Estaremos prontos para deixar uma pegada humana em Marte em 15 anos?

A contagem regressiva para enviar seres humanos a Marte começou. Mas o que será necessário, o que já planejamos — e realmente será possível estarmos preparados em quinze anos? Se você já quis alguma vez visitar...

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A contagem regressiva para enviar seres humanos a Marte começou. Mas o que será necessário, o que já planejamos — e realmente será possível estarmos preparados em quinze anos?

Se você já quis alguma vez visitar Marte, 2018 é realmente o momento ideal.

Em julho deste ano, Terra e Marte estarão mais próximo do que em qualquer outro ponto nos últimos 15 anos. Estarão em oposição periélica, o que significa que Marte alcançará o ponto mais próximo do Sol em sua órbita elíptica enquanto a Terra passa simultaneamente diretamente entre Marte e Sol. A máxima aproximação entre os dois planetas acontecerá em 31 de julho, quatro dias depois de Marte passar pelo seu periélio.

Separado por 57,8 milhões de quilômetros ou 35,8 milhões de milhas — imensa distância para os padrões terrestres, modesta na escala de viagens interplanetárias — poderia, em tese, permitir a viagem unidirecional em pouco mais de 200 dias (em comparação com os 250 dias necessários quando os planetas estão mais distantes).

Infelizmente, não estamos prontos para enviar seres humanos para Marte em 2018. O projeto Inspiration Mars de Dennis Tito, um milionário que se tornou o primeiro turista espacial da história  (ele pagou vinte milhões de dólares em 2001 para que um foguete russo o levasse até a Estação Espacial Internacional) ao mesmo tempo, escolheu 2018 como o ano para enviar um casal em um um sobrevoo ao redor de Marte, mas os desafios se mostraram tão grandes que a missão foi cancelada.

Nós fizemos grandes avanços nos últimos anos com rovers e robôs. Mas há muito ainda que precisamos entender sobre como levar as pessoas a Marte de forma segura e barata. No entanto, o relógio continua girando. Em 15 anos, quando a Terra e Marte mais uma vez estiverem tentadoramente próximos, a Nasa pretende pousar sua primeira missão tripulada em Marte. A empresa de exploração aeroespacial SpaceX tem uma data alvo ainda mais ambiciosa: 2024.

Então a pergunta a se fazer é: estaremos prontos?

Se vamos colocar algumas pegadas humanas em Marte nos próximos 15 anos, precisaremos enfrentar três grandes desafios: foguetes, tédio e radiação. Aqui está um breve resumo dos problemas e dos planos, para este ano e para os próximos, para mitigar os desafios.

Foguetes

Qual é o problema? Levar humanos para Marte é caro. Com as tecnologias atuais, uma missão de ida e volta pode custar entre 100 e 500 bilhões de dólares.

É com ou sem uma refeição no voo? Mesmo se você ignorar os lanches durante os voos, a única maneira de realmente reduzir esses custos e mudar a os custos da viagem para Marte é construir foguetes reutilizáveis.

Isso é possível? Elon Musk da SpaceX acredita que sim. Eles já realizaram o lançamento e pouso do Falcon 9. E este ano, eles estão planejando o primeiro voo de teste do Falcon Heavy. Se for bem-sucedido, este será um passo crítico para demonstrar a capacidade da SpaceX de enviar uma nave espacial além da órbita da Terra.

E o que vem depois? A SpaceX eventualmente planeja substituir sua frota atual por um único foguete de tamanho único, chamado BFR, capaz de transportar 100 pessoas e uma carga útil de 150.000 quilogramas.

Eu acho que B é para Big, R é para Rocket e o F é para …? Você descobriu isso? A coisa crítica a saber é que as partes do BFR seriam principalmente reutilizáveis, reduzindo drasticamente os custos.

Parece bom. Quando partimos? Duas missões de carga BFR estão planejadas para 2022, seguidas por mais duas missões de carga e duas equipes já em 2024.

Então, você acha que estaremos prontos em 15 anos? Sim, quase com certeza. As linhas de tempo da SpaceX podem mudar. Mas com base no histórico de Musk, as coisas parecem boas.

Tédio

Qual é o problema? A viagem a Marte será muito chata.

Isso nunca foi um problema no Star Trek. Por quê? Longos períodos sem estimulação, olhando para a imensidão negra do espaço, podem levar a cegueira, problemas cardíacos e depressão.

Mas eles são astronautas. Eles podem lidar com isso, certo? Você está certo. Os astronautas passam por testes psicológicos intensivos. Mas nenhuma missão na história os colocou nos desafios de tédio de uma missão para Marte.

Então, o que fazemos sobre isso? Há muita coisa que podemos aprender na Terra. Um exemplo é o projeto Hi-Seas (Hawaii Space Exploration Analog and Simulation) que foi executado nos últimos cinco anos. Ele coloca grupos de “astronautas” por até oito meses isolados ao lado de um vulcão. O objetivo é imitar as condições da vida em Marte e na prática faremos melhor para compreender os efeitos psicológicos.

E o que aprendemos? Uma das melhores maneiras de lidar com o tédio é manter-se ocupado. Durante as simulações no Havaí, os horários dos participantes foram encurtados com o trabalho do pôr-do-sol ao nascer do sol. Ainda neste ano, outro grupo participará do projeto e aprenderemos ainda mais.

Muito trabalho e nenhuma diversão… Deixam o dia muito sem graça. Elon Musk acredita que, para que as pessoas realmente desejem ir a Marte, a jornada deve ser divertida. É por isso que os planos para compartimento de tripulação do BFR incluem jogos de gravidade zero, filmes, salas de conferências, cabines e um restaurante, Musk acredita que os passageiros “vão ter ótimos momentos” a bordo.

E então, estaremos prontos em 15 anos? Não haverá nenhuma maneira de realmente saber isso até que possamos fazê-lo. Mas há sinais positivos.

Um cientista usa um simulador de traje espacial Aouda Mars no Marrocos. As missões de Marte estão no horizonte, mas ainda não está claro se os humanos serão capazes de sobreviver a elas. Fotografia: Reuters
Um cientista usa um simulador de traje espacial Aouda Mars no Marrocos. As missões de Marte estão no horizonte, mas ainda não está claro se os humanos serão capazes de sobreviver a elas. Fotografia: Reuters

Radiação

Qual é o problema? As radiações cósmica e solar são perigosas que podem causar prejuízos à visão, demência e câncer.

Devo levar protetor solar com SPF 50? Sem a proteção da atmosfera e do campo magnético terrestres isso não ajudará. Uma viagem de ida para Marte iria expor o viajante a mais de quinze vezes o limite de radiação anual para um trabalhador em uma usina de energia nuclear.

O que seria necessário para proteger os astronautas? Existem opções para blindagem, como cascos mais espessos ou revestimentos de água. Mas estes ainda podem ser facilmente penetrados por qualquer raio de alta energia.

E eu aposto que a blindagem não é barata. Correto. A blindagem aumenta a massa, o que aumenta o consumo de combustível, o que aumenta o custo de qualquer missão.

Então, como lidar com isso? Nos próximos dez anos, a prioridade será pesquisar. Os dados da Estação Espacial Internacional, do Laboratório de Ciência de Marte e até mesmo da Voyager 1 já estão nos ajudando a estabelecer um quadro mais detalhada do “clima espacial”, o que permitirá um melhor planejamento e sincronia das missões.

Estarão fazendo alguma coisa 2018? Em maio, a Nasa lançará a muito aguardada Mars InSight (Interior Exploration using Seismic Investigations, Geodesy and Heat Transport,) sendo que a tradução da sigla ficaria algo como “Exploração Interior usando Navegação Sísmica, Geodesia e Transporte de Calor”. Pousando no final de novembro, sua principal missão será compreender a atividade sísmica em Marte, mas o magnetômetro da sonda (o “lander” da nave) a bordo também examinará o comportamento da radiação do vento solar na superfície marciana.

E no longo prazo? Em última análise, a melhor solução pode ser apenas chegar a Marte mais rapidamente — e assim minimizar o tempo de exposição — mas isso significaria foguetes mais velozes.

E aí, estaremos prontos em 15 anos? Duvidoso. A radiação representa indiscutivelmente a nossa maior ameaça. Claramente, os desafios no envio de seres humanos para Marte são imensos. Mas também as oportunidades são gigantes, e continuo otimista de que veremos uma pegada humana em Marte nos próximos 15 anos. Como Elon Musk disse uma vez: “Eu acho fundamental que o futuro seja muito mais estimulante e interessante se formos uma civilização espacial e uma espécie multiplanetária do que se não os fizermos”.

 

De Zahaan Bharmal para o The Guardian ScienceZahaan Bharmal trabalha para o Google e foi premiado com a Medalha de Conquista Pública Excepcional da NASA. Este artigo foi escrito a título pessoal.

 

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