiação do celular é pequeno, concluíram estudos de dez anos considerados os mais abrangentes

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Dois novos estudos expuseram ratos e camundongos a altos níveis de radiação de radiofrequência — o tipo de radiação emitido pelo seu celular. E os pesquisadores dizem que há pouco risco de câncer para humanos.

Denise Grady para o New York Times1

 Os celulares causam câncer?

Apesar de anos de pesquisa, ainda não há uma resposta clara. Mas dois estudos do governo do governo dos Estados Unidos2, divulgados em fevereiro deste ano, um em ratos e um em camundongos, sugerem que, se houver algum risco, é pequeno, disseram as autoridades de saúde do país.

Questões de segurança sobre telefones celulares veem despertando intenso interesse e debates por anos, já que os dispositivos se tornaram parte integrante da vida da maioria das pessoas. Até mesmo um minuto de risco poderia ser prejudicial a milhões de pessoas.

Esses dois estudos sobre os efeitos do tipo de radiação emitida pelos telefones, conduzidos ao longo de dez anos e custando 25 milhões de dólares, são considerados os mais extensos até hoje.

Em ratos machos, os estudos associaram tumores no coração a alta exposição à radiação dos telefones. Mas esse problema não ocorreu em ratos fêmeas ou em camundongos.

Os roedores nos estudos foram expostos à radiação por nove horas por dia durante dois anos, mais do que as pessoas experimentam mesmo com muito uso de celular, então, os resultados não podem ser aplicados diretamente aos humanos, disse John Bucher, cientista sênior do National Toxicology Program, durante uma entrevista coletiva.

Os resultados, disse Bucher, não o levaram a mudar o uso de seu celular ou a incentivar sua própria família a fazer isso. Mas ele também observou que os tumores de coração — chamados schwannomas malignos — nos ratos são semelhantes aos neuromas acústicos3, um tumor benigno em pessoas que envolvem o nervo que liga o ouvido ao cérebro, que alguns estudos associaram ao uso do celular.

Ele disse que já foram feitos quase vinte estudos com animais sobre o assunto, “com a grande maioria dando negativo em relação ao câncer”.

Outras agências estão estudando o uso do celular em pessoas e tentando determinar se ele está ligado à incidência de qualquer tipo de câncer, disse Bucher.

A agência Food and Drug Administration (FDA)4, uma agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, que é responsável pela proteção e promoção da saúde pública através do controle e supervisão da segurança alimentar, produtos de tabaco, suplementos dietéticos, prescrição e produtos over-the-counter (produtos vendidos no balção, sem receita médica), drogas farmacêuticos, vacinas, biofarmacêuticos, transfusões de sangue, dispositivos médicos, radiação eletromagnética (ERED), cosméticos e alimentos para animais e produtos veterinários, emitiu uma declaração dizendo que respeitava a pesquisa realizada5 pelo National Toxicology Program. O FDA afirmou também que revisou muitos outros estudos sobre segurança de celulares e que “não encontrou evidências suficientes de que há efeitos adversos à saúde em seres humanos causados pela exposição a ou sob os limites da corrente de radiofrequência”.

A declaração, assinada pelo Dr. Jeffrey Shuren, diretor do centro de dispositivos e saúde radiológica do FDA, também afirmou: “Mesmo com uso diário e frequente pela grande maioria dos adultos, não temos visto um aumento em eventos como tumores cerebrais”.

A Comissão Federal de Comunicações (FCC) estabelece limites para a emissão de energia de radiofrequência nos telefones celulares a que as pessoas estarão expostas, mas o FCC depende do FDA e outras agências de saúde para aconselhamento científico sobre a determinação dos limites, disse o comunicado.

Para as pessoas que se preocupam com o risco, as autoridades de saúde oferecem conselhos de bom senso: gaste menos tempo em celulares, use o fone de ouvido ou modo de alto-falante para que o telefone não seja pressionado contra a cabeça e evite fazer chamadas se o sinal estiver fraco.

O Dr. Bucher observou que a radiação emitida aumenta quando os usuários estão em pontos onde o sinal é fraco ou esporádico e o celular tem que trabalhar mais para se conectar.

Em dezembro, a Califórnia divulgou conselhos aos consumidores6 sobre como diminuir a exposição à radiofrequência dos celulares. Os conselhos incluem atitudes como enviar mensagens de texto em vez de conversas; manter o telefone longe da cabeça e do corpo durante o download ou o envio de arquivos grandes; transportar o telefone em uma mochila, pasta ou bolsa, não em um bolso, sutiã ou cinto; e não dormir com o telefone perto da sua cabeça.

Os dois estudos divulgados em fevereiro, envolvendo 3.000 animais, são “as avaliações mais abrangentes dos efeitos sobre a saúde e a exposição à radiação de rádio frequência em ratos e camundongos até hoje”, de acordo com um comunicado do National Toxicology Program, um programa parte do Instituto Nacional de Ciências da Saúde Ambiental (National Institute of Environmental Health Sciences – NEIHS7).

Os estudos estendem os resultados parciais divulgados8 em maio de 20169, que encontraram pequenos aumentos na incidência de tumores no cérebro e no coração de ratos machos, mas não de fêmeas.

Os novos estudos também encontraram tumores no cérebro e alguns em outros órgãos nos animais expostos à radiação de radiofrequência. Mas Bucher disse que essas descobertas foram “equivocadas”, enfatizando que apenas os tumores do coração forneceram evidências fortes o suficiente para serem consideradas pelos pesquisadores. Outros possíveis efeitos precisam de mais pesquisas, ele disse.

Outros pesquisadores acham que mesmo as descobertas ambíguas são preocupantes. Joel M. Moskowitz, diretor do Centro de Saúde da Família e da Comunidade10 da Escola de Saúde Pública da Universidade da Califórnia, em Berkeley, disse que, com base nos resultados gerais do estudo, o governo deveria reavaliar e fortalecer os limites que impõe sobre quanto e quais tipos de radiação os celulares podem emitir.

Os cientistas não sabem por que apenas ratos machos desenvolvem os tumores do coração, mas Bucher disse que uma possibilidade é simplesmente porque os machos são maiores e absorvem mais radiação.

Os estudos também encontraram alguns danos ao DNA dos animais expostos. Uma surpresa, já que os cientistas acreditavam que a radiação de radiofrequência — ao contrário da radiação ionizante em raios-X — não poderia prejudicar o DNA.

“Não achamos que entendemos o suficiente sobre os resultados para ser capazes de depositar um alto grau de credibilidade nesses resultados”, disse Bucher se referindo aos achados sobre as alterações no DNA.

Uma descoberta aparentemente paradoxal que também intrigou os pesquisadores é que os ratos expostos à radiação do celular na verdade viviam mais que os do grupo de controles. Uma possível explicação, disse Bucher, é que a radiação pode aliviar a inflamação e diminuir a gravidade de um distúrbio renal crônico que é comum em ratos idosos e que pode matá-los.

Perguntado se havia alguma chance de que o uso de celulares pudesse ajudar as pessoas a viverem mais tempo, o Dr. Bucher disse: “A extrapolação para os humanos requer uma série de medidas que vão além do que estamos estudando aqui. Eu acho que essa pergunta em particular não pode ser respondida no momento”.

Os relatórios divulgados em 02 de fevereiro são versões preliminares lançadas para comentário público e uma versão revisada por especialistas externos foi divulgada11, em 26 a 28 de março, pelo Research Triangle Park do NIEHS, na Carolina do Norte.

Fonte: The New York Times

Referências:

  1. GRADY D. Cancer Risk From Cellphone Radiation Is Small, Studies Show. The New York Times, 02 de fevereiro de 2018. < https://www.nytimes.com/2018/02/02/health/cell-phones-cancer.html>;
  2. Draft Reports, Public Comments, and Related Information: TR Peer Review Panel. National Toxicology Program; https://ntp.niehs.nih.gov/about/org/sep/trpanel/meetings/docs/2018/march/index.html;
  3. O que é neuroma acústico? AbcMed, 2018. <http://www.abc.med.br/p/sinais.-sintomas-e-doencas/1264094/neuroma+acustico.htm>
  4. Food and Drug Administration (FDA) https://www.fda.gov/ ;
  5. Statement from Jeffrey Shuren, M.D., J.D., director of the FDA’s Center for Devices and Radiological Health on the recent National Toxicology Program draft report on radiofrequency energy exposure. Food and Drug Administration (FDA), 02 de fevereiro de 2018. <https://www.fda.gov/NewsEvents/Newsroom/PressAnnouncements/ucm595144.htm>;
  6. How to Reduce Exposure to Radiofrequency Energy from Cell Phones. California Department of Public Health – Division of Environmental and Occupational Disease Control. <https://www.cdph.ca.gov/Programs/CCDPHP/DEODC/EHIB/CDPH%20Document%20Library/Cell-Phone-Guidance.pdf>
  7. National Institute of Environmental Health Sciences – NEIHS. <https://www.niehs.nih.gov/>
  8. WYDE M et al.Report of Partial findings from the National Toxicology Program Carcinogenesis Studies of Cell Phone Radiofrequency Radiation in Hsd: Sprague Dawley® SD rats (Whole Body Exposure). BioRxiv. 2016. doi: https://doi.org/10.1101/055699 <https://www.biorxiv.org/content/early/2016/05/26/055699>
  9. POLLACK A. Questions and Answers on the New Study Linking Cellphones and Cancer in Rats. The New York Times, 2016. <https://www.nytimes.com/2016/05/28/health/cancer-study-radiation-cellphones.html>;
  10. Joel M. Moskowitz, PhD. School of Public Health – Berkeley University. <http://sph.berkeley.edu/joel-moskowitz>;
  11. Peer Review of the Draft NTP Technical Reports on Cell Phone Radiofrequency Radiation. National Toxicology Program – NTP <https://ntp.niehs.nih.gov/about/org/sep/trpanel/meetings/index.html#20180328>