Na busca por vida extraterrestre, os cientistas estão pesquisando em todos os cantos.

Marte, por exemplo, tem características geológicas que sugerem que uma vez teve — e ainda tem — água líquida na subsuperfície1, um pré-requisito quase certo para a vida. Os cientistas também observaram as luas de Saturno, Titã (o maior satélite do planeta) e Encélado, e as luas de Júpiter, Europa, Ganimedes (ou Ganímedes, o principal satélite natural do planeta) e Calisto, como possíveis refúgios para a vida nos oceanos sob suas crostas geladas2.

Agora, no entanto, os cientistas estão tirando a poeira de uma ideia antiga que promete uma nova visão na caça pela vida além da Terra: vida nas nuvens de Vênus3.

Em um artigo publicado on-line hoje em 30 de março deste ano no periódico científico Astrobiology4, uma equipe internacional de pesquisadores liderados pelo cientista planetário Sanjay Limaye, do Centro de Ciência e Engenharia Espacial da Universidade do Wisconsin-Madison, expõe um argumento favorável à existência de vida na atmosfera de Vênus, um nicho possível para a vida microbiana extraterrestre.

“Vênus teve bastante tempo para evoluir a vida por conta própria”, explica Limaye, observando que alguns modelos sugerem que Vênus já teve um clima habitável com água líquida em sua superfície por até dois bilhões de anos. “Isso é muito mais do que se acredita ter ocorrido em Marte”, explicou o cientista5.

Na Terra, os microrganismos terrestres — principalmente bactérias — são capazes de ser arrastados para a atmosfera, onde já foram encontrados vivos em altitudes de até 41 quilômetros por cientistas usando balões especialmente equipados, de acordo com o coautor David J. Smith, do Centro de Pesquisa Ames da NASA.

Há também um crescente catálogo de micróbios conhecidos por habitarem ambientes de condições incrivelmente adversas em nosso planeta, incluindo fontes termais de Yellowstone, fontes hidrotermais nos oceanos profundos, lodo tóxico das áreas poluídas e lagos ácidos em todo o mundo.

“Na Terra, sabemos que a vida pode prosperar em condições muito ácidas, pode se alimentar de dióxido de carbono e produzir ácido sulfúrico”, diz Rakesh Mogul, professor de química biológica da Universidade Politécnica do Estado da Califórnia, em Pomona, e coautor do novo paper. Ele observa que a atmosfera nublada, altamente reflexiva e ácida de Vênus é composta principalmente de dióxido de carbono e gotículas de água contendo ácido sulfúrico.

Esta é a Venus Atmospheric Maneuverable Platform, ou VAMP. A aeronave, que voaria como um avião e flutuaria como um dirigível, poderia ajudar a explorar a atmosfera de Vênus, que tem condições de temperatura e pressão que não impedem a possibilidade de vida microbiana. Crédito: Northrop Grumman Corp.

A habitabilidade das nuvens de Vênus foi levantada pela primeira vez em 1967 pelo renomado biofísico Harold Morowitz e pelo famoso astrônomo Carl Sagan. Décadas mais tarde, os cientistas planetários David Grinspoon, Mark Bullock e seus colegas expandiram a ideia.

Apoiando a noção de que a atmosfera de Vênus poderia ser um nicho plausível para a vida, uma série de sondas espaciais lançadas entre 1962 e 1978 mostraram que as condições de temperatura e pressão nas porções inferior e média da atmosfera venusiana — altitudes entre 40 e 60 quilômetros (25-27 milhas) — não impediria a vida microbiana. As condições da superfície do planeta, no entanto, são conhecidas por serem inóspitas, com temperaturas acima de 450 graus Celsius (860 graus Fahrenheit).

Limaye, que conduz sua pesquisa sobre Vênus como cientista participante da NASA na missão Akatsuki da Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA) estava ansioso para revisitar a ideia de explorar a atmosfera do planeta após um encontro casual em um workshop de professores com o coautor Grzegorz Słowik, da Universidade de Zielona Góra, Polônia.

Słowik tornou Limaye ciente da existência de bactérias aqui na Terra com propriedades de absorção da luz semelhantes às de partículas não identificadas compondo manchas escuras inexplicadas observadas nas nuvens de Vênus. Observações espectroscópicas, particularmente no ultravioleta, mostram que as manchas escuras são compostas de ácido sulfúrico concentrado e outras partículas desconhecidas que absorvem luz.

Vênus teve bastante tempo para evoluir a vida por conta própria. Isso é muito mais do que se acredita ter ocorrido em Marte.Sanjay Limaye, cientista do Centro de Ciência e Engenharia Espacial da Universidade do Wisconsin-Madison.

Essas manchas escuras são um mistério desde que foram observadas pela primeira vez por telescópios terrestres há quase um século, diz Limaye. Elas foram estudadas em mais detalhes por seguidas sondas enviadas ao planeta.

“Vênus mostra algumas manchas escuras e sulfúricas pontuais, com contrastes de até 30-40% no ultravioleta e silenciadas em comprimentos de onda maiores. Essas manchas persistem por dias, mudando sua forma e contrastando continuamente e parecem ser dependentes da escala ”, diz Limaye.

As partículas que compõem as manchas escuras têm quase as mesmas dimensões que algumas bactérias na Terra, embora os instrumentos que pesquisaram a atmosfera de Vênus até o momento foram incapazes de distinguir entre materiais de natureza orgânica ou inorgânica.

Os fragmentos poderiam ser algo parecido com as florações de algas que ocorrem rotineiramente nos lagos e oceanos da Terra, de acordo com Limaye e Mogul — apenas essas precisariam ser validadas na atmosfera venusiana.

Limaye, que passou sua carreira estudando atmosferas planetárias, foi ainda mais inspirado a revisitar a ideia de vida microbiana nas nuvens de Vênus por uma visita a Tso Kar, um lago salgado de alta altitude no norte da Índia. Lá ele observou que do resíduo pulverulento, onde bactérias fixadoras de enxofre concentravam-se na grama decadente à beira do lago sendo, então, sopradas para a atmosfera.

O cientista da Wisconsin-Madison observa, no entanto, que uma parte da equação que não é conhecida é quando a água líquida de Vênus evaporou — fluxos extensos de lava nos últimos bilhões de anos provavelmente cobriram e destruíram a anterior história térrea do planeta.

Na busca por vida extraterrestre, as atmosferas planetárias permanecem amplamente inexploradas.

Uma possibilidade para colher amostras das nuvens de Vênus, diz Limaye, está na prancheta: a VAMP, ou Venus Atmospheric Maneuverable Platform, uma nave que voa como um avião, mas flutua como um planador e pode permanecer no ar na camada de nuvens do planeta por até um ano coletando amostras e enviando dados.

Tal aeronave poderá ter instrumentos como Raman Lidar, sensores meteorológicos e químicos, e espectrômetros, diz Limaye. “E ela também pode carregar um tipo de microscópio capaz de identificar microorganismos vivos.”

“Para realmente saber [se há microorganismos vivendo nas nuvens de Vênus], precisamos ir lá e coletar amostras nas nuvens”, diz Mogul. “Vênus poderá ser um fantástico novo capítulo na exploração de astrobiológica.”

Limaye e seus colegas continuam esperançosos de que tal capítulo possa ser aberto, já que há discussões em andamento sobre a possível participação da NASA na missão Venera-D da Roscosmos, agora prevista para o final de 2020. Os planos atuais para a Venera-D podem incluir uma estação orbital, um veículo em solo (os chamados landers ou rovers) e, como participação da NASA, uma estação de superfície, além de uma plataforma aérea manobrável.

Fonte: University of Wisconsin–Madison e Astrobiology Magazine.

Referências:

  1. GLENN, Robert Jr. New Evidence for a Water-Rich History on Mars. Berkeley Lab News Release. (2017) https://www.astrobio.net/mars/new-evidence-water-rich-history-mars/
  2. HOWELL, E. How Can We Search For Life On Icy Moons Such As Europa? Astrobiology (2014) https://www.astrobio.net/news-exclusive/can-search-life-icy-moons-europa/
  3. COOPER, K. Could Dark Streaks in Venus’ Clouds Be Microbial Life? Astrobiology (2014). https://www.astrobio.net/venus/dark-streaks-venus-clouds-microbial-life/
  4. LIMAYE, Sanjay S et al. Venus’ Spectral Signatures and the Potential for Life in the Clouds. Astrobiology (Online Ahead of Print: March 30, 2018) http://doi.org/10.1089/ast.2017.1783
  5. DEVITT,Is there life adrift in the clouds of Venus? University of Wisconsin–Madison News (2018). https://news.wisc.edu/is-there-life-adrift-in-the-clouds-of-venus/

 

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