O criador da ovelha Dolly, chave no estudo de parkinson, tem a doença

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Duas décadas depois de criar a ovelha clonada Dolly, que ajudou a abrir caminho para novas pesquisas sobre a doença de Parkinson, Ian Wilmut, 73, revelou nesta quinta (12) que está sofrendo da doença.

Wilmut, que vive na Escócia, anunciou no dia mundial da doença de Parkinson que foi diagnosticado como portador da doença quatro meses atrás e que participaria de um grande programa de pesquisa para testar novas formas de tratamento cuja intenção é retardar o seu avanço.

“Iniciativas desse tipo são muito efetivas não só por promoverem mais união entre as pessoas mas porque incluem pessoas com experiências e conhecimentos diferentes”, afirmou Wilmut em comunicado. Ele estava se referindo à nova Iniciativa Dundee-Edimburgo de Pesquisa sobre a doença de Parkinson, que tem por objetivo investigar as causas da doença e traduzir descobertas científicas em novas terapias.

“Foi em um terreno assim fértil que Dolly foi desenvolvida, e podemos esperar benefícios semelhantes do novo projeto”, ele acrescentou.

Em 1996, Wilmut e uma equipe de cientistas do Instituto Roslin, de Edimburgo, clonaram uma ovelha adulta, e com isso nasceu Dolly. A realização deles foi um choque para os pesquisadores que não acreditavam que clonagem fosse possível.

Mas o nascimento de Dolly provou que células extraídas de qualquer parte do corpo podiam se comportar como óvulos recentemente fertilizados, uma ideia que transformou o pensamento científico e encorajou pesquisadores a encontrar técnicas para reprogramar células adultas.

As novas pesquisas conduziram à descoberta das células-tronco pluripotentes induzidas (ou IPSc), que são muito promissoras como terapia para a doença de Parkinson, por conta de seu potencial de reparar tecidos danificados, de acordo com a Iniciativa Dundee-Edimburgo de Pesquisa sobre a enfermidade.

Essas células-tronco agora estão sendo usadas no Centro MRC de Medicina Regenerativa, em Edimburgo, para desenvolver medicamentos de tratamento do parkinson e outras doenças. Os primeiros testes clínicos de tratamentos com IPSc para o Mal de Parkinson serão realizados no Japão este ano, de acordo com a organização.

“Todas as tentativas de retardar a progressão da doença de Parkinson fracassaram, até agora”, afirmou o professor Dario Alessi, bioquímico da Universidade de Dundee, na Escócia. Ele destacou que o medicamento mais usado no combate à enfermidade hoje, a levodopa, foi usado pela primeira vez para fins clínicos em 1967.

“Nos últimos anos, porém, nosso conhecimento sobre a genética e a biologia subjacentes ao parkinson avançou muito”, disse Alessi. “Sinto-me otimista e não seria exagero supor que, com um esforço coordenado de pesquisa, grandes avanços venham a ser conseguidos no tratamento da doença”.

Wilmut disse que decidiu revelar seu diagnóstico porque acreditava que isso pudesse ser útil no contexto da pesquisa.

“O diagnóstico trouxe um senso de clareza —pelo menos ficamos sabendo, e podíamos começar a trabalhar quanto a isso”, ele disse em entrevista à BBC Escócia. “Além, claro, da decepção com a possibilidade de que a doença encurte um pouco a minha vida, ou, mais especialmente, altere minha qualidade de vida”.

Ele vive em uma região rural e montanhosa da Escócia e gosta de caminhar, mas disse que as atividades físicas se tornaram mais difíceis depois do diagnóstico.

Wilmut disse ao jornal Times, de Londres, que estava feliz por poder “funcionar como rato de laboratório, e doar tecidos ou testar novos tratamentos”.

A doença de Parkinson é um distúrbio progressivo do sistema nervoso que afeta o movimento e pode causar tremores involuntários. Até agora, os tratamentos desenvolvidos ajudam apenas a administrar os sintomas, mas não existe remédio ou terapia para retardar ou deter a progressão da doença.

“As pessoas que sofrem da doença de Parkinson precisam de diagnóstico mais preciso e conseguido mais cedo, de previsões de como a doença vai progredir e, o mais importante, da oportunidade de participar do teste clínico de novos tratamentos”, disse o Dr. Tilo Nunath, líder de um grupo de pesquisa no Centro MRC de Medicina Regenerativa, em email.

Dolly morreu em 2003 depois de uma infecção pulmonar, e seu corpo foi doado ao Museu Nacional da Escócia, onde é uma das peças de exibição mais populares, de acordo com o Instituto Roslin.

“Ela representou uma face amiga para a ciência”, disse Wilmut em entrevista ao jornal The New York Times quando da morte de Dolly. “Era um animal muito amistoso que foi parte de um grande avanço científico”.

Tradução de PAULO MIGLIACCI do The New York Times para a Folha de S. Paulo.

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